Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

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7:28 PM


Dos Palhaços aos Poetas


Identidade camuflada
Sensibilidade aguçada
Emergem das grutas da solidão
Para distrair e encantar a multidão
O que é, o que é?
Palhaço e poeta - Condutores de emoção
Mestres na arte da representação


Ilusionistas sem truques
Mágicos sem cartola
Fazem surgir risos e choros
De brincadeiras e de versos...
Misturam alegria e tristeza
Seguindo por caminhos transversos


O palhaço faz piruetas para os olhos
Querendo afagar o coração
Encanta rostos enlevados
Sorrisos abertos...É aclamado com paixão
Talvez contracene com a própria dor
Vestida com as roupas da superação...


O poeta, artífice solitário
Sofre, ri, seduz, esculpe a imaginação
Trabalha as palavras, sua glória
Lidas pelos olhos, entendidas pelo coração
Quem sabe cante e decante a própria estória
Como um palhaço, encena a sua ilusão


Se a emoção é a magia da poesia
O palhaço é também um poeta
Brinca com os sentimentos
E trabalha a sedução
Tem o dom de se transformar e recriar cada momento
Fascina o público em sua apresentação


Tanto palhaços como poetas
Ao piruetarem pela Vida
Buscam o aplauso, seu prêmio
Na Arte que tem vez, sempre
Cada qual no seu palco iluminado
Desperta risos e choros em toda a gente...


Palhaço, Poeta...O que é, o que é?
São cores para os nossos dias
São anjos celestiais
Sem asas ou trombetas...
Atuam no picadeiro das nossas fantasias...


Como um encanto que não se desfaz
o poeta nos reconduz ao caminho
das cambalhotas e das caretas
traçado pelo palhaço
nos anos que não voltam mais...


Cartas de Alforria
Escritos de: Regina Coeli Rebelo Rocha




Rabiscado por Andarilha descalça

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7:43 PM


Estrela para um Mago



Chama por mim em verso encantado

Chegarei escorregando em olhos de cetim

Sentirás minha presença a teu lado

De mil cores e perfumes de jasmim





Não pertenço ao reino dos mortais

quando navego em ondas celestiais

meu corpo brilha de todos os cristais

e danço o hino dos imortais...


Trago de minhas águas de afago

presentes de entre as nuvens retirados

que se fundiram em Estrela para um Mago

iluminar todos os seres alados...



Os murmúrios de seus desejos de Luz

pintam cometas nos meus oceanos

surpreendendo o Tempo, algo induz

de maravilha, todos os arcanos...


E quando tudo parece ruir

e em vulcões se desfiguram as montanhas

deixo a Luz em mim fluir

no mais profundo de minhas entranhas



Deixo então todas as transformações

que do Bem-Querer sou capaz de criar

e salpico de ternura todos os corações

com esta força que se chama Amar!



Manuela Pittet
in: "Rostos de Amor"




Rabiscado por Andarilha descalça

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6:49 PM


É ASSIM

Faço poemas como quem cria

animais de estimação

caço palavras vira-latas

e cuido delas

como quem cultiva

orquídeas



o sêmen dos fonemas gera imagens

com efeito de sentido

nada permanente

embora temporariamente acalme

faça lastro

¿justifique¿ a vida



faço poemas como quem recapeia

um piso

diferente textura advém daí

uma superfície mais lisa e regular

que estrutura uma nova estrada

para mim mesma



faço poemas com quem se fantasia

para o carnaval

põe uma máscara de si próprio

e não a tira

nem na quarta-feira de cinzas


Ana Guimarães




Rabiscado por Andarilha descalça

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6:15 PM


Uma arte
Elizabeth Bishop
Tradução de Horácio Costa

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.


Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.


Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.


Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.


Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.


- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.




Rabiscado por Andarilha descalça

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9:56 PM


Não chamo um o maior e outro o menor
Walt Whitman

Não chamo um o maior e outro o menor,
Quem quer que preencha o seu período de tempo
e lugar é igual a qualquer outro.

Meus signos são uma capa à prova de chuva, bons
calçados e um bordão colhido nos bosques.
Nenhum dos meus amigos busca descanso em
minha cadeira.

Não possuo cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo homem algum à mesa do jantar,
biblioteca ou casa de câmbio,

Mas conduzo cada um de vós, homem ou mulher,
para o alto de um outeiro
Minha mão esquerda prende-vos pela cintura,
Minha mão direita aponta em direção de
continentes e estrada aberta.




Rabiscado por Andarilha descalça

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1:38 PM


Raizes

As nuvens são nuvens.

Pairam sobre nós.

Quando nascemos

As nossas raízes ficaram viradas para o céu

Que nos fecunda


O nosso ser criou a diáspora

Não conhece imperadores ou imperatrizes

Reconhece-nos uns com os outros

Apenas num simples fogacho de luz


E... nós,

Com a nossa cara à chuva

Prevemos o nascimento do sol e da vida

As sementes caem das árvores do céu

Em nós

Como o sal recolhido nas mãos do mendigo.


Os ramos das nossas raízes

São os nossos anjos da guarda.


Fernando Pascoa




Rabiscado por Andarilha descalça

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5:17 PM


Cântico dos Cânticos
Bíblia - Antigo Testamento


O Cântico dos Cânticos de Salomão.

(Parte)


...Exaltação do amor

Ela.

Enquanto o rei está em seu divã,

meu nardo exala seu perfume.

O meu amado é para mim

como bolsa de mirra sobre meus seios;

o meu amado é para mim

como um cacho florido de alfena dos vinhedos de Engadi.

Ele.

Como és formosa, minha amada!

Como és formosa, com teus olhos de pomba!

Ela.

E tu, meu amado, como és belo,

como és encantador!

O verde gramado nos sirva de leito!

Cedros serão as vigas de nossa casa,

e ciprestes, as paredes.




Rabiscado por Andarilha descalça

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11:41 PM


A espera

Há anos que me espero inutilmente. Se não chegar antes do próximo poema, sairei a procurar-me entre as rugas do passado, e se não me achar nos escombros de outros tempos, ou se me perder nas cinzas dos meus sonhos, então voltarei e continuarei esperando-me, sentado sobre as estrofes do tempo que não espera nem perdoa.


Bruno Kampel




Rabiscado por Andarilha descalça

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7:47 PM


POEMA DO SONHO (A Trilogia da Dor)
Aroldo Ferreira Leão


Soube que o mundo
Levou
Seus muitos sonhos,
Chorou.

Cheio de dor
Notou
Que todo o mar
Secou.

Ainda, lúcido,
Tentou
Vibrar. Que pena!
Voou

E leviano
Cantou
A música ímpar
De um show

Qualquer. Só sempre
Zombou
De si e da vida.
Doou

Tudo a ninguém.
Amou
Demais, apenas
Sonhou.




Rabiscado por Andarilha descalça

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9:43 PM


Harmonia

Luiz de Aquino



Essas mãos já se

tocaram

antes

e se afagaram feito

jeito

de criança

sonolenta.





Essas mãos andaram

juntas

muito tempo

e se desejaram tanto

tempo.





Agora essas mãos se

deram

de vez

e querem envelhecer

sempre unidas.






Rabiscado por Andarilha descalça

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10:37 PM



Segredo



Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega


David Mourão Ferreira
No Veio do Cristal




Rabiscado por Andarilha descalça

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10:30 AM



Renascemos Um Pouco
Silvia Schmidt

Renascemos um pouco
quando reabrimos os olhos todas as manhãs;

Renascemos um pouco
quando nos emociona o chorinho de mais uma criança;

Renascemos um pouco
quando sorrimos para a primeira folhinha da planta que semeamos;

Renascemos um pouco
quando choramos copiosamente, chamando por nossa mãe;

Renascemos um pouco
quando ficamos felizes lembrando o papai orgulhoso de nós;

Renascemos um pouco
quando os nossos queridos aplaudem nossas vitórias;

Renascemos um pouco
quando nos entregamos ao abraço de um velho amigo;

Renascemos um pouco
quando caímos no sono com a consciência tranquila;

Renascemos um pouco
quando entendemos que a Vida é constante novidade;

Renascemos um pouco
quando damos perdão ao passado, aos outros e a nós mesmos;

Renascemos um pouco
quando conquistamos e convertemos corações ateus.

Renascemos por inteiro
quando assumimos que somos irmãos de todas as criaturas
e, acima de tudo, Irmãos do Filho de Deus!




Rabiscado por Andarilha descalça

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10:00 PM


Aurora boreal
António Gedeão

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.




Rabiscado por Andarilha descalça