Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Sexta-feira, Março 31, 2006]


INTERVALO
Fernando Pessoa

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.




por Andarilha descalça * 8:41 PM

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[Quarta-feira, Março 29, 2006]


A LUZ DE ONTEM
Lucian Blaga

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
um céu passado, a véspera extinta. Meu rosto
vai tão baixo, que antes nos céus ia posto!

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
auroras idas, que jorravam, inflamadas
fontes ¿ hoje com águas presas derrotadas.

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
a grande hora que em mim restou sem figura
como em um cântaro morto um fim de abertura.

Procuro, não sei o que procuro. Sob estrelas de
[ ontem,
sob as que passaram, procuro
a luz apagada que ainda enalteço.

¿ De La cumpana apelor (No Divisor de Águas), 1933




por Andarilha descalça * 11:24 PM

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[Terça-feira, Março 28, 2006]


Conto de Fadas
(Florbela Espanca)

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudades,
A princesa do conto: "Era uma vez..."





por Andarilha descalça * 9:37 PM

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[Segunda-feira, Março 27, 2006]


O CONVITE À VIAGEM
Charles Baudelaire

Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,

Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
¿ Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.





por Andarilha descalça * 8:44 PM

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[Domingo, Março 26, 2006]


PERDOA-ME
Irani Genaro



Perdoa-me!
Se há tanto tempo esperas,
Se minha ausência é fera
Arranhando o teu ser.



Perdoa-me,
Se ainda não fui tua,
Se nosso amor flutua
Igual a plumas ao léu. . .



Perdoa-me querido,
Se por querer-te tanto,
Permito que o meu pranto
Chegue aos ouvidos teus!



Perdoa-me, também,
Se às vezes eu reclamo.
É que um ciúme insano,
Vem tomar conta de mim.



Entendo,
Bem além desta telinha,
Tua vida não é minha,
Divides com outras mais.



Sei que tu me tens carinho,
Mas não durmo em teu ninho...
E assim, desesperado,
Tu, às vezes, me pões de lado,
Em busca de outras rivais.





por Andarilha descalça * 5:44 PM

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[Sábado, Março 25, 2006]


A Fera

Iara Brandão



Deixemos que venha esta fera

Com o seu olhar letal

Desafiando o imponente

Mostrando seu destemor.



Que lute pelo seu espaço.

Sempre acreditando

Nunca desistindo

Nunca temendo, sempre confiando em seu ideal.



Que a fera descubra valores ocultos,

Que mostre a sua garra afiada

Quando precisar defender sua vida

Se a luta for ingrata.



Trilhando novos espaços

Abrindo novos caminhos

Mostrando o valor que tem

A sua força diante dos espinhos.



Mas esta fera não se traduz apenas pelo seu olhar feroz

Ela é apenas um lado de sua personalidade

Que mascara a verdade nesta guerra do asfalto

Que trava no palco do seu dia a dia.



Pois dentro da fera mora também a Bela

A visão de um coração terno

Escondido nos recôncavos íntimos e belos

Para quem consegue ver além deste olhar predador.





por Andarilha descalça * 7:25 PM

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[Sexta-feira, Março 24, 2006]


BEIJOS DA LUA
Fernando Páscoa


Beijas como a lua
Beijas o meu beijo
Como os campos de lírios levantados
Sonhos ainda não sonhados.

Os teus beijos
Descem pelo mundo em mim germinado
Beija-me como no tempo passado
Num mundo não explorado.

Beija-me mais:
Desce o meu corpo lentamente
Beija-me as pálpebras,o olhos e a boca por fim
Sempre docemente em mim.

Espera musicalmente
Aquilo que não tem fim
Mora aí¿Entre os ramos do teu jardim.





por Andarilha descalça * 9:55 PM

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[Quinta-feira, Março 23, 2006]


Tudo que somos
Antonio Brasileiro



Tudo que somos,
pouco sabemos.

Um poço imenso,
cheio de sonos.

Quando choramos,
não nos perdemos.

Viver é um sonho,
não esqueçamos.

Viver é a sombra,
o assombro,o apenas.

Tão frágeis somos !
Frágeis e imensos.




por Andarilha descalça * 10:29 PM

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[Terça-feira, Março 21, 2006]


ESSÊNCIA


O MISTÉRIO
não está:

Em colher as sementes,
mas em replantá-las...
Em curar os cegos,
mas em fazê-los ver...
Em beber o vinho,
mas em transformá-lo em sangue...
Em absorver a seiva,
mas em elaborá-la...
Em sugar o néctar dos lírios,
mas em deixá-los reflorescer...

O MISTÉRIO
não está:

No ato de viver,
mas em sentir a VIDA!

CREIA ¿ simplesmente ¿ CREIA
SUAS pegadas continuarão visíveis
mesmo após tempestades de areia!

Sissa Schultz






por Andarilha descalça * 9:04 PM

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[Segunda-feira, Março 20, 2006]

Cântico
Vinícius de Moraes

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a namorada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.




por Andarilha descalça * 8:40 PM

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[Sábado, Março 18, 2006]


Amar as Coisas


É preciso amar as coisas que se tocam.

Deter o vento que se fez granito,

Rasgar as eras dos sonhos e dos mitos

E a solidão do tempo que não pára.


Das vagabundas memórias que há nos olhos

É preciso engravidá-las de sorrisos

Como as flores nas manhãs que nascem.


Existe um Universo para cada um de nós

O que é preciso é secar-lhe as lágrimas

E o sangue

Ferdi





por Andarilha descalça * 8:03 PM

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[Sexta-feira, Março 17, 2006]




por Andarilha descalça * 10:53 PM

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[Quarta-feira, Março 15, 2006]


AMOR CONCRETO
Elmar Carvalho



no vór-
ti-
ce voraz
dos abrasados amantes abraçados
o amor se faz
in-tenso e tenaz
no êmbolo inserido no
ver tiginoso
vér ti
ce
inver tido .




por Andarilha descalça * 9:03 PM

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[Terça-feira, Março 14, 2006]


O Amor

como o Mar, como o Rio ...


O amor como o rio
como o mar
reflete estrelas
claridade intensa do coração
simbiose que extasia
nuvens riscam o azul do céu
navega em busca de imagens
elevando a alma que sonha
e dança !

o amor
como o mar, acaricia a praia
sereno
impetuoso
como conchas multicores
algas rendadas
espuma com sabores de maresia
dolente suavidade impregnando a areia
plenitude
sem ser escravo
em movimento eterno
velocidade infinita
desliza ao som da emoção que toca !

o amor como águas de um rio
em percursos infinitos

aurora colorida
como um crepúsculo inundado de beleza
grita no seu silêncio
a felicidade em delírio !

o amor
como o mar, como o rio ...
navega rumo ao infinito.

Maria Thereza Neves





por Andarilha descalça * 8:40 PM

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[Domingo, Março 12, 2006]




por Andarilha descalça * 1:11 AM

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[Sábado, Março 11, 2006]


Soneto à Tarde

Abro a porta do coração
Deixo um poema entrar
Recito na imperfeição
Um qualquer tema de amar


De amor sempre canto
Numa voz de quem ama
Em vão todo o meu pranto
Não chega , a quem a voz chama


Se um dia a voz do vento
Te soar em tom suave
Sou eu que num lamento

Te canto coração que arde
Da vida maior tormento
Num soneto ao cair da tarde

Cecília Rodrigues




por Andarilha descalça * 9:59 PM

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[Quarta-feira, Março 08, 2006]






A criação



No princípio Deus criou a beleza e disse:


Faça-se

a magia, a poesia

a carne e a calmaria.


Faça-se

a graça

a generosidade

a suavidade.


Faça-se

o mistério

a luz

a esperança.


Faça-se

o amor

a pureza

e o perdão.




E já contente

com a sua criação

chamou-a

Anjo

e veio o homem

chamou-a

Mulher.




Andarilha descalça (Cláudia)
Direitos autorais reservados


Dia Internacional da Mulher



por Andarilha descalça * 10:35 PM

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[Segunda-feira, Março 06, 2006]


"Em cada coração há uma
janela para outros corações.
Eles não estão separados,
como dois corpos.
Mas, assim como duas lâmpadas
que não estão juntas,
Sua luz se une num só feixe."

(Jalaluddin Rumi)




por Andarilha descalça * 10:32 PM

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[Sábado, Março 04, 2006]


M i r o u - s e
Sandra Falcone

no velho espelho
apenas seus
próprios olhos
estavam ali
observando-a
quietos
mirou-se
uma vez mais
deu-se as costas
e chorou
depois
acomodando-se
num canto do sofá
concentrou-se
nos pontos de tricô
como se a cada ponto
pudesse re-inventar-se
ainda que numa
toalha de mesa
inacabada.





por Andarilha descalça * 12:20 AM

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[Sexta-feira, Março 03, 2006]


Penélope
David Mourão-Ferreira


mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.




por Andarilha descalça * 10:33 PM

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