Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Segunda-feira, Outubro 31, 2005]
" MILÁGRIMAS "
Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude o modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso de tristeza, vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas,
SINTA O MILAGRE
A CADA MILÁGRIMAS SAI UM MILAGRE
(Itamar Assumpção/Alice Ruiz )
por Andarilha descalça * 1:23 AM
O PRAZER DO DIFÍCIL
Tradução: Augusto de Campos
O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de teatro que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente,
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.
THE FASCINATION OF WHAT'S DIFFICULT
Yeats
The fascination of what's difficult
Has dried the sap out of my veins, and rent
Spontaneous joy and natural content
Out of my heart. There's something ails our colt
That must, as if it had not holy blood
Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
As though it dragged road-metal. My curse on plays
That have to be set up in fifty ways,
On the day's war with every knave and dolt,
Theatre business, management of men.
I swear before the dawn comes round again
I'll find the stable and pull out the bolt.
por Andarilha descalça * 12:16 AM
[Sábado, Outubro 29, 2005]
O Silêncio
(Eugénio de Andrade )
Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.
por Andarilha descalça * 12:28 AM
[Quinta-feira, Outubro 27, 2005]
LIBERDADE
Mano Melo
Foi uma menina que viajou de cidade em cidade
Procurando saber onde morava a Liberdade
Procurou do Oiapoque ao Chuí
Em Mossoró no Pinhém no Piauí
Perguntou ao Sací ao Sagüi
Ao Pereirinha ao Pererê
Ao Guará e à Marli
Na estrada que descia pra baixo
Na estrada que subia pra cima
Esta menina procurou a Liberdade a cada esquina
De Petrolina
A João Monlevade
Em Minas
Liberdade é uma lata de óleo de soja
- Falou a dona da loja
Não, é um bife com batatas
- Rebateu uma gata de botas
Já para o português Liberdade parecia mais
Com doces em compotas e sardinhas em lata
Liberdade é ilusão,
Uma bolha de sabão
- Falou o lírico
É liquidação,
Artigos de ocasião
- Piscou o anúncio de acrílico
Liberdade é viver sem inflação
- Discursou o Chefe da nação
Não é não,
- Protestou a oposição
Liberdade é ser poliglota
- Falou o idiota
É morrer pela pátria
- Rebateu o patriota
Não é nada disso,
Liberdade é ser sem compromisso
- Corrigiu o omisso
Para Jesus
Liberdade foi carregar uma cruz
Enquanto para os hindus
É andar com os pés nus
Em busca da luz
Mas um dia a menina encontrou com a Liberdade
Que era uma cigana que vivia encantando
E que fugia do aperto de mão e do abraço
Porém ficava á espreita
Nas brechas da porta
Pronta a pular na pele .
por Andarilha descalça * 11:24 PM
Quero que me devolvas um poema
Quero que me devolvas um poema,
Aquele que ainda não escrevi,
Onde a voz de ninguém,
É um cadafalso do que li.
Ouvi coisas inauditas,
Através de palavras de Inverno,
De amores mornos,
Que navegavam em mares emprestados.
Tempos de pedra,
Que fazem tic tac tic tac.
Mas amor¿
A lua desceu no horizonte antes da noite.
Deixou apenas o ruído dos cães a ladrar ao longe,
Quando o povo dormia¿
Caminho em mim,
Noite sem fim...
Mas quis a luz dos meus olhos,
Ouvir-te dormir,
Sentir o teu coração palpitar,
Ver no teu rosto de anjo,
A tua alma a sorrir.
É o que sinto na orla da tua brancura,
No teu amor visível,
Quando sorris mesmo a dormitar.
Ou de uma palavra que soltas no teu sonho
Riscada nas paredes da minha alma.
Devolve-me um poema quando Morpheu te largar
e o sonho te devolva o acordar!
Fernando Pascoa
por Andarilha descalça * 12:11 AM
[Sábado, Outubro 22, 2005]

por Andarilha descalça * 1:38 AM
[Segunda-feira, Outubro 17, 2005]
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo,
não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
(Alberto Caeiro - O pastor amoroso)
por Andarilha descalça * 1:12 AM

por Andarilha descalça * 12:52 AM
desejo
o vento queima
o fogo varre
o sangue jorra
daquele
momento
sem norte
e o fogo
escreve
o desejo
sobre
o corpo
rendido
belo
imóvel
possuído
que é teu
e só teu
adriano pinho
por Andarilha descalça * 12:36 AM
[Segunda-feira, Outubro 10, 2005]
Espelho das águas
Assusto-me
com os tantos caminhos
que a vida delineou em minha boca,
em meus olhos,
em meus dias.
Não me dei conta dos traçados
inúteis
que deixei vingar.
Nem me preocupei
em construir pontes,
demarcar fontes
onde, mais tarde,
eu pudesse me refrescar
e conseguisse reerguer minhas fantasias.
Agora,
miro este corpo marcado,
este chão quebrado e
corro feito louca
contra o tempo.
Mas ficou tarde
para
retomar verdades.
Inútil querer voltar ao passado.
odeteronchibaltazar
por Andarilha descalça * 11:26 PM
[Domingo, Outubro 09, 2005]

por Andarilha descalça * 10:29 PM
[Sábado, Outubro 08, 2005]
Sem Título
Eu não estou aqui e você também
Me permita ser o seu espelho esta noite
E canta em mim o teu encanto
Tua estranheza e teu espanto.
Como quem sabe no fundo
Que não há distância neste mundo
Pois somos uma só alma.
Me permita ser esta noite
A voz que te canta e te encanta de si
Que te faz sentir-se e parar
Como quem volta pra casa e resolve se amar
Somos livres e não possuímos as pessoas
Temos apenas o amor por elas e nada mais
E é preciso ter coragem para ser o que somos
Sustentar uma chama no corpo
Sem deixar a luz se apagar
É preciso recomeçar no caminho que vai para dentro
Vencendo o medo imaginado
Assegurar-se no inesperado
Confiando no invisível
Desprezando o imperecível
Na busca de si mesmo
Ser o capitào de nau
No mais terrível vendaval
Na conquista de um novo mundo
Mergulhar bem fundo
Para encontrar nosso real
E rir pois tudo é brincadeira
Que cada drama é só nosso modo de ver
A vida só está nos mostrando
Aquilo que estamos criando
Com nosso poder de crêr.
(Luis Antônio A. Gasparetto)
por Andarilha descalça * 11:21 PM
[Sábado, Outubro 01, 2005]
O HAVER
(Vinícius de Moraes)
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.
Resta esse antigo respeito pela noite
esse falar baixo
essa mão que tateia antes de ter
esse medo de ferir tocando
essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade
essa economia de gestos
essa inércia cada vez maior ante diante do infinito
essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons
esse sentimento da matéria em repouso
essa angústia da simultaneidade do tempo
essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida
de uma só morte
um só Vinícius.
Resta esse coração queimando
como um círio numa catedral em ruínas
essa tristeza diante do cotidiano
ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo
essa imensa piedade de sua inútil poesia
de sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
de pequenos absurdos
essa tola capacidade de rir à toa
esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade,
essa vagueza de quem sabe que tudo já foi,
como será e virá a ser.
E ao mesmo tempo esse desejo de servir
essa contemporaneidade com o amanhã
dos que não têm ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar,
de transfigurar a realidade,
dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
e essa visão ampla dos acontecimentos
e essa impressionando e desnecessária presciência
e essa memória anterior de mundos inexistentes
e esse heroísmo estático
e essa pequenina luz indecifrável
a que as vezes os poetas tomam por esperança.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta
quem sabe inexistente
e essa coragem indizível diante do grande medo
e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer
dentro da treva.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade, sem história.
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão de seu reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.
por Andarilha descalça * 11:52 PM