Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Sexta-feira, Dezembro 30, 2005]


Rosas
Machado de Assis

"Para as rosas, escreveu alguém,
o jardineiro é eterno.'
E que melhor maneira de ferir o eterno
que mofar das suas iras?

Eu passo, tu ficas;
mas eu não fiz mais que florir e aromar,
servi a donas e a donzelas, fui letra de amor,
ornei a botoeira dos homens, ou expiro no próprio
arbusto, e todas as mãos, e todos os olhos me trataram
e me viram com admiração e afeto.

Tu não, ó eterno;
tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu afliges-te!
A tua eternidade não vale um só dos meus minutos."





por Andarilha descalça * 6:53 PM

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[Quarta-feira, Dezembro 28, 2005]




por Andarilha descalça * 12:36 AM

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[Terça-feira, Dezembro 27, 2005]

Carne
Vinicius de Moraes

Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas
Que importa se existe entre nós muitas montanhas ?


O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando.

Na carícia violenta do teu beijo.


Que importa a distância e que importa a montanha
Se tu és a extensão da carne
Sempre presente.





por Andarilha descalça * 11:25 PM

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[Segunda-feira, Dezembro 26, 2005]


Certas coisas
Affonso Romano de Sant'Anna


Certas coisas
não se podem deixar para depois.
Muitos poemas perdi
pensando: "depois escrevo",
"agora estou almoçando"
ou "consertando a porta".
Assim, adiei - perdi
o melhor de mim.

Certas coisas
não podem deixar para depois,
e nisto incluo; frutos no galho,
mudanças sociais,
certas coxas e bocas
e esta manhã que se esvai.

Certas coisas
não podem deixar para depois
o amor não se adia
como se adiam o imposto, a viagem, a utopia.
o desejo sabe o que quer,
detesta burocracia

Feito depois, o amor
é murcha lembrança
do que, não - sendo, seria

Certas coisas
não podem deixar para depois,
Como o amor e as pessoas,
não se pode recuperar
a poesia.




por Andarilha descalça * 1:33 AM

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[Sábado, Dezembro 24, 2005]


Flor rara
Mirtes Sfredo Wicteky

E como por encanto,
no obscuro recanto
do botão inerte ,
brotou rara flor:
Da cor branca mais alva,
de exótico olor.

Pequena semente,
no bojo do vento,
de longes terras,
de cansadas guerras,
só Sentimento.

Andou tão só
em longas luas
- desolação.

Encontrou um solo
suave e bom
longe do lar.

Aí ela é ela,
flor-estrela,
com pétalas próprias
de dor e amor.

Rara flor inteira,
assumindo o destino
de flor passageira.





por Andarilha descalça * 1:18 AM

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Canção para um desencontro
Lya Luft


Deixa-me errar uma vez,

porque também sou isso: incerta e dura,

e ansiosa de não te perder agora que entrevejo

um horizonte.



Deixa-me errar e me compreende,

porque se faço mal é por querer-te

desta maneira tola, e tonta, eternamente

recomeçando a cada dia como num descobrimento

dos teus teritórios de carne e sonho, dos teus

desvãos de música ou vôo, teus sótãos e porões,

e dessa escadaria de tua alma.



Deixa-me errar mas não me soltes

para que eu não me perca

deste tênue fio de alegria

dos sustos do amor que se repetem

enquanto houver entre nós essa magia.





por Andarilha descalça * 12:51 AM

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[Quinta-feira, Dezembro 22, 2005]




por Andarilha descalça * 12:53 AM

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[Terça-feira, Dezembro 20, 2005]


QUANDO CHEGUEI À VIDA

Vela sobre minha vida, meu grande amor imenso.
Quando cheguei à vida trazia em suspense,
na alma e na carne, a loucura inimiga,
o capricho elegante e o desejo que açoita.

Encantavam-me as viagens pelas almas humanas,
a luz, os estrangeiros, as abelhas leves,
o ócio, as palavras que iniciam o idílio,
os corpos harmoniosos, os versos de Virgílio.

Quando sobre teu peito minha alma foi tranqüilizada,
e a doce criatura, tua e minha, desejada,
eu pus entre tuas mãos toda minha fantasia

e te disse humilhada por estes pensamentos:
Vigiai-me os olhos! Quando mudam os ventos
a alma feminina se transtorna e varia...

ALFONSINA STORNI

Tradução Héctor Zanetti

por Andarilha descalça * 12:25 AM

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[Domingo, Dezembro 18, 2005]


de pássaros e de homens

o homem morre, o pássaro migra
João de Abreu Borges


singrando o céu, cavando a terra
o homem e o pássaro se dissecam

o grito é solto a asa é plena
manhãs e auroras completam a voz

o pássaro canta o homem briga
alado em seu medo de poeta

o homem traveste sua destreza
o pássaro fecha o bico em seta

o pássaro plumagem abre o olhar
seu vôo rasante afaga nuvens

o homem inventa vôo de ave
dançando na mata doce luar

vazio e incerto caminha descalço
buscando sentido no pleno sonhar

as coisas do pássaro se fazem sozinhas
as coisas do homem se erguem do chão

o homem poeta traz vôo na alma
o pássaro, atleta, faz trama no ar

Jiddu Saldanha





por Andarilha descalça * 10:39 PM

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[Sexta-feira, Dezembro 16, 2005]


Meu poema de chuva
Ildásio Tavares

Meu poema não visita a antologia
Dos momentos que a chuva salpicou
Nem se curva ao tip-top na janela
Onde sem mais querer
A chuva semissente se instalou, ¿
Ele se esgueira, calmo e contemplado,
Até a intimidade sem recursos da gota mais minúscula,
E em uniliquescência permanece;
E assim, as palavras feitas chuva
Se escorrem lá pra baixo da ladeira e
São sorvidas sem serem pressentidas
Pela terra,
Pelo lago,
Ou pelas tradicionais bocas de lobo.



por Andarilha descalça * 12:47 AM

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[Quinta-feira, Dezembro 15, 2005]


NATAL DOS CAMALEÕES

Com certeza sabes
que as borboletas amam a luz,
com certeza sabes
que os morcegos amam a noite.

Mas os homens no seu caminhar
não entendem o verbo amar !

Com certeza sabes
que as abelhas amam a flor,
com certeza sabes
que os leões amam a força.

Mas os homens no seu caminhar
não entendem o verbo amar !

Eles são camaleões,
oh, sim, camaleões,
mudam sempre de pensar
como estes a sua cor.

Mas os homens no seu caminhar
não entendem o verbo amar !

Com certeza sabes
que em Belém nasceu o amor,
com certeza sabes
que os homens o olvidaram.

É qu¿ os homens no seu despertar
já entendem o verbo amar !


Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA



por Andarilha descalça * 12:10 AM

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[Domingo, Dezembro 11, 2005]


Argila
Núbia N. Marques


Bati meu peito nos muros da vida
na inquieta jornada
fiz piruetas no ar
dei tratos à bola
embolei no asfalto
saracoteei na corda bamba

De punhos cerrados
Esmurrei a injúria
a soberba a invalidez

Da minha mão guerreira
brota ramalhete de lágrimas e estrelas
Submissa aconchego-me ao afeto
e no meu ombro-âncora do tempo
cunho minha face enigmática
Fui eu que fiz tudo
com a graça de Deus, é claro!





por Andarilha descalça * 8:13 PM

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[Sábado, Dezembro 10, 2005]


Revoada
Salgado Maranhão


Os pássaros quando voam
Não deixam sequer rastro ao vento
Porque não voam com as asas
Apenas como o sentimento.


Os pássaros em revoada
Não buscam tão simplesmente
O ninho de algum lugar
Porque já estão pousados
No próprio ninho do ar.


Quando pássaros em pleno vôo
Não há nem asas nem vento
Tudo fica como o tempo
Apenas paz e firmamento.




por Andarilha descalça * 12:09 AM

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[Quarta-feira, Dezembro 07, 2005]

Não Escute
Elizabeth Hazin


Não escute meu choro
quieto:
eu sou um deserto
e preciso chorar


Não escute meu amor
fugidio:
eu sou um rio
e preciso passar


Não escute meu sorriso
constante:
eu sou um instante
e preciso durar.





por Andarilha descalça * 11:53 PM

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[Terça-feira, Dezembro 06, 2005]



Anjo de outrora
Ribeiro Couto

O anjo de outrora, adormecido na minha alma,
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.


Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.




por Andarilha descalça * 1:02 AM

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[Domingo, Dezembro 04, 2005]


Cântico I

(Cecília Meireles)



Não queiras ter Pátria .

Não dividas a Terra.

Não dividas o Céu.

Não arranques pedaços ao mar.

Não queiras ter.

Nasce bem alto.,

que as coisas todas serão tuas.

Que alcançarás todos os horizontes.

Que o teu olhar, estando em toda parte

te ponha em tudo,

como Deus.




por Andarilha descalça * 1:17 AM

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[Sábado, Dezembro 03, 2005]


Embalada...


Deixo-me ir , entre guitarras e violinos
abraçada por poetas e brisas várias
nas notas musicais de cada acorde
e sou harpa e piano, instrumento de cada som
neste respirar dançante e melodioso
nem de amor preciso falar
porque em Amor danço e canto...


Estou, em delícia e Sou...
Grutas, fadas, flautas, fontes e rios
numa ciranda grávida de tudo
danço com os fetos que em mim crescem
Abro os braços, deixo cair as minhas mãos
são tantas as ondas que me cercam
rodopio nelas, faço parte delas, SOU
fusiono-me , sinto-me água, ar, fogo, terra, éter
e ainda mais elementos, são mais que cinco
não os sei contar apenas sentir
porque vivo no seu interior
e não no exterior para poder contar
Sinto-me balançar, como que escorregar
não sei descrever, só sei que Sei o que não sei...
só Sei que Sou, e em Sou medito
Em desfile...
Em parada
marco com todos os elementos o compasso
É VITORIA, É VITÓRIA, É VITÓRIA
AMOR BANDEIRA
NO INTERIOR DE CADA UM
NESTA FUSÃO DE MIM!!!


Manuela Pittet




por Andarilha descalça * 1:09 AM

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[Sexta-feira, Dezembro 02, 2005]


POR AMOR...
RUBENIO MARCELO

Por amor, faria os doze trabalhos de Hércules:
Escalpelaria o leão do vale de Neméia,
Traria viva a alígera corça da Cerinéia
E colheria as maçãs de ouro das hespérides.

Por amor, domaria os potros de Diomedes,
O touro de Creta e os bois de Gerião;
Enfrentaria Cérbero, o horripilante cão,
E o erimantino javali das céspedes.

Resgataria o cinturão da bela Hipólita;
Abateria a hidra de Lerna e as estinfálidas;
E limparia os estábulos de Augias, o algoz.

Por amor, eu faria tudo isso e ainda mais...
Seria, com ela, o mais completo dos mortais
E construiria um Monte Olimpo só pra nós!





por Andarilha descalça * 12:25 AM

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