Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

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[Sexta-feira, Dezembro 29, 2006]


Infinitivos
Agostina Akemi Sasaoka

Compreender
os vacilos de Deus
sobre a Terra imensa.
Aceitar
o sorriso indesejado,
o sonho trocado.
Infringir
as regras do óbvio
para virar poesia.
Pôr
as estrelas no colo
e os erros no bolso.
Escutar
o eco do outro
através do espelho.
Permanecer
com os braços abertos,
com os corpos grudados.
Dormir
de um século pro outro
e acordar.




por Andarilha descalça * 9:29 AM

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[Quinta-feira, Dezembro 28, 2006]


AH! SE EU FOSSE POETISA...

Ah ! Se eu fosse poetisa...
Farte-ia poemas, e versos de amor ardorosos
Fame-la-ia soprano, nas notas de encanto
E cantar-te ia poesias musicadas, soladas nas
Harpas enlevadas.
Ah ! Se eu fosse poetisa...
Versejaria amor que incinera m¿alma
Afinaria meu canto,ao solo do piano
Nas brumas constantes, e prender-te-ia
No som do meu canto.
Ah ! Se eu fosse poetisa...
Dar-te-ia a lua nua iluminando a rua
E no ocaso cintilado, reverso de letras declamados
Sussurrados nas estrelas osculados na brisa
Que mansa sua face tocaria .
Ah ! Se eu fosse poetisa...
Enrolar-te-ia em papiros floridos
Enlaçados à fantasia, da primavera que
Fui um dia. Ornado nas murchas pétalas
Odoradas de mimos...
Ah ! Se eu fosse poetisa...
Far-te-ia uvas, e sorver-te-ia como ao vinho
Rubro, aguçando sabor inebriado no seco
Palato, saciando a sede do encontro na abóbada
De meu céu, platinado.
Ah ! Se eu fosse poetisa...
Não esboçava o dito, não fui à lua, nem mesmo a rua
Só nus poemas diversos tristes. Gemendo oculto taciturno
Senso , bagana cana pua denodada. Já não mais canto
Quiçá encanto! Partitura amassada valsando detritos...
Ah ! Se eu fosse poetisa...

Deth Haak




por Andarilha descalça * 10:11 AM

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[Quarta-feira, Dezembro 27, 2006]


um dia hei-de ser
como espuma absorta
em volta de um coração,
e dele se erguerá
uma onda púrpura,
um amor terrível.

(herberto helder)




por Andarilha descalça * 8:39 AM

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[Terça-feira, Dezembro 26, 2006]


Coisa alguma...
Tonho França

Quem sabe lágrimas,
Quem sabe linho.
Quem sabe nada
Quem sabe um vinho?
Quem sabe ao certo
Pra onde e quem foi
Com o caminho?
Quem sabe nada...
Além de sonhos,
Que não pese tanto,
Que seja azul,
Quem sabe um jazz?
Quem sabe um blues?
Quem sabe nada...
Renascer, reflorescer
Como mananciais
Revoadas, nada mais.




por Andarilha descalça * 9:26 AM

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[Domingo, Dezembro 24, 2006]




por Andarilha descalça * 12:38 AM

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[Quinta-feira, Dezembro 21, 2006]




por Andarilha descalça * 9:13 AM

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[Terça-feira, Dezembro 19, 2006]


Heróis de espelho
Luiz Fernando Prôa


somos feitos

de tudo que nos cerca

de argila, madeira

poeira e pedra


somos palco

de uma peça

normais, humanos

loucos ou feras


somos aquilo

que não somos

artistas, retratos

heróis de espelho


somos nosso

maior receio

pior do que tudo

contágio do meio


mesmo que loucos

perdidos no verso

feiticeiros da vida

poema incerto


somos parte do todo

grãos de mistério

construtores do sonho

em busca do eterno




por Andarilha descalça * 1:23 PM

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[Segunda-feira, Dezembro 18, 2006]


O último amor
Luis Filipe Castro Mendes

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.




por Andarilha descalça * 2:11 PM

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[Sexta-feira, Dezembro 15, 2006]


PLURAL
Edimilson de Almeida Pereira

Quero o amor plural
de dois nomes
e cem telefones.

O amor indissolúvel
não tem lugar.

O amor plural
vai às bibliotecas
tem um violão dispendioso.
No seu encalço
a percepção do incêndio.

O amor plural
encarquilhou na juventude.
Está aqui e ali.
Veio à cidade
nem recado mandou.

O amor plural
privou-se do mar.
Faz-se indissolúvel
entre cartas e igrejas.

Ei-lo embaraçado no próprio sangue.




por Andarilha descalça * 8:13 AM

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[Quinta-feira, Dezembro 14, 2006]


juízo final
Geraldo Carneiro

amou três ou quatro sereias, sempre

marinheiro de primeiro naufrágio.

jurou em falso, disse meias verdades.

perambulou em busca do sublime

sem nunca descobrir o Santo Graal.

andou atrás de um deus que fosse cômodo.

como esse deus não se desencantasse,

cantou a lua e outras deusas inconstantes.

refratário às ciências, desconfia

que o Sol gira ao redor da Terra, e o homem

é um animal fadado à extravagância.

às vezes sofre acessos de grandeza,

supõe-se demiurgo e pandemônio.

mas o mundo sempre se rebela

contra suas mal fundadas esperanças

e o reduz à sua insigne insignificância.




por Andarilha descalça * 8:20 AM

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[Quarta-feira, Dezembro 13, 2006]


O Sonho Adiado...

O poeta continua a viagem
Pelo cais dos sonhos...

Mesmo sem a luz do Farol,
Sem a frescura da água
Das bicas do Chafariz,
Não desiste de sonhar...

Percorre o Ginjal
De mão dada com a serenidade
Deixa-se empurrar pelo vento
Naquele carreiro da liberdade

Apesar das paredes cinzentas
Marcadas pelo abandono
Acredita num futuro azul
Inspirado na beleza do Tejo
E no encanto das suas margens

O poeta continua a viagem
Pelo cais dos sonhos...

E promete,
Nunca desistir de sonhar...


Luís Milheiro




por Andarilha descalça * 12:08 AM

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[Segunda-feira, Dezembro 11, 2006]





Génesis
Jorge de Sena

De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo:não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!

Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.




por Andarilha descalça * 8:19 AM

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[Sábado, Dezembro 09, 2006]


Estado de Espírito


Tira-me do silêncio,
Sussurrando palavras lapidadas,
Na intemporalidade,
Dos teus pensamentos.

Absorvidos de desejo!

Gravuras esculpidas,
Numa utopia,
Inexistente e abstracta,
Do emudecimento apaixonado.

Longínquo ou perto,
Ritmando os nossos corpos,
Na ilha da tentação,
Fundeando a luz
Na descrição.

De um amor envolvente,
E profundo.


(Poema de @Memorex )




por Andarilha descalça * 8:37 PM

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[Sexta-feira, Dezembro 08, 2006]


PARAÍSO
David Mourão Ferreira


Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.




por Andarilha descalça * 4:24 PM

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[Quinta-feira, Dezembro 07, 2006]


Elegia

Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.

Nuno Júdice




por Andarilha descalça * 9:39 AM

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[Quarta-feira, Dezembro 06, 2006]


Mulheres inspiradas
"Dedicado a todas as mulheres que escrevem"
Sara Rafael

Mulheres que tocam o infinito.
Que tecem com fios doirados
Laços entre a via Láctea e o finito.

Olhares de beleza
Anseios de coração
Flores de primavera
De sonhos e certeza
Rendilham emoção
Em líricas esferas

Mulheres inspiradas
Áureas rotas aladas.

Mulheres, vós sois
Rútilos faróis!

06/04/03
Lisboa - Portugal




por Andarilha descalça * 8:33 AM

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[Terça-feira, Dezembro 05, 2006]

Imagem
Cecília Meireles


Tão brando é o movimento
das estrelas, da lua,
das nuvens e do vento,
que se desenha a tua
face no firmamento.


Desenha-se tão pura
como nunca a tiveste,
nem nenhuma criatura.
Pois é sombra celeste
da terrena aventura.


Como um cristal se aquieta
minha vida no sono,
venturosa e completa.
E teu rosto aprisiono
em grave luz secreta.


Teu silêncio em meu peito
de tal maneira existe,
reconhecido e aceito,
que chego a ficar triste
de vê-lo tão perfeito.


E não pergunto nada.
Espero que amanheça,
e a cor da madrugada
pouse na tua cabeça
uma rosa encarnada.




por Andarilha descalça * 8:40 AM

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[Segunda-feira, Dezembro 04, 2006]


Intangível


No vôo em que me elevo a procurar-te,
mergulho no infinito, e até parece
que um murmúrio de cântico e de prece
me embala e vai comigo em toda a parte...

E toda a sombra má desaparece,
e toda a luz é para iluminar-te,
a música de Deus para cantar-te,
por ti se enflora a terra e o sol aquece...

Por ti que enches o mundo e não te vejo,
onda incorpórea e hálito disperso,
nuvem de sonho e fogo de desejo!

Por ti, que diluída no universo,
és o dulçor que encontro em cada beijo,
a hormonia que busco em cada verso!...

Cândido Guerreiro




por Andarilha descalça * 8:39 AM

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[Sábado, Dezembro 02, 2006]


O VERBO
FERNANDO PY

o verbo
preexiste
às areias do tempo

o verbo
perfaz o mundo
em seus números

o verbo
no espaço da frase
conjuga
seu traço múltiplo

o verbo
molda-se em carne
no disfarce
da palavra

o verbo
se apessoa
aos enxertos
da voz

o verbo
mal se conquista
- a doma é acerba

o verbo
se averba.




por Andarilha descalça * 10:24 PM

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[Sexta-feira, Dezembro 01, 2006]


SONETO DO CATIVO


Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão Ferreira, Os Quatro Cantos do Tempo




por Andarilha descalça * 11:30 AM

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