Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

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9:00 PM

Sim, é possível
LETRA PARA UM HINO

É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.


Manuel Alegre



Rabiscado por Andarilha descalça

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9:34 PM

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?


David Mourão-Ferreira



Rabiscado por Andarilha descalça

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9:17 PM

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.


Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.


Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.


Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,


Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.




Rabiscado por Andarilha descalça

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8:50 PM

Mulheres

A visão da história se repete
E designa simples mortais,
Heróis, armaduras e batinas,
Mulheres santas, cafetinas,
Brancas das Ilhas, mulatas da Bahia,
Negras de Angola,
Italianas da Lombardia,
Alemãs da Pomerânia,
Mulheres lindas e vadias,
Levando odres de vinho,
Ouvindo dobres de sino
Batendo na freguesia.
Mulheres agüentando machos
Em seus corpos e sesmarias,
Mulheres de tantas cores
Parindo na ventania.
Mulheres índias fazendo cestos,
Fazendo filhos no meio do mato,
Rezando para o deus dos vencidos,
Mulheres índias mascando inhame
Para a chicha dos guaranis.

Mulheres de tantas cores
Palmilhando campo e história,
Mulheres esquecidas lavando panos e memórias,
Mulheres guerreiras de faca e pistola,
Mulheres montando potros
Plantando milho e vitórias.
Mulheres sangrando lua nas terras ainda sem dono.

Mulheres levando bivaques
Acompanhando batalhas,
Para enterrar os mortos,
Outras para saqueá-los.
Mulheres levando fronteiras nas aspas dos touros,
Mulheres sendo princesas de perdidos mouros.

Mulheres fazendo terra,
Tremendo os horizontes,
Mulheres amamentando
Machos e fêmeas
Bezerros e bizontes.

Mulheres são Ana Terra,
Heroínas de romances,
Mulheres são santificadas
Como Marias-degoladas.

Mulheres são Marias
E são Madalenas,
São puras e são matreiras,
São virgens
Namoradeiras.

Mulheres vão povoando
Os campos, as sesmarias,
Vão levando seus maridos,
Seus amantes, seus quebrantos.

Mulheres foram tantas
E fizeram tempo e história,
Mulheres dóceis e valentes,
Parindo guerreiros e gentes.

Mulheres e mais mulheres,
De todas as etnias,
Mulheres de fartos seios amamentando
O futuro que se anuncia.
(...)


de José Eduardo Degrazia




Rabiscado por Andarilha descalça