Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Sexta-feira, Abril 28, 2006]


Despedida

Se tiver que ir,
vai.
O que fica pra trás,
não sendo mentira,
não racha,
nem rompe,
não cai.
Ninguém tira.
Já que vai,
segue se depurando pelo trajeto,
para desembarcar passado a limpo,
sem máscaras,
sem nada,
sem nenhum desafeto.
Quando chegar,
sobe ao ponto mais alto do lugar,
onde a encosta do mundo
faz a curva mais pendente.
E então acena.
De onde eu estiver, quero enxergar
esse momento em que você vai constatar
que a vida vale grandemente a pena.

[Flora Figueiredo]




por Andarilha descalça * 7:49 PM

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[Quarta-feira, Abril 26, 2006]




por Andarilha descalça * 11:01 PM

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[Segunda-feira, Abril 24, 2006]


Traçando¿

Desenhei um ponto sem letra seguida
que nada se assemelha a um ponto final
disfarçado em frase vestida
virou poema em caderno real

Ternura... que sede desse olhar
Beija-me com a tua luz dourada
Escreve no silêncio a força de amar
Conta-me a alegria duma flor regada

Existem momentos que não rimam com nada
Mesmo que o nada não exista (...),
Não te dou uma história contada
Por muito que a página insista!

Olhas para mim
Sorris-me entre os quadrados
Traçando-me assim
Alguns sonhos destroçados

Agradeço-te com flores
Daquelas que nunca são arrancadas
Que permanecem belas e sem dores
Pois nasceram para serem contempladas

Os lápis caem como por magia
Num convite à escrita distinta
Que faça louvor à harmonia
E que vibre tudo o que sinta

Não são riscos nem despedidas
Nem feridas ou decepções
São gavetas cheias, amadurecidas
Que se abrem ao segredo das transformações...

Foram-se as lembranças
No auge da identidade
Levando todas as cobranças
Inúteis à imortalidade...

Minha voz que aqui se apaga
Distribui beijos sem boca
Pela doçura com que afaga
Uma nuvem de brisa rouca...

Parto, de corpos e de espaços
Livre de tempos e de laços
Sorrindo, vos aceno entre os traços
Deixando-vos como herança os meus braços...

As canetas têm as suas razões
E não me falam com riscos mesclados
Sugerindo-me outras missões
Em novos planetas encontrados...

No curriculum deste amar
Se repete minha marca diferente
Gravado nas ondas do mar
Minha mensagem de gente...

Vejo numa praia repleta de calmaria
Meu ser abençoando a paz sagrada
Os campos verdejantes perfumados de sabedoria
E quedo-me no instante, iluminada

E nas vozes agora mudas
Tudo o que me fala é amado
Abraço o sorriso dos budas
E abençoo tudo o que me foi dado!...

Manuela Pittet
22.Set:05




por Andarilha descalça * 9:38 PM

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[Domingo, Abril 23, 2006]


POEMA 17
Tasso da Silveira


Esquece o tempo. O tempo não existe.

Acende a chama às límpidas lanternas.

Nossas almas, a ansiar no mundo triste,

são de uma mesma idade: são eternas.



Se no meu rosto lês mortais cansaços,

é natural.A luta foi renhida:

caminhei tantos passos, tantos passos

para que te encontrasse em minha vida...



Não medites o tempo. Se muito antes

de ti cheguei, para a áspera, inclemente

sina de navegar por este mar,



foi para que tivesse olhos orantes,

e me purificasse longamente

na infinita aflição de te esperar...




por Andarilha descalça * 7:08 PM

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[Quarta-feira, Abril 19, 2006]


AMOR
Maria Esther Maciel


Na véspera de ti
eu era pouca
e sem
sintaxe
eu era um quase
uma parte
sem outra
um hiato
de mim.

No agora de ti
aconteço
tecida em ponto
cheio
um texto
com entrelinhas
e recheio:

um preciso corpo
um bastante sim.




por Andarilha descalça * 11:02 PM

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[Terça-feira, Abril 18, 2006]


Amor é um carpinteiro
Adelaide de Castro Alves Guimarães

Amor é um carpinteiro
Que ri com ar de matreiro,
Cerrando forte e ligeiro
Na tenda do coração...
Com toda a proficiência
Põe pregos de resistência,
Ferrolhos na consciência,
Tranca as portas da razão.




por Andarilha descalça * 10:30 PM

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[Segunda-feira, Abril 17, 2006]


Sugestão
Thiago de Mello


Não cegues o fio da tua lâmina
contra a pedra em que o tempo transformou
a flor antiga que inventei cantando
quando sequer chegada eras ao mundo.
Nem cultives o cardo do infortúnio
em veredas por onde eu caminhava
antes da tua mão na minha vida.
Não podes apagar o que já é cinza
nem afogar o que a água já levou.
Alguma sombra azul do que passou
vive no amor que nos abraça agora.
Não desperdices teu poder de luz.
Prepara, cada noite, a tua aurora.





por Andarilha descalça * 11:40 PM

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[Quarta-feira, Abril 12, 2006]


BEM-AVENTURADOS
Mário Quintana

Bem-aventurados os pintores escorrendo luz
Que se expressam em verde
Azul
Ocre
Cinza
Zarcão!
Bem-aventurados os músicos...
E os bailarinos
E os mímicos
E os matemáticos...
Cada qual na sua expressão!

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia...

A impura linguagem dos homens!




por Andarilha descalça * 11:20 PM

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[Terça-feira, Abril 11, 2006]


Arpeggiando um lamento

Grito pela tua doçura no meu tormento.
Como o mar¿
Que doçura melódica de vaga e vento.

Atirara-me nos teus braços dormentes,
Nos teus sentires dementes.
Nas tuas mil e uma formas de acalentos.
Atira-me para eles por favor¿

Escuto um som¿
É apenas um eco que vem de longe,
Parece o sorriso que toca os meus lábios e os queima,
É chama ardente!

Imagino os teus dedos,
Os teus lábios incandescentes,
A percorrem a minha boca, minha fronte.
Que posso mais querer senão amar plenamente?

Espero com ansiedade que voltes amanhã meu amor,
Se possível ainda hoje, ainda agora neste momento.
Mostra-me como se ama com ardor.

O meu coração espera por ti,
O meu cérebro não vive por viver
Quer fundir-se com o pleno SER.

Serei um em ti?
Que farei depois com todos estes sentimentos?
Serei livre?
Ser-te-ei em mim ou uma experiência que se molda em nós?
e plenamente em ti?

Queres me pelo coração?
Se sim teremos múltiplos orgasmos de oração.
Assim se ama assim se experimenta a maior dádiva de Deus.

Sabes?

És a jóia que procuro e encontrei e de ti nunca sairei!

Não quero ser chama ardente plena de Cio de gente,
Apenas o meu coração espera por ti,
O meu cérebro não vive por viver
Quer fundir-se com o pleno SER.

ACEITAS?


Fernando Pascoa




por Andarilha descalça * 10:08 PM

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[Segunda-feira, Abril 10, 2006]


Como a noite descesse...
Emílio Moura


Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e
desesperado diante dos horizontes
que se fechavam,
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível
Aurora! e vi logo que só as estrelas
é que me entenderiam.
Era preciso esperar que o próprio passado
desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
¿ É por aqui!

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
¿ Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
¿ Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?




por Andarilha descalça * 8:43 PM

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[Sábado, Abril 08, 2006]


Mirada

Meu tempo é teu.
Mesmo que não quisesse dá-lo,
me pedes
e te dou.

Não sei que rosto está oculto,
que face tenho para mostrar.

Sou esta que vês.


Querer

Quisera-te único,
existente.

Quisera-te antes da febre
do outono, das horas.

Quisera-te uma vez
e me bastar.

Thereza Cristina Motta




por Andarilha descalça * 6:00 PM

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[Sexta-feira, Abril 07, 2006]



POEMA
ROBERVAL PEREYR

Entrei de costas na vida
e vi o passado morrer:

sou este ser invertido
olhando para o perdido

como quem sabe esquecer.




por Andarilha descalça * 10:48 PM

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[Quinta-feira, Abril 06, 2006]



II (de "Três Tercinas")

Nunca não ser ninguém nem nada
porém deixar-se estar no tempo
como se a vida fosse água,

com quem bóia à flor da água
sem rumo, sem remo, sem nada
além de sono, tédio e tempo

senhor de todo o espaço e o tempo,
munido só de pão e água
e, sem precisar de mais nada,

beber sua agua enquanto é tempo.
E, depois, nada.

Paulo Henriques Britto




por Andarilha descalça * 10:15 PM

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[Quarta-feira, Abril 05, 2006]


DESTINAÇÃO EM DÓ MAIS OU MENOS

E assim morre, um dia, outro dia, a face da lembrança.
Fantasia, desliza o presente para o limbo, jamais.
Estreita recordação sepulta o paraíso.
Herói, santo, feto, fato.
Flamboyant, vinil e couro, um murro no além.
Com os pedaços dos sonhos se criam sonos, sombras
e pérfidas interrogações .

Jacob Pinheiro Goldeberg




por Andarilha descalça * 9:27 PM

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[Terça-feira, Abril 04, 2006]


Guardei-me para Ti
Lya Luft

Guardei-me para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.

É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.





por Andarilha descalça * 8:45 PM

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[Segunda-feira, Abril 03, 2006]


Paisagem
David Mourão Ferreira

Desejei-te pinheiro à beira-mar
Para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
Para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
No limite sereno dessa praia.

E desejei :"Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!"

Mas frágil e humano grão de areia
Não me detive á tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia)




por Andarilha descalça * 10:43 PM

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[Domingo, Abril 02, 2006]


ARTE POÉTICA
Jorge Luis Borges

Tradução de Rolando Roque da Silva

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.


E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.




por Andarilha descalça * 12:24 AM

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