Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.
[Terça-feira, Outubro 31, 2006]
das nossas mãos vazias se teceu a madrugada
do caminho a fonte
das manhãs a liberdade
depois no silêncio o teu gesto se fez festa
palavra de começo
ou tão só claridade
Luís Soares Barbosa
por Andarilha descalça * 12:51 PM
[Segunda-feira, Outubro 30, 2006]
POEMA 54
A carne é poeira. A alma é sombra.
Mas, ao fundirem-se, dão
o Homem, ser de luta e sonho,
dor, amor, adoração.
Porque (notai a subida,
sandeus, ateus, fariseus)
carne é poeira, mas de vida,
alma é sombra, mas de Deus...
Tasso da Silveira
in Puro Canto
por Andarilha descalça * 11:13 AM
[Sexta-feira, Outubro 27, 2006]
O mais é nada
Ricardo Reis
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
por Andarilha descalça * 9:58 AM
[Quinta-feira, Outubro 26, 2006]
(...)
Esta saudade é uma maré que eu sou;
Esta tristeza é já meu mar rolando,
Meu vento levantando-se na voz,
Minha contiguidade separando
Seus bocados inermes e sem área,
Seu percorrido igual em todos os navios,
Seu movente e parado eirado frio
Que se aquece nos reinos de coral
E quer quebrar-se em praias ¿ mas que é delas,
Se não são minhas secas desistências
No inútil desenho de alguns passos?
De onde em onde uma luz ¿ mas nem parece,
De apagada e perdida nos socorros,
De intermitente ao vento que já sou...
(...)
Áspera Vida
Vitorino Nemésio
por Andarilha descalça * 10:03 AM
[Quarta-feira, Outubro 25, 2006]
Soneto a Quatro Mãos
Paulo Mendes Campos/ Vinicius de Moraes
Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.
Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.
Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.
Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
por Andarilha descalça * 9:44 AM
[Terça-feira, Outubro 24, 2006]
Gargalhada
Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:
Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!
Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...
O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.
Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
¿ e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas...
Escuta bem:
Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!
Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.
Cecília Meireles
por Andarilha descalça * 9:31 AM
[Segunda-feira, Outubro 23, 2006]
Uma voz na pedra
Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa
por Andarilha descalça * 11:03 AM
[Sexta-feira, Outubro 20, 2006]
Poema da devastação
Carlos Nejar
Há uma devastação
nas coisas e nos seres,
como se algum vulcão
abrisse as sobrancelhas
e ali, sobre esse chão,
pousassem as inteiras
angústias, solidões,
passados desesperos
e toda a condição
de homem sem soleira,
ventura tão curta,
punição extrema.
Há uma devastação
nas águas e nos seres;
os peixes, com seus viços,
revolvem-se no umbigo
deste vulcão de escamas.
Há uma devastação
nas plantas e nos seres;
o homem recurvado
com a pálpebra nos joelhos.
As lavas soprarão,
enquanto nós vivermos.
por Andarilha descalça * 9:58 AM
[Quinta-feira, Outubro 19, 2006]
PROJETO DE PREFÁCIO
Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Mario Quintana
por Andarilha descalça * 12:29 PM
[Quarta-feira, Outubro 18, 2006]
SOLIDÃO
A maior solidão é a do ser que se ausenta,
que se defende, que se fecha,
que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem fechado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede
o que ele pode dar de amor,
de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar,
o que tem medo de ferir-se.
Esse medo queima como uma lâmpada triste,
cujo reflexo entristece também tudo em torno.
Ele é a angústia do mundo que o reflecte.
Ele é o que se recusa às verdadeiras
fontes da emoção, as que são o património de todos, e,
encerrado em seu duro privilégio,
semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Morais
por Andarilha descalça * 5:33 PM
[Terça-feira, Outubro 17, 2006]
O Amor é Lua
Alberto Vilela Chaer
Toda
E nunca inteira
Terei você
Enuarada
Um dia
Você foi lua cheia
E louco
Pelo brilho deste amor
Meu coração
Bateu nas portas de meu peito
E voltou a me viver
E me alimentar de asas
Ícaro reeditado
Sonho derretido
Ainda tenho os pés
E caminhos antigos
Nos dias de
Lua Nova
Quando é maior
A impressão de cegueira
Quando o amor
É mais impossível
Eclipse e dor
Fico tateando os céus nos chãos
Tropeçando nas estrelas mortas
Mesmo sabendo que não te encontro
Nos dias de
Lua Crescente
E
Lua Minguante
Ainda
Te amo
E me revejo
Aos pedaços
Remontando da saudade
Um mosaico
Interminável
Para te lembrar
Quase inteira
Nos dias de
Lua Cheia
Não consigo mais
Sair de casa .
por Andarilha descalça * 2:44 PM
[Segunda-feira, Outubro 16, 2006]
À sombra de meus cabelos Meu amado adormeceu, - irei acordá-lo eu?
Penteava eu meus cabelos
Com cuidado cada dia
E o vento os espargia
Até roubar-me os mais belos,
E ao seu sopro e sombra deles
Meu amado adormeceu,
- irei acordá-lo eu?
Diz-me ele que lhe dá pena
Em ser em extremo ingrata,
Que lhe dá vida e o mata
Esta minha cor morena;
Chamando-me sereia amena
Junto a mim adormeceu
- Irei acordá-lo eu?
Tradicional,Poesia espanhola do seculo XIX
(Trd.de José Bento - in poemário Assírio e Alvim)
por Andarilha descalça * 11:35 AM
[Sábado, Outubro 14, 2006]
É ele! O sonhador!
Vagueia o poeta pelos campos: admira,
Adora; ouve dentro de si mesmo uma lira.
E ao vê-lo chegar, as flores, todas as flores,
As que dos rubis empalidecem as cores,
As que dos pavões deixam as caudas ofuscadas,
As florezinhas azuis, as florezinhas douradas
Tomam para o acolher, nos seus ramos agitados,
Arzinhos humildes, ou grandes ares afectados,
E, familiarmente, porque fica bem às belas:
«Olha! É o nosso amado que passa!», dizem elas.
E, cheias de luz e de sombra, com vozes inquietas,
As árvores gigantescas que vivem nas florestas,
Todas essas velhinhas, as tílias, os áceres, os teixos,
Os carvalhos venerandos, os enrugados freixos.
O olmo de negra ramagem, que o musgo entorpece,
Como os ulemas fazem quando o mufti aparece,
Saúdam-no com grandes vénias, curvando para a terra
As cabeças de folhagem e as suas barbas de hera,
E vendo na sua fronte um sereno esplendor,
Murmuram muito baixinho: É ele! O sonhador!
Victor Hugo
(tradução de Mª Manuela Parreira da Silva)
por Andarilha descalça * 8:28 PM
[Sexta-feira, Outubro 13, 2006]
Som de mulher
Os olhos são o espelho da alma.
E se isso, verdade é,
deixe-os serem a janela,
e veja por um instante
minha alma de mulher.
Vê a borboleta
que em doces volteios
acaricia suave, seus cabelos?
São meus dedos.
Feche os olhos e sinta.
Ao som suave da brisa,
minhas carícias que
vão lhe envolvendo.
Sinta o toque na pele,
que traçando seu rosto
vai descendo mansinho
em direcção ao seu peito.
São meus beijos.
Sente o roçar pela cintura,
como asas de libélula voejando?
É minha língua.
Vou adentrando.
Das vestes, já liberto,
sinta o tempo de agosto
que vai molhando seu corpo.
Estou provando seu gosto.
Segure de leve, pressionando,
minhas ancas
transformadas em rédeas,
enquanto vou cavalgando.
Fica assim...
Parado a sentir
o veludo úmido lhe envolvendo.
Você está dentro de mim.
Rápido...
Vem comigo!
Vamos chegar ao fim...
Agora abra lentamente seus olhos.
Sinta a vida transformada
em seiva que de seu corpo flui.
Não me procure.
Como a tarde dessa Primavera
Eu já fui...
Asta Vonzodas
por Andarilha descalça * 5:58 PM
[Quinta-feira, Outubro 12, 2006]
Hoje
Coral
Hoje dispo-me de ontem,
Procuro o hoje,
Encontrando o amanhã!
As palavras rendilhadas
espalham-se por entre serras perdidas
separadas do mar!
Hoje visto-me de ontem,
não procuro o hoje
e de que interessa o amanhã?..
Buscas incessantes que se engolem
em orgasmos salgados que
caem na terra de ninguém!
São tantas procuras inférteis
de palavras rendilhadas
que acabam mortas
por entre serras perdidas
naturalmente¿ sem alimento!
Hoje desejo-me¿ Nua!
por Andarilha descalça * 5:21 PM
[Quarta-feira, Outubro 11, 2006]
A solidão
a solidão
é uma faca
de dois gumes
que ora mata
ora inebria
e recria
a solidão
é a espera
de um velho
que aguarda no cais
o momento da partida
para outros ais
a solidão
é a noite escura
a pesquisa
o ai, a brandura
a solidão é uma espada
que nos fere
numa batalha desigual
é um conto de fada
que sugere
um amor sem igual
a solidão é o medo
de cairmos cedo
sem ter uma mão
em qualquer ocasião
a solidão é uma tela
um pincel
o óleo derramado
sem nexo
a foto de mim perplexo
a solidão é o grito
do vento
do infinito
é o momento
a luz do firmamento
é o azul das ondas do mar
no teu corpo a sussurrar
a solidão
é gemer a família no longe
é viver como monge
adorando Deus
em seu coração
a solidão é um poema
um papel
caneta sem tinta
ou tela sem pincel
é o fogo que mora em nós
sem se atear
ateando-se no sonho
de coisas imorredoiras
a solidão
é a luz
a penumbra
a escuridão
que nos mata o coração
Adriano Pinho
por Andarilha descalça * 12:32 PM
[Terça-feira, Outubro 10, 2006]
Porque não soube merecer
António Ramos Rosa
Porque não soube merecer a glória, a mais suave
de me deitar a teu lado
e que o sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou .
por Andarilha descalça * 9:40 AM
[Segunda-feira, Outubro 09, 2006]
¿Se para lá¿¿
Se para lá daquela serra, estiver o mar¿ Eu sou a serra!...
Se para lá daquele véu, estiver a cor¿ Eu sou o véu!...
Se para lá daquela terra, estiver o sol¿ Eu sou a terra
Se para lá daquele céu, estiver a dor¿ Eu sou o céu!...
Se para lá daquele riso, houver tortura¿ Eu sou o riso!...
Se para lá daquela flor, houver espinhos¿ Eu sou a flor!...
Se para lá daquele siso, houver loucura¿ Eu sou o siso!...
Se para lá daquele amor, houver ódio¿ Eu sou o amor!...
António Prates
por Andarilha descalça * 5:05 PM
[Domingo, Outubro 08, 2006]
Demoro... em ti !
Demoro...
Perco-me... continuamente
em teu espaço.
Desperto sentidos
Saboreio teu tempo
Teu corpo... tua alma.
Em ti... esqueço
Amanheço
Demoro...
És parte de mim
Gás transparente
que respiro.
Ar da vida!
E reencontro...
A tua calma... na minha.
Demoro...
Tu! Eu!
Deliciosamente...
Jorge Assunção
por Andarilha descalça * 8:29 PM
[Sábado, Outubro 07, 2006]
Povoamento
No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
Ruy Belo
por Andarilha descalça * 6:09 PM
[Sexta-feira, Outubro 06, 2006]
Fiança
A borboleta não sabe
Da suas asas, nem lembra da forma
Do seu passado.
A borboleta é
Uma sensação,
Um lembrete da primavera
Que já passou.
Fausto Wolff
in O Pacto de Wolffenbüttel
Ed. Bertrand Brasil- 2002
por Andarilha descalça * 8:33 AM
[Quinta-feira, Outubro 05, 2006]
Canto
Enquanto houver um rio, hei-de cantar
Lonjuras de outros tempos, esquecidas.
Enquanto houver gaivotas rumo ao mar,
Cantarei lembranças de outras vidas.
Enquanto houver um rio, hei-de sonhar
Venturas de outros tempos, proibidas.
Enquanto houver mordaças de matar,
Cantarei esperanças coloridas.
E enquanto o rio correr e eu cantar
Vontades, ilusões, destinos, fados,
Talvez um dia, o meu canto chegue ao mar
Se não, que espalhem as gaivotas pelo ar
Em pios, em voos, em desenhos ousados
Tudo quanto meu canto nunca ousou cantar.
Helena Pedro
por Andarilha descalça * 10:59 AM
[Quarta-feira, Outubro 04, 2006]
laranja mecânica
Lau Siqueira
às vezes me desespero
e cometo absurdos
às vezes simplesmente
fico mudo
não sei de onde vim
nem porque assim
me desnudo.
por Andarilha descalça * 10:20 AM
[Terça-feira, Outubro 03, 2006]
Traumas da Alma
Nara Barros
Quando se colocou
Intensidade nos sentimentos
Impetuosidade no coração
Atravessou o portal além realidade
E embarcou na quimera
Simplesmente por amor
A alguém atrás da fria tela.
Traumas da Alma
Quando se fez as malas e viajou
Num virtual e sedutor amor
De olhos vedados
Ouvidos tapados
raciocinio bloqueado
Coraçao apaixonado.
Traumas da Alma
Quando na viagem levou apenas:
Alma e coração na bagagem
Cara e coragem
Como bilhete de passagem
Risco de vida
Acobertados pela dubia sorte
E a paixão
Como passaporte.
Traumas da Alma
Quando se viveu
Uma paixão virtual
Nave das Ilusões
Rumo ao planeta de ciberneticos fantasmas
Eu, aventureira e guerreira
Sobrevivi, mas trago marcas
Cicatrizes e traumas
Na minha Alma.
por Andarilha descalça * 4:08 PM
[Segunda-feira, Outubro 02, 2006]

por Andarilha descalça * 9:51 PM
QUE ASSIM TE AFAGUE...
Johann Wolfgang von Goethe
Que assim te afague, ó meu Amor,
e te ouça
A voz divina - como é possível?!
Impossível parece sempre a rosa,
O rouxinol inconcebível.
por Andarilha descalça * 9:42 PM