Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Segunda-feira, Janeiro 30, 2006]
Fluir
há o tempo gravado nas portas atrás das portas
no umbral da memória há o tempo
indecifrável há o tempo e há os homens
as pedras
e o que nelas se busca ler
há trovões sobre a noite há relâmpagos alguns sonhos
sobre o passado o futuro
o presente e o tempo um só
no limiar jamais atravessado
sinais em cinzas
dores ilegíveis
há pátrias e não se leva a pátria embaixo dos sapatos
nem pudeste em algumas palavras alguma vez
chamar companheiros agora impossíveis de chamado
outra vez há a lua metálica na vidraça
e a janela
inundada
amanhece outra vez
Aricy Curvello
por Andarilha descalça * 11:57 PM
[Domingo, Janeiro 29, 2006]
A flauta vértebra
" verte o riso de pupila em pupila"
A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.
Vladimir Maiakóvski
(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)
por Andarilha descalça * 11:28 PM
[Quarta-feira, Janeiro 25, 2006]
Meu verso, meu amor, meu infinito
Antoniel Campos
Pra cada verso meu serás destino,
pra cada pensamento, o pensamento...
Pra cada banho meu, a gota d'água,
pra onde eu caminhar serás meus passos...
Na lágrima a cair terás meu beijo,
e quando eu chorar terei os teus...
Na noite que doer serei presença,
e em cada amanhecer eu estarei...
Serás pra sempre no meu coração,
e no teu coração sempre serei.
Tu és o meu sorriso sem motivo,
e o motivo de cada riso meu...!
Tu és mais do que o ar que eu respiro,
és maior que o mundo, és meu mundo...
E vivendo em ti, todo e profundo,
tu dirás até quando viverei...
Que ceguem os meus olhos, por ventura,
eu mirar outro olhar senão o teu...
Que minha boca só fale o adjetivo
depois que eu te chamar de "amor (meu)"!
Que eu não saiba escrever palavra alguma,
que as letras me fujam da memória,
que a rima e o ritmo me abandonem,
se não for pra contar a nossa história...
Que o papel se amasse e a pena falhe,
que se esvaia de mim a inspiração,
se no primeiro verso do poema,
não sentir tua mão na minha mão...
Mas meu interior me diz baixinho,
que meus versos jamais vão perecer...
E é ele quem escreve este carinho,
dizendo o quanto eu amo você...
Meus olhos, por não verem além de ti,
revela que, por certo, cegarão...
E muda ficará a minha boca,
pois quem diz "eu te amo" é o coração...
Me diz que a palavra, a letra e a rima
não sairão no papel por minha mão...
Surgirão do meu ser, não da memória,
:a memória é volátil, o amor não...
Ele fala baixinho, mas eu grito:
MEU AMOR POR TI NÃO CABE NO INFINITO!
por Andarilha descalça * 1:53 AM
[Terça-feira, Janeiro 17, 2006]

por Andarilha descalça * 12:22 AM
É poesia
Andarilha descalça (Cláudia)
O vôo do pássaro
é poesia
a flor se abrindo
é poesia
o desencontro
é poesia
a longa espera
é poesia.
É poesia
a lágrima clara
os pés calejados
a água e a angústia
o grito sem eco
o fogo sagrado.
O som de um rio
é poesia
o rastro do raio
é poesia
a solidão
é poesia
a fome de amor
é poesia.
É poesia
o mistério que anuncia
a claridade da manhã
o silêncio que fala
e o sabor do hortelã.
É poesia
essa pedra enorme
que me assusta e desafia
e que para transpô-la
é necessário sempre
a ajuda da poesia.
* * * * * *
POESIA... ACONTECEU
Joaquim Sustelo
O céu foi pouco a pouco clareando
Depois no horizonte o sol nasceu
Nesse esplendor do astro despontando
E seus raios de luz iluminando
Poesia pela manhã aconteceu
No mar em toda a sua imensidão
Espelhou-se a luz do sol vinda do céu
O mar, o sol, o céu, em união
As ondas em vaivém, numa canção
Poesia novamente aconteceu
Depois veio uma grande nuvem preta
Tapou o sol e tudo escureceu
Toda se empertigou e fez careta
A água derramou, estava repleta
Chovendo, mais poesia aconteceu
A chuva então regou plantas e flores
Foi vida, foi alento, que lhes deu
Das terras emanaram os odores,
E viu-se o arco-íris, multicores¿
Poesia nesse encanto aconteceu
Ouvi dos passarinhos o chilreio
Nesse cantar suave que é o seu
Faziam-no felizes sem receio
Embevecido estive ali no meio
Poesia, no seu canto, aconteceu
Assim nesses momentos tão sentidos
Chegou o pôr do sol¿que se escondeu
Os amantes com beijos repetidos
Selaram seus amores enternecidos
Poesia da mais bela aconteceu.
Direitos autorais reservados
por Andarilha descalça * 12:12 AM
[Domingo, Janeiro 15, 2006]
Momento
Pedro Abrunhosa
Composição: Pedro Abrunhosa
Uma espécie de céu
Um pedaço de mar
Uma mão que doeu
Um dia devagar
Um Domingo perfeito
Uma toalha no chão
Um caminho cansado
Um traço de avião
Uma sombra sozinha
Uma luz inquieta
Um desvio na rua
Uma voz de poeta
Uma garrafa vazia
Um cinzeiro apagado
Um hotel na esquina
Um sono acordado
Um secreto adeus
Um café a fechar
Um aviso na porta
Um bilhete no ar
Uma praça aberta
Uma rua perdida
Uma noite encantada
Para o resto da vida
Pedes-me um momento
Agarras as palavras
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas
Levas a cidade
Solta no cabelo
Perdes-te comigo
Porque o mundo é o momento
Uma estrada infinita
Um anuncio discreto
Uma curva fechada
Um poema deserto
Uma cidade distante
Um vestido molhado
Uma chuva divina
Um desejo apertado
Uma noite esquecida
Uma praia qualquer
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher
Um encontro em segredo
Uma duna ancorada
Dois corpos despidos
Abraçados no nada
Uma estrela cadente
Um olhar que se afasta
Um choro escondido
Quando um beijo não basta
Um semáforo aberto
Um adeus para sempre
Uma ferida que dói
Não por fora, por dentro.
por Andarilha descalça * 12:15 AM
[Sábado, Janeiro 14, 2006]
MEDO DE AMAR
Vinícius de Morais
Vire essa folha do livro
E se esqueça de mim
Finja que o amor acabou
E se esqueça de mim
Você não compreendeu
Que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar
Não faz ninguém feliz
Agora vá sua vida
Como você quer
Porém não se surpreenda
Se uma outra mulher
Nascer de mim
Como no deserto uma flor
E compreender que o ciúme
É o perfume do amor .
por Andarilha descalça * 1:31 AM
[Quinta-feira, Janeiro 12, 2006]
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender
Pablo Neruda (Últimos Sonetos)
por Andarilha descalça * 1:26 AM
[Sábado, Janeiro 07, 2006]
XXV
David Mourão Ferreira
Quantos em ti lagos e rios
Quantos em ti os oceanos
Água vermelha que aos ouvidos
traz o aviso
de nenhuns campos
É bom sondarmos os abismos
que nunca vão cicatrizando
E ao som da água pressentirmos
de onde provimos
aonde vamos.
por Andarilha descalça * 10:47 PM