Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

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6:08 PM





ABANDONO

Não ices as velas, marinheiro!
Não vires o leme!
Não lutes sequer...
(Para quê, lutar?)
Deixa-te ir, como o mar,
ao sabor
das marés de um dia...
com o corpo a rescender
a maresia...
o olhar embriagado de luz,
e a alma,
embrulhada em algas,
a flutuar...
Deixa-te ir!...

E se a tormenta te quebrar
os mastros,
e te esfarrapar
as velas,
e não parar
de rugir,
não grites!
Não tenhas medo!...
Nas noites-segredo do mundo,
verás como é belo,
dormir tão vestido
de vento e luar...
Deixa-te ir marinheiro!
Deixa-te ir como o mar...
Sereno e perdido
na paz
sem recurso
do mar...


(Lisboa, 1948)


Décio Bettencourt Mateus




Rabiscado por Andarilha descalça

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10:25 PM





Teatro

Sou só enredo
de um papel maior
que nunca me deram.

Sou só resumo
de uma vida menor
que sempre impingiram.

Sou só magia
de uma trama feroz
que sempre negaram.

Sou só saudades
de uma lembrança voraz
que nunca excluíram.

Tácito Sanglard




Rabiscado por Andarilha descalça

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2:11 PM




Nós



você viu os tristes semblantes das marionetes

corrompidas em linhas

tenho dó

não das marionetes

mas dos nós prisioneiros

marionetes de miriti

fruta pavulagem

nos visita de dezembro a abril

você ouviu a voz do ventríloquo

e seu boneco cabeça de cuia



não posso mais visitar circos

o homem que engole fogo

a mulher transpassada pela espada

que brilha no meu olho

a corda bamba fio de navalha

o mágico roubando moedas de nossas orelhas

a sereia voadora de trapézio a trapézio

isso me dá calafrio

o mesmo frio que se cala de março a novembro



não vou com você ao circo

é patético rir de anões

é vertiginoso estar ao seu lado

enquanto você flutua

vestida de sol

e se o circo pegar fogo?

se o palhaço resolver me dá um soco?



para quem muito cedo

pensou no corte fatal

eu e tu, minha mãe

sofremos de escuridões

e debruçamentos sobre escrivaninhas

papéis gelados lisos cinzas desimaginados

cicatrizam esses papéis nossas impressões digitais



deixei os circos

para ver minha coleção de selos

todos inúteis

até o sétimo

quero imagens de mertiolate

para curar nossos papéis

asas de galinhas

ferrugens de trilhos

palhas mortas do miritizeiro

peixes fumando cachimbos

vassouras subindo escadas

quadrúpedes dançando valsas

o retorno de um velório

coisas esvaziantes

preciso ficar triste

por favor

façam-me essa ausência

um dia conto o que vi

deixem-me sentado a dois metros da janela

apenas dois

a dor apenas

os olhos dentro de um tubo

sem ver a periferia

sem ouvir esquinas



se eu enxergar uma estrela caindo?

se eu apontar o indicador?

vai ser extraordinário

passar a noite chorando

menino menino menino

vai nascer verruga no dedo

da meia noite até o final do escuro

virão simplicidades assustadoras

um jacaré no corredor da casa

todas as luzes apagadas

um jacaré fosforescente

comendo alface

lendo "Telefones fritos com quiabos verdes"

esse livro áspero que virá





em

nós

desatem-nos escoteiros

tenham dó

de nossas cabeças



Edmir Carvalho



Rabiscado por Andarilha descalça

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9:49 PM



A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério
Por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Elizabeth Bishop




Rabiscado por Andarilha descalça

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11:04 PM



É ASSIM

Faço poemas como quem cria

animais de estimação

caço palavras vira-latas

e cuido delas

como quem cultiva

orquídeas



o sêmen dos fonemas gera imagens

com efeito de sentido

nada permanente

embora temporariamente acalme

faça lastro

‘justifique’ a vida



faço poemas como quem recapeia

um piso

diferente textura advém daí

uma superfície mais lisa e regular

que estrutura uma nova estrada

para mim mesma



faço poemas com quem se fantasia

para o carnaval

põe uma máscara de si próprio

e não a tira

nem na quarta-feira de cinzas


Ana Guimarães




Rabiscado por Andarilha descalça

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8:20 PM



VOCÊ
Cláudio Jorge Bentes de Castro,


Você foi o mais belo despertar

nas manhãs de minha vida

você foi toda a vontade de amar

e a ilusão mais atrevida



Você foi meu momento de fraqueza

e minha maior covardia

você foi a alegria, a tristeza

e minha mais louca ousadia



Você foi a espera angustiante

e meu sorriso de felicidade

você foi o abraço delirante

a compreensão e a amizade



Você foi o que tanto era esperado

a vitória, a vida, o reencontro

você foi o anseio não saciado

e toda a tentação e desencontro



Você foi o estímulo, a segurança

o ato de doação e o aceitar

você foi o manto verde da esperança

a meu lado sempre a caminhar



Você foi o sonho mais bandido

minha pulsação acelerada

você foi o momento mais vivido

e hoje é a saudade consumada




Rabiscado por Andarilha descalça

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11:31 AM



Agiotagem
Hélio Pequeno


À natureza, tomei emprestada esta manhã;

Devolvo um dia, talvez.

Parcelei a noite a perder de vista,

Mas são tantas as estrelas que,

Meu Deus, estou todo endividado!



Rabiscado por Andarilha descalça

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8:40 PM




Ainda ontem pensava que não era

Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.



Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."



E no meu sonho eu respondo-lhes:
"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."



Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"

Kahlil Gibran
Areia e Espuma



Rabiscado por Andarilha descalça

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12:14 PM



CAÇADOR DE LUAS DE PAPEL
Ao amigo poeta da solidão Eurípedes Balsa Melo

habita o silêncio
caçador de luas
tua hora calma
peleja sobre teus versos
sofre sofre sofre

ao ver os mendigos
ao sentir o aroma estranho
a lama das periferias
a hipocrisia dos fétidos banheiros

chora por dentro tua paz perturbadora
miséria oculta dos poetas
essa ausência de brandura
acontecimento esquecido
acorde nunca executado
toada antiga
neta de desconhecidos
erra todos os sentidos
erra erra erra

à frase perdida
põe reticências
não solicita velações e vigílias
ouve apenas teus (ab)surdos
a face ao longe é nada é ninguém
foi teu solilóquio delirando
solidão dos incompreendidos
fere a superfície com teu lápis
fere fere fere

sua, vida miraculosa
chamando chamando
galopando
correndo
chorando
violentando
são teus olhos
apenas teus olhos
velejando um barco de papel
esse redemoinho
essa rede moinho
é a palavra PASSA
metade explosão metade deslizamento
engolindo teu batel
pertina com teu lápis
singra singra singra

tua hora calma
febril
errante
dor vencida
respirante míngua
ama essa chama
falha com o poema
sangra a face ao longe
veste mais solidões
põe teu lápis no papel de seda
sangra sangra sangra


AGORA, LEIA DE BAIXO PARA CIMA.



Rabiscado por Andarilha descalça

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10:56 PM


PRIMEIRO CANTO

Ouço o mar bramindo a sua dor
de haver criado adeus
e abreviado o amor dos náufragos

Onde agora ecoa o peso dos abraços
vagam planos para sempre adiados
sob as águas

Pairam tantas mãos inúteis, sal
das nuvens que não sabem mais
o antigo bálsamo dos ventos na alma

Ouço o mar, que enfim entoa em cântico
as dobras do destino - incerto como a sorte dos sinais perdidos –
nas dobras do silêncio

Julio Vila Nova
(1971 Recife/Pernambuco)




Rabiscado por Andarilha descalça

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4:13 PM




Fragata Fantasia.
Michel H. Baruki

Com a su’alma igual uma sucata,
navegou pelos mares o corsário
mas ele não buscava ouro nem prata,
e sim aquele amor que foi primário.


Deixou da sua vida aristocrata,
tomado pelo amor incendiário,
fazia pelos mares serenatas,
na busca incansável do fadário.


Existem controvérsias sobre a lenda,
mas juram que o pirata hoje em dia,
faz pelos sete mares sua senda


Marujos que já viram a agonia,
ouviram sua reza de oferenda,
nas sombras da fragata fantasia.




Rabiscado por Andarilha descalça