Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006]




Fragmentos de lua
Andarilha descalça(Cláudia)


O meu amor nunca foi fraco
a cada lua nascida renovava-me
e dos meus jardins as tulipas que colhia
iam todas manhãs ao encontro de seus braços.

Éramos par e às vezes ímpar
espalhávamos aromas e alegrias
e nos poemas ¿ todos ¿ que te fiz
espelhei o que na minha alma ia.

Mas o amor de risos só não vive
e nos intervalos entre os lençóis e o vinho
a teia do ciúme foi crescendo
e os passos inseguros perderam-se no caminho.

E a lua rasgada pelas garras da incerteza
bateu em retirada feito pomba ferida.
As tulipas secaram e os poemas
testemunhas do que outrora fora vida
repousam à sombra da saudade.



por Andarilha descalça * 11:15 PM

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[Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006]


Poema - Canto
Humberto Fialho Guedes

Cantarei a forma exata do teu gesto
projetado na memória;
a tua sombra,
na presença de detalhes onde habito.


Cantarei as nuas palmas
(onde moram os ventos)
na certeza dos teus sonhos nos espaços.


Cantarei mares e ilhas
portos
adeuses em gestos e saudades.


O teu silêncio cantarei nos olhos
revendo o pôr do sol num cais de pedra.
E me farei tranqüilo na escuta
dos sons que anunciem teu retorno.


Cantarei, mais do que nunca, a tua imagem
preenchendo auroras e desejos;
as mãos em formas pressentidas,
o rosto esculpido em falas e sorrisos.


Cantarei a forma exata do teu gesto
projetado na memória;
teu corpo branco envolto em brumas
de sonoras lembranças onde eu me recolho.






por Andarilha descalça * 11:11 PM

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[Terça-feira, Fevereiro 21, 2006]


Poema da aceitação
Luiz de Aquino



Eu prefiro ficar de cá, cobrindo co¿as mãos a própria boca

para evitar microfonia.

Um dia, se me deixar levar, posso perder-me

e sofrer, porque nunca perco a noção do tempo.

Esta noite,

sonharei contigo e vou ver-te neste sonho

onde estivemos antes, há poucas horas,

porque o tempo te parece enorme num instante

e posso saber-te distante

uma eternidade entre duas doses.



A angústia, eu sei,

eu a criei

e me apego a ela.

A mágoa existe,

cresceu em meu peito

e não sou josés

porque não fui o primeiro nem serei último.

A dor, por mais profunda,

não te interessa: houve dores maiores

e não as senti em mim.





por Andarilha descalça * 10:41 PM

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[Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006]


Mundo Grande
Carlos Drummond de Andrade


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos ¿ voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
¿ Ó vida futura! Nós te criaremos.




por Andarilha descalça * 11:18 PM

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[Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006]


Asas do Desejo
Astier Basílio


A própria queda
me ampara.


Do amor,

antes carrara,

somente seu risco e cerco:



a flauta de suas garras.



Voar com a falta,

sonhar a avara

e mais que parca

das fábulas.



Amor,

efeito colateral

de não ter asas.




por Andarilha descalça * 12:10 AM

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[Domingo, Fevereiro 12, 2006]


O poema que você não leu
Andarilha descalça (Cláudia)


Aquele poema
que você não leu
escorreu morro abaixo
feito flecha (des)ferida
e os versos quebrados
não conseguiram
atingir a retina
da alma.

Aquele poema
que você não leu
terminou ali
nem guardado nem rasgado
silencioso e úmido
aquietou-se em sua
mágica calma.





por Andarilha descalça * 2:25 AM

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[Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006]


"Temos a arte para que a verdade
não nos destrua..." (Nietzsche)

A arte de poder chorar
a arte de poder sorrir
acho que as perdi

Mas ainda me resta
a arte de
poder dormir...

Eliane Stoducto




por Andarilha descalça * 12:19 AM

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[Terça-feira, Fevereiro 07, 2006]




por Andarilha descalça * 12:29 AM

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[Domingo, Fevereiro 05, 2006]


A palavra mágica
Carlos Drummond de Andrade

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.




por Andarilha descalça * 2:14 AM

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[Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006]


TE QUERO BEM
Isaac Schneider

Se algum dia eu te faltar,
Não te esqueças das ofensas
Nem do braço amigo negado,
Ou do sorriso guardado entre dentes.
Lembra-te dos dias de chuva,
E da previsível imagem do teu rosto
Colado à janela.
Lembra-te da longa espera
Mas, sobretudo, não te esqueças
Das mágoas e a dor da solidão
Que te infligi, mesmo ao teu lado.
Quero que lembres que te fazia menor
Usando como lança o sorriso agudo.
Se um dia eu te faltar,
Esqueça do sólido banco da praça
Testemunhando o mudo diálogo
Travado ao compasso dos verdes corações.
Quero que esqueças das vitórias
Que te incentivei a obter
Com tua força e a minha estima.
Quero que esqueças nossa falta de nexo,
No sexo,
E que esqueças a cor do meu olhar.
Quero, enfim, por tanto te querer,
Que, por mim, esqueças de sofrer.

Do Livro: Poesia Carioca Hoje - Editora Logus.




por Andarilha descalça * 12:29 AM

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[Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006]


Ploft

escrever poesia
algumas vezes
é como jogar pedra
em açude

as ondas se formam
e a gente descobre
que aquilo não é
poesia

é física.

Lau Siqueira




por Andarilha descalça * 1:53 AM

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