Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.
(Essência do olhar)
Selo amizade

Meu award


9:29 PM
NÃO TENHAS MEDO DO AMOR
Maria do Rosário Pedreira
Não tenhas medo do amor.
Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo.
A vida nunca
foi só inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros:
explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão de pedir-to quando chegar a primavera.
Rabiscado por Andarilha descalça
8:33 PM
LIBERTAS (para os sem-tudo)
Eles vivem à margem do saber.
Não conhecem,
não sabem,
por certo sequer imaginam.
Ali bem perto,
escritores da terra reunidos,
imortalizados em bronze,
posam para a posteridade.
Eles, deitados lado a lado,
em plena tarde,
se acomodam para dormir.
Um céu de letras os protege.
Pensamentos, sentimentos,
palavras escritas através dos tempos,
faladas por mil bocas.
Eles, não conhecem.
Este chão de lutas recebe seus passos.
Descalços, errantes, incertos.
Eles, não sabem.
E a bandeira tremula ao longe.
Branca e rubra, sangue e paz.
Libertadora, de ontem para sempre.
Mas eles, por certo, sequer imaginam.
Assim, um grupo maltrapilho,
tão filhos desta terra quanto tantos outros,
adormecem sob a Biblioteca,
em plena praça da Liberdade.
E sonham...
talvez com ela.
Maria Luíza Falcão
Rabiscado por Andarilha descalça
7:51 PM
Bem-Aventurados os Versos
Ivaldo Gomes
Bem-aventurados os versos que
Vercejam nos campos da inconsciência.
Que se fazem conscientes, presentes,
A se mostrar pra mim.
Bem-aventurados os versos que
Passeiam em tua fronte, fonte
De inspiração e versos.
Reverso do meu não pensar.
Bem-aventurados os versos que
Virgílio, Camões e Pessoa nos deixaram
Como herança, como poupança
Dos sonhos seus.
Bem-aventurados os versos que
Que por mais que se escondam, afloram
A mais leve vontade de cantar, do sorriso
Maroto do vento na beira mar.
Bem-aventurados os versos que
Apesar de apenas versos, falam do
Amor por este lugar.
Bem-aventurados os versos que
Cantam dentro de mim, sem esforço,
Sem dor e sem rancor.
Bem-aventurados os versos que
Não me deixam mentir, sucumbir, sumir,
Fugir de mim.
Bem-aventurados os versos que
Me ocupa os espaços, quando muitas
Vezes acho que não mais existem.
Bem-aventurados os versos que
Me dizem como é bela a vida, vivida,
Morrida, enfim.
Rabiscado por Andarilha descalça
3:17 PM
Na Tua Vida
Eu quero ser na tua vida um gesto!
A ternura dum beijo dado a medo
Nem passeata, discurso ou manifesto
Canção de ninar ou de protesto
Um gesto, um simples gesto,
Ou um segredo!
Eu quero ser na tua vida, um ponto!
Ponto de combustão, ponto do prumo
Ponto cardeal ou contraponto,
O ponto final dum texto pronto
Um ponto
Partida ou chegada a qualquer rumo!
Eu quero ser na tua vida o nada!
Ausência total, coisa nenhuma
Vazio absoluto, nada, nada
Nada de porta aberta, escancarada
O nada
Todo brisa, todo bruma!
Eu quero ser na tua vida cheiro!
Forte, que perturba, que inebria,
Mas não de poder ou de dinheiro
Um cheiro de povo
Um simples cheiro
De giesta de serra e maresia!...
Maria Mamede
Rabiscado por Andarilha descalça
4:59 PM
A QUEM INTERESSAR...
José Geraldo Martinez
A quem interessar possa :
a noite é estrelada e guardiã,
as flores dormem orvalhadas nos jardins,
as ruas desertas esperam por passos,
as estradas do mundo, os sonhos sem fim...
O sol pede um rosto na fresca manhã,
nas janelas que o mofo marcou a presença...
O abraço aguarda um acaso na rua,
a solidão desse dia clamando da ausência !
Um parceiro espera um chamado à dança,
um convite o aguarda, o vento o espera...
Quer fugir do seu eu, a inocente criança,
que há tempos na vida você não libera!
Há mãos que carecem serem tocadas .
Alguém esperando por um beijo ...
Um lugar que leve ao nada ,
a uma simples goiabada com queijo!
Há cadeiras no cinema vazias,
um filme propício a namorados ...
Chocolates pelas madrugadas frias,
amores não confessados !
Telefones que aguardam chamadas,
amizade , esperando o amigo...
Cartas a serem enviadas,
um perdão a ser pedido !
A quem interessar possa :
o tempo para esquecer,
os dias para sonhar,
a vida para viver !
Rabiscado por Andarilha descalça
10:46 PM
Monólogo de um amor além do tempo
Pega o teu jeito de gostar da vida
e vem tentar, de novo, resgatar-me
da solidão de nem saber que é festa
o baile do outro lado da calçada.
Dá-me o sorriso de cumplicidade
daquelas noites de feitiçaria
em que as sombras saltavam da parede
para o velho caderno de poesia.
Sei que já me explicaste, mas preciso
ouvir, mil vezes, que é predestinado
o nosso querer bem de tanto tempo,
o nosso olhar nos olhos, sem palavras,
sem pedidos inúteis de desculpa.
Vem, simplesmente, senta-te ao meu lado
e recosta a cabeça no meu ombro,
faz de conta que nem chegaste agora,
estavas no jardim a colher flores,
na cozinha passando um cafezinho,
dando nome às estrelas na varanda,
espalhando sorrisos pela casa.
Beija-me, assim, da forma que não muda
desde a primeira vez que nos beijamos.
É nosso beijo, aquele que inventamos
como senha de acesso aos nossos corpos,
que jamais se possuem, sempre se entregam
ao romance, ao desejo, à parceria.
Que nesse rito de acasalamento,
em que sou teu discípulo e teu mestre,
aconteça um milagre, um recomeço,
sejas cativa em meu mundo encantado
e eu seja livre em ti que nem mereço.
Alberto Cohen

Rabiscado por Andarilha descalça
7:54 PM
Nem águas e nem março é cal
Eliana Mora
é cedro
o fim do princípio
do resto do ninho
calvário de dor
é o nada é o tudo
assim tão sozinhos
é o vale
é o toco
que sobram
do amor
é a casa vazia
é a palma
é o pé
é dezembro a chegar
dias de santa fé
é a minha tristeza
que brota
e caminha
se espalha
encantada
qual erva daninha.
Rabiscado por Andarilha descalça