Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.
[Quinta-feira, Agosto 31, 2006]
Coisa tua
assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu
que virei alguma coisa
tua
(Alice Ruiz)
por Andarilha descalça * 8:57 PM
[Quarta-feira, Agosto 30, 2006]
ANATOMIA DO POETA
Lilian Maial
... cabeça de nuvens
olhos de céu e negrume
boca de sorrisos e verbos
entre canções de amor
e dentes na carne fraca
a cada estaca no peito
um beijo desfeito
um grito insatisfeito
amordaçado às cordas vocais
há deuses demais
e glóbulos não tão vermelhos
há espelhos
e um infinito observar de formas
há normas
até para respirar
[sem ar]
cavar...
pulsar...
circulação de sonhos
pensamentos
questões sem tempo
cabelos ao vento
pêlos eretos
chorares concretos
restos deixados no prato
há seios e receios
há ventres férteis
na ânsia de procriar
[palavras]
há pernas ligeiras e mágoas
há tanto vazio transbordante
nas lágrimas vociferantes
falta o abrigo
colo receptivo
toque certeiro
apenas a mão aberta
a carícia, o desejo
as vísceras se aquietam
corpo do poeta
[deformado]
sem funções periféricas
volumoso coração
a mente, o momento
o sofrimento
há visão além da retina
um vício de ver o depois
ou o mínimo de ninguém
há as impressões nos dedos
as letras
que não são escritas
[ou lidas]
mas partes do todo
gen
cromossoma
soneto
feto expulso a termo
por não poder guardar
[em si]
a criação
como coisa de Deus
profanada aos poucos
pelos homens descrentes
da beleza do todo
o homem
o amor
o tempo
o poema
por Andarilha descalça * 10:41 PM
[Terça-feira, Agosto 29, 2006]
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa naturezaLusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
--- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor
Poema Miguel Torga
por Andarilha descalça * 9:04 PM
[Domingo, Agosto 27, 2006]
Nau do Insano
António Zumaia
Embarquemos na nau do insano,
Vamos fazer do amor a glória
Dele algo de belo, profano
Será essa a nossa vitória...
Velas desfraldadas ao vento,
Com nossos corpos vamos compor,
Delícias em nosso pensamento.
Realizar bela melodia de amor...
A nau será nosso precioso ninho,
Nossos lençois serão suas velas...
Embriagados pelo precioso vinho,
Feito com uvas mais belas
Uvas de delicioso carinho...
Digno das mais lindas telas.
Vamos nos amar na nau dos insanos,
Esquecendo a nossa condição de humanos
Nau do Insano 02
António Zumaia
Oh! Da Gávea olha-me bem esse MAR...
Verifica se está pleno de rosas .
Que no seu dengoso cantar,
Escolha as canções mais formosas...
O teu capitão hoje vai amar .
Escolhe o vinho e taça preciosa
Rósea nuvem para acoitar
A deusa mais doce e formosa ...
Arria as velas , quero a sua luz ,
Vai haver amor na nau do insano ...
Teu corpo lindo ... há muito me seduz.
Ela se entrega ... e sem desengano ,
Meu corpo e alma , ela conduz
E há amor ... divino e profano.
E nesta luta de deuses , divina
Tenho teu corpo esplendoroso de menina...
No êxtase ... nada para mim foi humano ,
Ergamos ao céu ... a Nau do Insano .
por Andarilha descalça * 5:08 PM
[Sábado, Agosto 26, 2006]
Creio no teu sorriso envolto no espírito do tabaco.
Creio no teu silêncio, que só se quebra para pronunciar meu nome.
Creio em teus versos lavados em minúcias e sustos.
Creio na paz que se instaura em quem senta ao teu lado.
Creio na morte da pequenez que teus passos aniquilam.
Creio na morte,
la petite-mort que viverei em teus braços.
BÁRBARA LIA
por Andarilha descalça * 9:45 PM
[Sexta-feira, Agosto 25, 2006]
FRONTEIRA
Tasso da Silveira
Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...
Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.
por Andarilha descalça * 10:05 PM
[Quinta-feira, Agosto 24, 2006]
Vaguíssimo retrato
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
(Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio)

por Andarilha descalça * 8:59 PM
[Quarta-feira, Agosto 23, 2006]
REGAÇO
Ao pó dos caminhos
Perguntei
Por teus pés andarilhos...
Às folhas caídas
Perguntei
Pela tua sombra;
Ao nordeste
Perguntei
Pela tua voz;
E nem pó
Nem folhas
Nem vento
Me disseram de ti...
No entanto
No fundo da alma
Algo me diz
Que teus pés
Tua sombra
Tua voz
Me esperam
À esquina da tarde
Quando o sol
É uma bola de fogo
A descansar
No meu regaço!...
Maria Mamede
por Andarilha descalça * 10:04 PM
[Terça-feira, Agosto 22, 2006]
LOUCURA DO POETA
Que a voz do Poeta não se cale
Que os olhos do Poeta não se fechem
Que os seus versos sejam a sirene
Que alerta toda a gente à sua volta
Que o poema seja o grito inconformado
Dos braços que se erguem na revolta
Contra os braços curvados e a cerviz
Submissa ao peso da opressão
Que o poema seja sempre vertical
Um relâmpago enorme em noite escura
Que o Poema seja uma canção
E rasgue o medo em mil pedaços
Com versos de amor e de ternura
Espalhados por mil bocas e mil braços
Que o Poeta seja mais que um ser humano
E que tanja a lira do seu canto
Elevando a Poesia até ao céu
E que entregue aos homens o seu Fogo
Assumindo o papel de Prometeu..
Quando o Poeta escreve por Amor
A palavra torna-se a armadura
Com que o Homem vence a própria dor
E destrói o vírus da amargura...
É louco, o Poeta? Deixem lá:
O mundo precisa da loucura...
Fernando Peixoto
por Andarilha descalça * 8:24 PM
[Segunda-feira, Agosto 21, 2006]
TU
TU, que ocultas nos teus olhos a força dos elementos
TU, que no teu sorriso alimentas uma esperança
TU, que nos teus lábios emergem fantasias
TU, que no teu rosto transparece a ansiedade
TU, que no teu silêncio se revelam mil desejos
TU, que em tuas mãos despertam subtis carícias
TU, que em cada gesto dominas o impulso
TU, que sabes que o tempo é a eternidade
Que sabes que a vida não perdoa hesitações
Não temas por mais tempo a realidade
Não reprimas no peito as tuas sensações
TU, que sabes que em tudo existe imperfeição
Que sabes que há outro horizonte à tua espera
Não pode haver tratado, regra ou convenção
Que te impeça de viver a tua primavera
TU, que sabes ser o sonho apenas um momento
Que sabes estar certa a hora da verdade
Solta as tuas velas à mercê do vento
E parte deste cais rumo à liberdade
ALBINO SANTOS
por Andarilha descalça * 9:04 PM
[Sábado, Agosto 19, 2006]
É PRECISO
Ana Maria Brasiliense
É preciso ser suave como a brisa...
Forte como o vento...
Claro como um dia de sol...
Doce como o mel...
Delicado como
o bater de asas das borboletas.
Mágico como uma canção que nos encanta.
Sutil como o Beija flor quando uma flor beija...
Sonhador como um poeta
ao falar de amor.
É preciso mais que tudo:
"Nascer todos os dias"
por Andarilha descalça * 7:41 PM
[Quinta-feira, Agosto 17, 2006]
"Vós pouco dais quando dais de vossas posses.
É quando derdes de vós próprios que realmente dais."
"Como posso perder minha fé na justiça da vida, quando os
sonhos dos que dormem num colchão de penas não são
mais belos do que os sonhos dos que dormem no chão?"
"Disseram-vos: Olho por olho e dente por dente! Mas eu vos
digo: Somente os fracos se vingam. Os fortes perdoam, e é
honra para o injuriado perdoar."
Gibran Khalil Gibran
por Andarilha descalça * 9:34 PM
[Quarta-feira, Agosto 16, 2006]
CORCÉIS
Paula Glenadel
Controlar os corcéis
da alma,
desembestados,
com mão segura
como o lastro do navio,
seu peso em areia, em ouro:
o medo dá asa a cobra
cria monstros na sombra
viaja nos desvãos
estremece os alicerces
uiva sussurrando ruínas.
por Andarilha descalça * 9:45 PM
[Terça-feira, Agosto 15, 2006]
Arte-final
Affonso Romano de Sant'Anna
Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
¿ quem toma uma por outra
confunde e mente.
por Andarilha descalça * 8:13 PM
[Segunda-feira, Agosto 14, 2006]
Quando o Luar Caiu
CONCEIÇÃO LIMA
Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.
Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.
As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.
por Andarilha descalça * 8:12 PM
[Domingo, Agosto 13, 2006]
Amor
não dei por ele,
talvez brisa no
pescoço
e na orelha,
o primeiro arrepio de prazer
talvez tenha sido isso
leve, começo a senti-lo
refresca-me
mas cresce,
torna-se forte
antevejo um tornado,
com todos os sentimentos
no centro
a elevar-se em
espiral,
para fora de mim e
do mundo dos ventos
amor-vento
já uma tempestade
abre-me os olhos,
amor-água
escorre-me pelo rosto
pelo corpo
as cordas das velas do meu passado
esticam rangem vibram,
as cruzes nelas bordadas
partem com o vento
e a minha alma fica
branca
pura
disponível
para receber as tuas marcas,
só as tuas!
Carlos Peres Feio
por Andarilha descalça * 8:32 PM
[Sábado, Agosto 12, 2006]
AOS QUE PASSAM
Te ofereço um poema
feito com energia
e cultivado no ventre
do amor que carrego
Te ofereço um poema
na tarde nervosa dos teus passos
molhado com a distância
que percorro diariamente
e com a vontade que eu tenho
de ser teu amigo
Me ofereço em palavras, companheiro
envolto no colar de desejos e buscas
que aperta nossa garganta
e nos faz abrir a boca
com uma força capaz
de derrubar as paredes
as paredes que nos separam.
Nei Duclós
por Andarilha descalça * 10:45 PM
[Sexta-feira, Agosto 11, 2006]
Viagem
De vez em quando
em quando
é bom partir
que afinal
não se chega
sempre.
Rubens Lemos
por Andarilha descalça * 11:03 PM
[Quinta-feira, Agosto 10, 2006]
Águas necessárias
não sei se o tempo me acontece,
ou se aconteço no tempo.
em noites de lua cheia costumo uivar,
junto-me aos lobos.
nas manhãs de abril,
visto-me em contrições, ungida por resguardos de
quaresma ando nos roxos-paixão,
viuvando conformidades em respeitoso pranto,
por cada cristão, dentro de mim - morto.
nunca sei minha meteorologia,
mesmo em dias solares....dou de chover.
dizem :
- melancolia...emoções instáveis.
desdigo:
-descarrego de fardos ,
cumulação de nuvens,
sofrimento de densidades.
chovo :
por desalegrias
por desempatias
pode ser...
pode até nem ser.
não me importam as causas,
não busco saber verdades.
simplesmente chovo.
chovo-me por desesperada necessidade.
(Ana Merij)
por Andarilha descalça * 9:26 PM
[Quarta-feira, Agosto 09, 2006]
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
(António Ramos Rosa )
por Andarilha descalça * 9:34 PM
[Terça-feira, Agosto 08, 2006]
Trovas De Muito Amor Para Um Amado Senhor
Hilda Hilts
Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.
Dizeis que tenho vaidades.
E que no vosso entender
Mulheres de pouca idade
Que não se queiram perder
É preciso que não tenham
Tantas e tais veleidades.
Senhor, se a mim me acrescento
Flores e renda, cetins,
Se solto o cabelo ao vento
É bem por vós, não por mim.
Tenho dois olhos contentes
E a boca fresca e rosada.
E a vaidade só consente
Vaidades, se desejada.
E além de vós
Não desejo nada.
por Andarilha descalça * 9:03 PM
[Segunda-feira, Agosto 07, 2006]
Calmaria e vendaval
Vinícius de Moraes
Choro e canto, mato e morro
Corro entre o bem e o mal
Sem querer faço da vida
Calmaria e vendaval
Passarinho e águia brava
Brisa mansa e temporal
Vendo o dia se apagando
Vejo a noite amanhecer
Passo o tempo procurando
Quem me possa responder
Como é que tem quem vive
Sem ninguém por quem morrer
Um caminho a gente encontra
Só questão de procurar
Se uma reta está no céu
Uma curva está no mar
Só não se acha saída
Quando a morte vem levar
in "Poesia completa e prosa: "Cancioneiro""
por Andarilha descalça * 8:32 PM
[Domingo, Agosto 06, 2006]
Desventura
Tu és como o rosto das rosas:
diferente em cada pétala.
Onde estava o teu perfume? Ninguém soube.
Teu lábio sorriu para todos os ventos
e o mundo inteiro ficou feliz.
Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava,
como um segredo que cai do sonho.
Depois, abri as mãos, - e perdeu-se.
Agora, creio que vou morrer.
Cecília Meireles
por Andarilha descalça * 8:53 PM
[Sábado, Agosto 05, 2006]
Estou livre como se pudesse começar
Estou livre como se pudesse começar,
Escrevo e leio.
Nem sei como começar.
Coisa que não consigo articular.
Paisagens, imagens,
Tudo coisas que me lembram o verbo amar.
Imagens de água pura,
Poros da minha terra.
Miragens, melodia
Tudo no meu leito havia,
Uma rosa, uma melodia,
Um rosto Lindo de poesia.
Vou á varanda com a rosa nas mãos,
Olho para o céu e mergulho neste sol,
Por instantes vejo rebentos espalhados,
Da minha rosa, radiantes mil sóis e suas
pétalas.
Apenas aquela Luz que me beija ao sair,
É como a alegria imorredoura,
Que se sente e me faz feliz,
Estou na imagem de Si.
Fernando Pascoa
por Andarilha descalça * 5:48 PM
[Sexta-feira, Agosto 04, 2006]
o Tempo
DANIELA FURMANKIEWICZ
Não sei definir o tempo.
Ele cai sobre a minha cama
mas usa máscaras.
Se disfarça de vento
mas é monotonia.
Usa roupas de sombras
mas é dia quente.
Tem um jeito de anjo
mas é solidão...
O tempo caminha pelo corredor
sem ter acordado.
É sonâmbulo de alma inquieta,
um grito abafado
em um salão vazio.
Tempo sádico que mata
todos os meus motivos,
deturpa as minhas vontades,
rabisca meus desejos e some.
Não sei definir o tempo.
Não sei se ele cura
ou se passa por cima.
Pode ser homem, mulher,
qualquer coisa.
O tempo que me sufoca,
o tempo que me abriga...
nasce / morre / renasce
Poema adormecido,
outro dia...
por Andarilha descalça * 10:17 PM
[Quinta-feira, Agosto 03, 2006]
ULISSES
Octávio Mora
Ulisses em Ítaca, vivo ausente
Talvez seja resíduo da viagem ,
mas é tão pouco minha esta paisagem
que só posso estar longe desta gente:
Se foi minha, cortaram-na tão rente
que a memória mudou toda a folhagem ¿
falávamos idêntica linguagem ¿
Falo agora linguagem diferente:
Vivo em Ítaca ausente: minha fronte
alargou-se, meus olhos são maiores,
e na memória trago outros países:
Contudo, já foi meu este horizonte,
já fui jovem aqui : olho arredores,
E vejo Ítaca ao longe, sem raízes.
por Andarilha descalça * 10:33 PM
[Quarta-feira, Agosto 02, 2006]
Uma parte do mar
Uma parte do mar ancorou em seus olhos
e quando ele nos olha
duas ondas do mar
inquietas
fazem da gente praia,
fazem da gente peixe,
fazem da gente poeta
Claudia Bloise
por Andarilha descalça * 8:36 PM
[Terça-feira, Agosto 01, 2006]
CÂNTICO FINAL
afinal o que canto?
as roseiras que trepei
nos imensos regaços
que me aceitaram
quando vendia a palavra
o murmúrio da fonte
o doce marulhar
das cascatas de espuma
que moram no rio
da minha esperança?
que canto agora?
a fuga da enxada
a mulher apetecida
nas a´guas quietas do ribeiro
a galinha roubada
fruta alheia cobiçada
a terra prenhe
o estrume fecundo
o casamento dos pássaros?
será que canto o corpo-oferta
da lua de milho
ou o cheiro do feno
debaixo do rubro sol
a esconder-se
no empobrecer da tarde?
canto a garganta da terra
dos outros ferida
a dor do mar imenso
porque derradeiro
nesta pátria infinita
sem rumos
sempre carpida
dorida de ossos velhos
de séculos a brincar
canto o parto da mãe
natureza que floresce
com aquele jeito universal
e cósmico que a gente conhece
canto o mar
essa ode de vida
e os olhos de mulheresque não muitas
espraiando nas margens
os olhos de Eva
e o corpo correndo
para o mar que é de todos
canto o martírio das gentes
a posse insolente
a persegição grotesca
os receios vulgares
o medo da palavra
afinal a enxada
a brandir
em terra quente
ou a pedra insolente
que é esta vida
plantada
neste nicho cósmico
canto as aves ordeiras do céu
os peixes vagabundos
deste mar revolto
as flores que amanhecem
o orvalho que cai
dos olhos daquela mulher
primeira que busca
no cesto da angústia
o pão derradeiro
canto ou finjo que canto
a alegria do universo
a mão de Deus
o esquecimento do homem
correndo inseguro
no rio morto
que nasce na fábrica
e corre ao lado da árvore morta
canto a alegria
do homem-dinheiro
e visto-lhe a pele
numa tarde qualquer
até que a noite me benza
olho as estrelas
neste mar de galáxias
canto o universo em expansão
e choro este planeta
onde acaba o pão
canto a arte-silêncio
o pincel do poeta
as cores da água ardente
o desespero da tela
o violino que mora em mim
e mais gente
a sombra
de Vénus do amanhã
imploro na noite
a solidão
das minhas companheiras
que se chamam de cegueira
de loucura
de vontade de fugir
estar quieto pela vez primeira
abraçar a noite
amar quase todas as mulheres
de corpo-roseira
e sorver-lhes o ventre macio
mastigar-lhes os cumes dos seios
morder-lhes segredos
nas orelhas da noite
com o desenho da palavra
que por vezes tarda
cantar com a mente
é coisa vâ
cantar com a pena
que não é sâ
é gemer na rua deserta
ou pensar pessoas
que não estão
na morada certa
cantar o sonho
só as aves o fazem
porque têm sempre migalhas
e um porvir
longe desta humanidade
que fado é este canto
de cordas tristes
em gargantas sequiosas?
Adriano Pinho
por Andarilha descalça * 8:38 PM