Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

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[Sábado, Setembro 30, 2006]


Em Longo se transforma

Em longo se transforma o breve engano,
e o discurso em vento,
e o desejo em medo.
E a esperança
em memória, e o pensamento
em bússola cega
para o mundo.
E em vidro o espelho apaga,
gasto de mágoas e mudanças,
o claro rosto do futuro.

Pedro Mexia
in o futuro em anos luz




por Andarilha descalça * 5:58 PM

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[Quinta-feira, Setembro 28, 2006]



Amor
Loucura, perda, sina e cor.

Amor que, puramente amor,
por si é mais que sentimento.

Esse estranho
e febril momento,
movimento,
tormento que com o tempo se esvai.

Amor que do peito cai,
que do corpo sai.

Amor que apenas ama...
Amor, adeus!

Amor que dos versos vive,
ao menos dos meus.
Amor
amortecendo a queda.

Amor
tecendo a queda desse coração.

Bruno Ramalho




por Andarilha descalça * 8:52 PM

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[Quarta-feira, Setembro 27, 2006]


TOCAM

Tocam
as maravilhosas
orquestras
de sabiás
e da janela
do meu
quarto
ouço...
por incrível
que possa
parecer
um grito
de liberdade.

Geraldo Alverga




por Andarilha descalça * 8:52 PM

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[Terça-feira, Setembro 26, 2006]



Texturas

Não te preocupes em me decifrar,
sou costurada com a linha da ambigüidade,
vestida de discursos de calar.
Minha bainha não foi feita,
toco em todas as texturas.
Minha cor não foi eleita,
sou camaleão sem cura.

Não procure em mim suas verdades.
Meu verso é repleto de possibilidades,
Não possuo seqüência, não possuo métrica.
Sou cúmplice da dualidade,
rima anacrônica perdida na realidade.
Não te preocupes em me decifrar,
Sou verso de intuição,
Pergunta possível,
tentativa de explicação.


Gabriela Marcondes




por Andarilha descalça * 9:21 PM

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[Segunda-feira, Setembro 25, 2006]


Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama,
...e o vento do esquecimento arraste o que é doente!

Juan Ramón Jiménez



por Andarilha descalça * 8:54 PM

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[Sábado, Setembro 23, 2006]

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão Ferreira



por Andarilha descalça * 8:13 PM

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[Sexta-feira, Setembro 22, 2006]


VELEIROS BRANCOS
Ledusha B. A. Spinardi


Alheia confiro a curva bem feita dos meus pés
minhas coxas que guardam o último sol
onde se encontram

A lua acena veleiros brancos
beijando a janela escancarada

Faz muito calor por aqui
faz calor nas dunas do meu corpo
que sei, pressentes
como pressinto a delicada febre das tuas mãos

No umbigo da noite destilo vapores
lavanda e mirra para que me queiras
tanto
e temas quase nada

No teu silêncio de homem
sinto que vislumbras minhas veredas
Assim permaneço recostada
os travesseiros de pluma afagando o dorso
e te quero dessa forma inescrutável
entre o tesão e a perplexidade.




por Andarilha descalça * 9:59 PM

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[Quinta-feira, Setembro 21, 2006]


Quatro Perguntas,
seguidas de um epílogo ao escultor José Rodrigues
Albano Martins


1.Tens na ponta do lápis uma chave
para abrir o poema
por onde é que ela o abre?

2. Se um besouro de asas
translúcidas entrasse
agora no poema
- tu deixavas?

3. Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?

4. E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
-prendê-la-ias?
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.




por Andarilha descalça * 8:42 PM

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[Quarta-feira, Setembro 20, 2006]


Crespúsculo
David Mourão Ferreira

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.




por Andarilha descalça * 10:07 PM

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[Terça-feira, Setembro 19, 2006]


Vestida!

Vestida
de anjo
de criança
de menina
de adolescente
de namorada
de companheira
de amante
de mãe
de avó
de deusa.

Obrigado!

não importa o que vestes em tua mente.

És sempre.....mulher.

Fernando Pascoa




por Andarilha descalça * 9:07 PM

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[Domingo, Setembro 17, 2006]



Os silêncios da fala
Maria Teresa Horta



São tantos

os silêncios da fala



De sede

De saliva

De suor



Silêncios de silex

no corpo do silêncio



Silêncios de vento

de mar

e de torpor



De amor



Depois, há as jarras

com rosas de silêncio



Os gemidos

nas camas



As ancas

O sabor



O silêncio que posto

em cima do silêncio

usurpa do silêncio o seu magro labor.



in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento,
Porto 2001, pp. 40, 41




por Andarilha descalça * 4:46 PM

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[Quinta-feira, Setembro 14, 2006]


DOUVE FALA
YVES BONNEFOY
tradução: Mário Laranjeira

Que palavra surgiu perto de mim,
Que grito nasce numa boca ausente?
Mal posso ouvir o grito contra mim,
Mal sinto o hálito que me nomeia.

No entanto o grito em mim vem de mim mesmo,
Estou murado em minha extravagância.
Que voz divina ou que estranha voz
Consentira habitar o meu silencio?




por Andarilha descalça * 10:32 PM

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[Quarta-feira, Setembro 13, 2006]


São Meus Estes Rios
MANOEL LIMA

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.




por Andarilha descalça * 9:17 PM

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[Terça-feira, Setembro 12, 2006]


RETRATO EXTRATO
Virgínia Schall

Adentro minha face no espelho
Paisagem de sonho, fantasia
Miragem do dia a dia
Realidade vazia
Onde a verdade?

A milênios assim me retrato:
No espaço dos meus olhos, apenas
O traço externo de minha face
Fotografo

A milênios assim me refrato:
Na expressão do meu olhar
A revelação do que eu não vejo,
Projeto

O semblante sem retoque, nas retinas
Estraçalho
Penetro meu rosto por entre os cacos
No caleidoscópio das pupilas
O avesso de minha face
Transparece
Afogo a imago
Afago o ego

Um eco: estou liberta




por Andarilha descalça * 8:37 PM

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[Quinta-feira, Setembro 07, 2006]


Vagas de ilusão...
Friedrich

As palavras que penso, nunca digo
são secretas, quase como o universo
viajando com elas, somente em verso
para se encontrarem apenas contigo

Abraçando cada palavra na solidão
deslizo nas vagas deste pensamento
que me acalmam sempre o sofrimento
estendo-te os braços, dou-te a mão

Finjo não entender as desilusões
das palavras que vou arrastando
quando tocam fundo no teu peito

Afinal, tudo não passa de ilusões
que ambos vamos aguentando
neste cintilar único, quase perfeito...




por Andarilha descalça * 8:38 PM

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[Quarta-feira, Setembro 06, 2006]


TRANSFORMAÇÃO

Para que não soubesses
que caía uma lágrima
de dentro dos meus olhos:
__ sorri.
Para que não soubesses
que eu fora vencido
pelos dias insípidos e ofuscantes:
__ lutei.
Para que não calasse minha voz na noite
e em desertos eu me perdesse:
__ cantei.
Teus passos caminharam comigo
e o brilho tênue do meu medo
se dissipou.
Tomaste minhas mãos nas tuas:
__ transformei-me,
nunca mais morri...

Rita Schultz



por Andarilha descalça * 9:13 PM

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[Terça-feira, Setembro 05, 2006]


Canção do Amor Sereno
LYA LUFT


Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua , e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.




por Andarilha descalça * 9:31 PM

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[Segunda-feira, Setembro 04, 2006]


Para Quando ...
Fernando Costa
Andrade

Para quando o fim desta mania
De acreditar em sonhos acordados
Impossíveis?

Para quando a manhã de sol
Para quando o nunca
Seja ontem?

Para quando o amanhã
O despertar
Do sempre?




por Andarilha descalça * 9:53 PM

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[Sábado, Setembro 02, 2006]


Amanhecer

amanheces no meu peito
como rosa orvalhada
ou um pássaro sem jeito
a voar na madrugada

gaivota corta o vento
o vento revolve o mar
o teu corpo é rebento
do meu corpo a sussurrar

murmúrios são de vento
de vento é o teu arfar
quando passas pelo tempo
o teu jeito é de amar


adriano pinho



por Andarilha descalça * 8:24 PM

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