Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

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9:47 AM



Oração a mim mesmo
Oswaldo Antônio Begiato


Que eu me permita
olhar e escutar e sonhar mais.
Falar menos.
Chorar menos.

Ver nos olhos de quem me vê
a admiração que eles me têm
e não a inveja que prepotentemente penso que têm.

Escutar com meus ouvidos atentos
e minha boca estática,
as palavras que se fazem gestos
e os gestos que se fazem palavras.

Permitir sempre
escutar aquilo que eu não tenho
me permitido escutar.

Saber realizar
os sonhos que nascem em mim
e por mim
e comigo morrem por eu não os saber sonhos.


Então, que eu possa viver
os sonhos possíveis
e os impossíveis;
aqueles que morrem
e ressuscitam
a cada novo fruto,
a cada nova flor,
a cada novo calor,
a cada nova geada,
a cada novo dia.

Que eu possa sonhar o ar,
sonhar o mar,
sonhar o amar,
sonhar o amalgamar.

Que eu me permita o silêncio das formas,
dos movimentos,
do impossível,
da imensidão de toda profundeza.

Que eu possa substituir minhas palavras
pelo toque,
pelo sentir,
pelo compreender,
pelo segredo das coisas mais raras,

pela oração mental
(aquela que a alma cria e
que só ela, alma, ouve
e só ela, alma, responde).

Que eu saiba dimensionar o calor,
experimentar a forma,
vislumbrar as curvas,
desenhar as retas,
e aprender o sabor da exuberância
que se mostra
nas pequenas manifestações
da vida.

Que eu saiba reproduzir na alma a imagem
que entra pelos meus olhos
fazendo-me parte suprema da natureza,
criando-me
e recriando-me a cada instante.

Que eu possa chorar menos de tristeza
e mais de contentamentos.

Que meu choro não seja em vão,
que em vão não sejam
minhas dúvidas.


Que eu saiba perder meus caminhos
mas saiba recuperar meus destinos
com dignidade.


Que eu não tenha medo de nada,
principalmente de mim mesmo:
- Que eu não tenha medo de meus medos!


Que eu adormeça
toda vez que for derramar lágrimas inúteis,
e desperte com o coração cheio de esperanças.

Que eu faça de mim um homem sereno
dentro de minha própria turbulência,

sábio dentro de meus limites
pequenos e inexatos,

humilde diante de minhas grandezas
tolas e ingênuas
(que eu me mostre o quanto são pequenas
minhas grandezas
e o quanto é valiosa
minha pequenez).

Que eu me permita ser mãe,
ser pai,
e, se for preciso,
ser órfão.

Permita-me eu ensinar o pouco que sei
e aprender o muito que não sei,

traduzir o que os mestres ensinaram
e compreender a alegria
com que os simples traduzem suas experiências;

respeitar incondicionalmente
o ser;
o ser por si só,
por mais nada que possa ter alm de sua essência,

auxiliar a solidão de quem chegou,
render-me ao motivo de quem partiu
e aceitar a saudade de quem ficou.

Que eu possa amar
e ser amado.
Que eu possa amar mesmo sem ser amado,

fazer gentilezas quando recebo carinhos;
fazer carinhos mesmo quando não recebo
gentilezas.

Que
eu jamais fique só,
mesmo quando
eu me queira só.

Amém.




Rabiscado por Andarilha descalça

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2:55 PM




Rabiscado por Andarilha descalça

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9:34 PM



Para atravessar Contigo o deserto do Mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora, à luz, sem véu, do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste.
E aprendi a viver em pleno vento.

Sophia de Mello Breyner




Rabiscado por Andarilha descalça

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11:59 PM


REGRESSO
Aldo Lins

Devolvam-me
Meu castelo, minha espada, meu anel
E as fotografias amarelas guardadas
Na minha cômoda de cristal

Devolvam-me
O credo para atravessar fronteiras
E o espelho d'água entre as dunas
Onde eu fazia a lua para brincar

Devolvam-me
A minha tabuada mágica
E as histórias de um vento azul
Que traziam anjos às madrugadas

Devolvam-me
Meu uni-verso, suspiro poéticos e saudades
De andar a pé, olhar o céu, cantar um fado
No Pátio das Flores, no Arco das Portas do Mar.




Rabiscado por Andarilha descalça

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11:04 PM


Que Seja..

Que meu poema seja:
Alegria mesmo que na partida.
Pois alegria é a certeza da volta!


Que a poesia seja o elo
Unindo coraçoes apaixonados
Amores perdidos...
Amantes, amados


Que o amor seja essencia
Seja consistencia
Para ser:
A alegria da esperança
O elo dos amantes.


Que o amor que sinto...
Me eleja...poeta!


18/02/05
Nara




Rabiscado por Andarilha descalça

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4:10 PM

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.

RUMI




Rabiscado por Andarilha descalça

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8:29 PM









Sei que tenho sido pecadora
Flávia Alves

Sei que tenho sido pecadora
E que, na verdade, não me ocupo
Em templos, nem tenho sido rezadora.
Mas os tempos são outros, não preocupo
Venho pedir que banhado de dádivas
Seja tão romântico amor mortal
Que nunca duas pessoas tão ávidas
De amar, amaram igual.

Gostaria que Héstia, Apolo e Atena
E Artemis, Afrodite, Hera e Zeus
Fizessem soprar alegremente os aliseus

Abençoando os amores meus,
Como melhor convém a um deus,
Com alguma loucura pequena.




Rabiscado por Andarilha descalça

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10:07 PM


Na tua vida

Eu quero ser na tua vida um gesto!
A ternura dum beijo dado a medo
Nem passeata, discurso ou manifesto
Canção de ninar ou de protesto
Um gesto, um simples gesto,
Ou um segredo!
Eu quero ser na tua vida, um ponto!
Ponto de combustão, ponto do prumo
Ponto cardeal ou contraponto,
O ponto final dum texto pronto
Um ponto
Partida ou chegada a qualquer rumo!
Eu quero ser na tua vida o nada!
Ausência total, coisa nenhuma
Vazio absoluto, nada, nada
Nada de porta aberta, escancarada
O nada
Todo brisa, todo bruma!
Eu quero ser na tua vida cheiro!
Forte, que perturba, que inebria,
Mas não de poder ou de dinheiro
Um cheiro de povo
Um simples cheiro
De giesta de serra e maresia!...

Maria Mamede



Rabiscado por Andarilha descalça

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8:19 AM


MASCARADA


Você me conhece?
(Frase dos mascarados de antigamente)


- Você me conhece?
- Não conheço não.
- Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores...
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
- Não conheço não.


- Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visão!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo
Do que eu te dizia...
Era a minha fala
Canto e persuasão...
Pois não me conheces?
- Não conheço não.
- Choraste em meus braços
- Não me lembro não.


- Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!


Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?


- Não conheço não.
Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição.

Manuel Bandeira




Rabiscado por Andarilha descalça

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3:33 PM



¿Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.¿

Alberto Caeiro



Rabiscado por Andarilha descalça

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10:44 PM









Tratado sobre um poema
Majela Colares

quis um poema sem razão nem fim
um canto surdo de areia e noites
bem mais veloz que ilusão do tempo
que fosse a vida muito além da morte

quis um poema que tivesse o fim
de ser apenas um rascunho torto
entre as lembranças de qualquer rascunho
entre os rascunhos de alguém já morto

quis um poema de tempo e de tempos
regado a vinho ¿ se possível tinto ¿
do instante imune, que não foi instante
do tempo impuro, do mais puro cisco

quis um poema que fosse um poema
de pele clara, de cabelo ruivo
que fosse a pedra fecundando o húmus
e a luz gestante fecundando a luz

quis um poema... se quis um poema
foi assim quase... meio, fim e meio
sangrei a noite, mas fisguei o verbo
quis um poema lacerado ao meio.




Rabiscado por Andarilha descalça