Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

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[Quinta-feira, Novembro 30, 2006]


Arte Poética
FERNANDO AMARAL


Palavras, só palavras, nada mais
que a vã matéria, o seu sentido
eco de muitos ecos, repetido
reflexo de poderes tão irreais

como essas emoções graças às quais
terei de vez em quando pretendido
dizer "um só segredo a um só ouvido"
ciente de que nunca são iguais

os segredos e ouvidos que procuro
às cegas neste mar sempre obscuro
onde a voz desagua como um rio

sem nascente nem foz - apenas uma
incerta confidencia que se esfuma
e só foi minha enquanto me fugiu.




por Andarilha descalça * 4:50 PM

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[Quarta-feira, Novembro 29, 2006]



A última cantiga
Afonso Lopes Vieira

Esta palavra saudade
Aquelle que a inventou,
A primeira vez que a disse
Com certeza que chorou.




por Andarilha descalça * 3:24 PM

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[Segunda-feira, Novembro 27, 2006]


Árias Pequenas. Para Bandolim
Hilda Hilst

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.




por Andarilha descalça * 7:48 AM

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[Sábado, Novembro 25, 2006]


Pedra-vento
Carlos Nejar


O vento lavou as pedras,
mas ficaram as palavras.
O vento lavou as pedras
com sabor de madrugada.

O vento lavou as noites,
mas ficaram as estrelas.

O vento lavou a noite
com água límpida e mansa.
Mas não lavou a salsugem.

O vento lavou as águas,
mas não lavou a inocência
que amadurece nas águas.

O vento lavou o vento.




por Andarilha descalça * 12:35 AM

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[Sexta-feira, Novembro 24, 2006]


Os teus olhos
David Mourão Ferreira

Os teus olhos
exigindo
ser bebidos

Os teus ombros
reclamando
nenhum manto

Os teus seios
pressupondo
tantos pomos

O teu ventre
recolhendo
o relâmpago




por Andarilha descalça * 11:34 AM

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[Quinta-feira, Novembro 23, 2006]


Há tanto tempo espero por ti
na solidão do meu lugar
vem aquecer-me a cama
traz flores para o jantar

Sempre habitaste o meu coração
és a razão do meu fervor
mas não te vejo a cara
não sinto o teu calor

Podes contar ao mundo
como eu te procurei
quando me for embora
diz que te encontrei

Mesmo que tu não sejas real
ou sejas quem eu não previ
hei-de inventar-te sempre
hei-de esperar por ti

Podes contar ao mundo
como eu te procurei
quando me for embora
diz que te encontrei

quando eu me for embora
diz que te encontrei

Há tanto tempo (espero por ti), Jorge Palma




por Andarilha descalça * 4:28 PM

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[Quarta-feira, Novembro 22, 2006]


nós


corri nós
os lassos
dos meus aos teus abraços

nós
unidos em traços de segredos
das minhas palmas aos teus dedos

as palavras gritaram beijos
os silêncios fartaram desejos

magia de um dia
à hora da aurora

só nós

Daniel Santiago





por Andarilha descalça * 12:29 AM

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[Segunda-feira, Novembro 20, 2006]


EIS-ME

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN




por Andarilha descalça * 8:57 AM

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[Domingo, Novembro 19, 2006]


Sou destaque no Bella Mistura.
Obrigada Regina!
bjus.






por Andarilha descalça * 4:19 PM

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[Sexta-feira, Novembro 17, 2006]


Do que Quero
Ricardo Reis

Do que quero renego, se o querê-lo
Me pesa na vontade. Nada que haja
Vale que lhe concedamos
Uma atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho,
Recebo o que me é dado,
E o que falta não quero.
O que me é dado quero
Depois de dado, grato.
Nem quero mais que o dado
Ou que o tido desejo.




por Andarilha descalça * 10:52 AM

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[Quinta-feira, Novembro 16, 2006]


Em abril de 1960,
inaugurava-se no planalto goiano a nova capital brasileira.
Criada pelos gênios de arquitetura Lúcio Costa e Oscar Niemeyer,
Brasília deslumbra sua beleza,
vejam-na pelo olhar do poeta Alphonsus de Guimarães Filho.

MANHÃ EM BRASÍLIA
Brasília ao amanhecer.
A luz varre o planalto, num longo afago.
Como tudo é mais simples!
Simples a luz, o pão,
simples o homem que passa
sem saber que caminha no futuro.
Candangos se misturam à efusão matutina, operários
da própria manhã; os edifícios que ergueram são (e eles ignoram)
como uma doação que houvessem feito à vida.
O homem na bicicleta,
as crianças que correm nas superquadras,
o padeiro, o leiteiro,
o funcionário suspiroso,
a patente militar,a autoridade civil,
confraternizam,
se confundem.
Esta é Brasília.
Brasília, ou a própria manhã?


GUIMARÃES FILHO, Alphonsus de.
O Habitante do dia: antologia poética. 2ª ed. Rio de Janeiro:
Editora do Autor. 1963. pág. 149.




por Andarilha descalça * 2:26 PM

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[Quarta-feira, Novembro 15, 2006]


PROJETO DE PREFÁCIO

Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes
de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para
apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver
e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido:
é um pobre chocalho de palavras.

Mario Quintana




por Andarilha descalça * 9:13 PM

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[Terça-feira, Novembro 14, 2006]


Hoje a poesia me convidou a passear
por estas ruas
por este belo cenário
calmo e rico de detalhes.
Hoje a poesia é
VILA NOVA DE MILFONTES
uma localidade de PORTUGAL.

Andarilha descalça






por Andarilha descalça * 10:50 AM

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[Domingo, Novembro 12, 2006]


Um passado sem depois
e era uma vez nós dois.
Cheiros, lembranças, que dor
era uma vez tanto amor.
Vestígios de antigamente
mais uma vez sós na gente.
Suada felicidade
era uma vez, que saudade...
Ferida, punhal, cicatriz
era uma vez ser feliz.
Chama da pele que arde
dor ardendo de covarde
covardia de ser tarde
o possível se desfez.
E acabou-se.
E era uma vez.

Maria Cristina Mota de Oliveira




por Andarilha descalça * 8:26 PM

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[Sábado, Novembro 11, 2006]


Hoje de manhã sorri

Hoje de manha sorri
Lembrei-me de um ensinamento
Que dos sábios da minha aldeia, ouvi:

O que nos acontece hoje nunca mais nos
acontecerá.
Mas acontece sempre incessantemente,
É sombra pilhada ao ¿lobos¿.

Esquartejada pela vida
Mas falada aos nossos ouvidos por Deus.
Murmurada pelo silêncio onde os anjos falam.

Hoje de manhã alguém me disse que havia uma
rosa no meu ¿jardim¿
Intriguei-me¿ foi ver.
A minha alma caiu de espanto ¿ nada havia para
reter.

Entrei de novo para casa desapontado e então
vi!
Uma flor humana que me sorriu
Parecerem-me a beleza ultérrima que alguém já
viu,
Aquela que foi plantada no jardim da minha
Alma!

Fernando Pascoa




por Andarilha descalça * 3:31 PM

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[Sexta-feira, Novembro 10, 2006]


Esqueci lugares no mundo
Que nunca conheci ou visitei.
Perco o poder perder-me em manhãs
De borboletas e de estrelas.
Exijo um olhar nu de criança
E um livro para me aquecer.
Segreda-me a luz das pedras
E pássaros que nasci morto.
Recuso que seja grande o barco
Que chega a bom porto.
Reponha-se a liberdade ao barco
Que não tem que chegar a parte alguma.
Ele não tem sequer que chegar pois
Que chegar é olhar fins e quedar.
Quero o vermelho de chuva com pés
Descalços a saltitar e madrugadas virgens
Sem ontem num perpétuo criar
De amanhãs despidos de mãe.

Alves Bento Belisário




por Andarilha descalça * 9:12 AM

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[Quinta-feira, Novembro 09, 2006]


Mulher

Essa mulher atrás do sorriso
é metamorfose de amores.
Raízes sem inércia
buscando rebeldias,
pela mão leva seus rumos,
cultiva em silêncio as forças.
Essa mulher germinou
nas entranhas do tempo
e caminha pelas ruas,
incógnita Eva, Lilith, Maria,
Joana D¿Arc, Pagú, Clarice.
E de tantos nomes e rostos
talvez nem ela saiba, que é
a essência de todas em uma só.

Jurema Barreto de Souza




por Andarilha descalça * 8:19 AM

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[Quarta-feira, Novembro 08, 2006]


Ambigüidades
Tonho França

Da rosa, o perfume que não exala.
Da brasa, entre cinzas, a centelha.
No mais íntimo do silêncio, o que não cala,
No pior momento, ainda em tormento, não ajoelha.
Do tempo, as pétalas que foram subtraídas
Dos inocentes, as culpas que não foram perdoadas
Das lágrimas, as que foram pela face sorvidas
E para sempre no rosto ficarão estampadas.
Do exilado, do cativo, o que nunca será descoberto
Da vida, o não saber quantas horas restam,
Gastando-se a lâmina, ferindo a pedra,
Da certeza, o que nunca se tem de certo.
Do mais alto, o giro que sempre traz a queda,
Da fé, o que busca a essência incrédula
A fração ainda que minúscula, o pandemônio
O demônio habita Deus, Deus habita o demônio
Nada separa, se confunde, se lacra ou veda
De tudo, em tudo, dois lados, a mesma moeda.




por Andarilha descalça * 11:43 AM

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[Terça-feira, Novembro 07, 2006]


Deixa

Deixa que faça das palavras beijos
E beijos de cada palavra que te escrevo.
Deixa que as letras se cruzem entre si
Formando ideias e lamentos.

Deixa que cada palavra seja um grito desesperado.
Deixa, as palavras serem mimos
Deixa que me encontre em ti
Quando já nada resta
A não ser a perdição.

Lê mesmo nas palavras que não digo
Naquelas que inventei
Nas outras que não invento, mas imagino.
Lê nos silêncios sem palavras
Mas lê em cada palavra um beijo.

Deixa que percorra o teu corpo de sabores e ânsias
Com lábios de palavras que são beijos.
Deixa que sejam os beijos a serem palavras que não preciso escrever
Mas beijos.

Deixa, que a languidez de todo o meu ser
Te toque
Percorrendo cabelos, pernas de lavas
Quentes
Pernas sem palavras e desejos
Sem palavras
Beijos.

Mergulho na tua doce boca, calando palavras
Buscando os beijos de letras
De poemas sem poeta
Espumas de mar, e palavras.

Deixa que sejam os beijos, as palavras.
E que as palavras sejam beijos.
Assim, posso tocar o teu corpo
Mergulhar nele
Com lavas ardentes de desejos
E palavras, que são, afinal beijos.

António José Pinto Correia




por Andarilha descalça * 2:09 PM

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[Segunda-feira, Novembro 06, 2006]


Como Ulisses te busco e desespero

Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.

Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te não tendo tudo são castigos.

Só não me canta Homero. Mas como U-
lisses vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar -- Pátria Sereia
Penélope que não te rendes -- tu

que esperas a tecer um tempo ideia
que de novo o teu povo empunhe o arco
como Ulisses por ti nesta Odisseia.


Manuel Alegre




por Andarilha descalça * 2:57 PM

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[Sábado, Novembro 04, 2006]


Ecos do silêncio

solos de guitarra flamenca
morrem no ar
sementes regadas a rum
germinam no solo

do lado de cá do espelho
a bela adormecida
embebeda-se de sonhos
e dedilha alucinadamente
o fio da navalha

Euza Noronha




por Andarilha descalça * 6:44 PM

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[Quarta-feira, Novembro 01, 2006]


Valsas de Esquina de Mignone
por Dora Ferreira da Silva

Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.



Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.





por Andarilha descalça * 2:27 PM

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