Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Sexta-feira, Setembro 30, 2005]


Rastro
Igor T. Bandeira

Virou-se de costas e saiu, sem nem ao menos olhar pra trás.
Não queria carregar consigo uma última lembrança.
Aliás, não queria lembrança nenhuma.
Enxugou o rosto, deu alguns passos e virou a esquina.
Sua cabeça estava confusa, sua vista, turva.
Seu coração, aliviado. Rasgara muitas páginas de uma só vez.
Agora, teria que escrever coisas novas e ainda não sabia bem como.
Não se importava.
Bastava-lhe a página em branco.




por Andarilha descalça * 11:25 PM

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[Sábado, Setembro 24, 2005]


Entardecer
(Mensageira dos Deuses)

Amanhecem em mim
todos os dias quentes
de um tempo, que já vivi.

Em que virgem me fiz mulher,
mãe-menina de mil solidões,
embalada no sonho
que é a vida, aos turbilhões.

Amanhecem em ti
gaivotas no olhar,
plenas de liberdade
voando em dias serenos,
de marés azuis e corais floridos
de águas profundas,
longe das multidões¿

Entardecem em nós,
momentos fulgurantes
em esvoaçares constantes,
de ave roçando o azul
do imenso infinito,
onde a eterna melodia
tocará, até ao nascer do dia.

E, da janela da vida
o sol quente, suavemente...
num mar calmo de ilusões
Entardeceu¿


por Andarilha descalça * 12:17 AM

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[Quinta-feira, Setembro 22, 2005]


POR VEZES

por vezes transformas-te
na árvore da vida
e cresces, cresces

por vezes os teus ramos
baloiçam ao vento
que tu mesma não sopras

uma vez vestiste-te de poema
e vê lá, quase choraste!

todos os dias me visto de poeta
e, vê lá, choro a palavra em fuga
que corre numa rua sem fim!

hoje mesmo vesti-me de autocarro
e levei-te sentada no colo cansado

amanhã serei roda corrida
perseguindo-te na vida

quinta feira serei homem-feira
e espero-te no passeio sem tenda

vai alta outra noite de desengano
a alavra vai morrer
a tua imagem vai ficar


adriano pinho

por Andarilha descalça * 11:55 PM

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[Terça-feira, Setembro 20, 2005]


As Mãos
(Manuel Alegre)


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.




por Andarilha descalça * 12:22 AM

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[Quarta-feira, Setembro 14, 2005]


Reflexão
Gilka Machado

Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.
Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detêm-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.
Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...
Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...

(in Sublimação, 1928)




por Andarilha descalça * 10:20 PM

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[Domingo, Setembro 11, 2005]


Não sei como dizer-te...

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
¿ eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
¿ E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
¿ não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço ¿
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave ¿ qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

(excerto do poema ¿Tríptico¿ de Herberto Hélder)




por Andarilha descalça * 11:14 PM

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[Segunda-feira, Setembro 05, 2005]


O que há em mim é sobretudo cansaço....

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente.
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

(Álvaro de Campos)


por Andarilha descalça * 11:37 PM

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[Sábado, Setembro 03, 2005]


Sublimação
Andréa Motta

Sem medos
abraça-me a alma arrepiada
solta os meus cabelos e toca-me
intensamente
intimamente

Deixa esta onda de calor percorrer-te a pele
não permitas que este momento de sublimação
se perca no tempo

Olha-me a alma por dentro das minhas entranhas
enxerga o invisível dos meus olhos
sente o meu corpo e ouve esta música

Deixa-te desvendar a cada toque sentido
deságua no meu prazer
Faze-me acreditar que o céu me sorri

Deita-te em chamas entre as minhas mãos
deixa-me explodir num orgasmo sagrado
de onde brotem lágrimas de felicidade.


(Poesia premiada com o 1º Lugar
no 3º Concurso de Poesia livre
do Site Os Novos Autores em 2004)


por Andarilha descalça * 8:20 PM

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[Quinta-feira, Setembro 01, 2005]




por Andarilha descalça * 9:58 PM

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