Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Quarta-feira, Agosto 31, 2005]


O HAVER

(Vinícius de Moraes)

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.

Resta esse antigo respeito pela noite
esse falar baixo
essa mão que tateia antes de ter
esse medo de ferir tocando
essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade
essa economia de gestos
essa inércia cada vez maior ante diante do infinito
essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons
esse sentimento da matéria em repouso
essa angústia da simultaneidade do tempo
essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida
de uma só morte
um só Vinícius.

Resta esse coração queimando
como um círio numa catedral em ruínas
essa tristeza diante do cotidiano
ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo
essa imensa piedade de sua inútil poesia
de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
de pequenos absurdos
essa tola capacidade de rir à toa
esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade,
essa vagueza de quem sabe que tudo já foi,
como será e virá a ser.
E ao mesmo tempo esse desejo de servir
essa contemporaneidade com o amanhã
dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar,
de transfigurar a realidade,
dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
e essa visão ampla dos acontecimentos
e essa impressionando e desnecessária presciência
e essa memória anterior de mundos inexistentes
e esse heroísmo estático
e essa pequenina luz indecifrável
a que as vezes os poetas tomam por esperança.


Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta
quem sabe inexistente
e essa coragem indizível diante do grande medo
e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer
dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade, sem história.
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão de seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.




por Andarilha descalça * 12:15 AM

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[Domingo, Agosto 28, 2005]




por Andarilha descalça * 12:25 AM

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[Quarta-feira, Agosto 24, 2005]


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21-10-1935




por Andarilha descalça * 11:10 PM

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[Domingo, Agosto 21, 2005]



SILÊNCIO

Quantas cidades viram?
As lágrimas derramadas no silêncio de ti¿
Pensava-te¿ desejava-te¿
Oh¿Deus, como te espero minha amada!

De caminho a caminho!...
Ansiava chegar ao ninho,
Para beijar-te meu Deus,
Enfim¿ as tas mãos cansadas...

Voltava ao nosso sítio da alma e sem limite,
Onde fazia a minhas traquinice
Sem esquecer-te as preces de carinho,
Que tenho na memória, resguardadas.

No tempo tudo permanece...
corre e avança,
A saudade está onde eu estou.
No silêncio eu sou.

Apenas o amor me domina a lembrança...
Os teus canteiros de flores aqui estão,
Aqui¿ junto a mim.

Quero rever-te a toda a hora no nosso abrigo,
Na saudade,
No silêncio,
No amor do coração!...

Fernando Pascoa




por Andarilha descalça * 10:09 PM

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[Quinta-feira, Agosto 18, 2005]


Quando eu lhe esquecer
Mellíss

Quando eu lhe esquecer
sei que a lua há de despir seu véu de nuvens,
nessas noites mal vestidas e tão frias,
quando essas horas vazias
ainda lembram você ...
Quando eu lhe esquecer
sei que a madrugada encontrará outros sorrisos
nessa face do meu sonho entristecido
quando nada faz sentido
sem você ...
Quando eu lhe esquecer
sei que as horas, nos ponteiros dos relógios,
marcarão outras ternuras e esperança,
quando a solidão não for lembrança
revivendo você ...
Quando eu lhe esquecer
sei que o tempo há de trazer novos amores,
sei que vou vestir de novo a fantasia,
quando enfim adormecer essa magia
que hoje ainda é Você.




por Andarilha descalça * 12:13 AM

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[Terça-feira, Agosto 16, 2005]



Liberdade

voei
conheci o céu
mergulhei no precipício
fui residente em hospício
das colméias tive o mel...

fui pra guerra
viajei
noutras terras eu morri
quebrei pedras
pilotei
singrei mares
vi delfins...

liberdade
liberdade
é dormir entre os teus braços
enroscar-me em teus abraços
e morrer assim...

líria porto




por Andarilha descalça * 11:14 PM

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[Segunda-feira, Agosto 15, 2005]



NO CORPO

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

Ferreira Gullar





por Andarilha descalça * 10:41 PM

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[Sábado, Agosto 13, 2005]


Deixa que eu te ame em silêncio
Não pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toquem, e as bocas
e a pele falem seus líquidos desejos.
Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se o amor e a vida
fosse um discurso
de impronunciáveis emoções.

Affonso Romano de Sant´Anna





por Andarilha descalça * 11:22 PM

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Do Desejo
Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
(Do Desejo - 1992)

* * *

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
( Do Desejo - 1992)



por Andarilha descalça * 12:11 AM

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[Quinta-feira, Agosto 11, 2005]


SILÊNCIO APENAS


Quantas cidades viram?
As lágrimas derramadas no silêncio de ti¿
Pensava-te¿ desejava-te¿ repudiava-te também!
Oh¿Deus, como esperei sem pertencer a nenhuma
amada!

Neste meu caminho...
Apenas te quero aqui neste ninho,
Para beijar-te devagarinho.
Por fim... Quando de mãos cansadas...

Volto ao meu lugar sereno e sem limite,
Onde faço as minhas traquinices,
Sem esquecer a prece de carinho.

E em mim, olha!....tudo permanece...
Até eu...
Onde o mundo pula e avança,
A saudade está onde eu não estou.
Sempre No silêncio que sou.

O amor. Esse domina-me e faz de mim o que sou.
Ah.... como estão lindos os canteiros de
flores.
Mesmo Aqui¿ junto a mim.
Junto a nós!

Quero rever-te na verdura e na candura deste
espaço,
Quero esta nossa verdade. Quero esta saudade
quando não está aqui.
ontem....hoje e amanhã.

Neste silencio de ti e de estrelas,
É aí que quero amar,
Quero-te no coração!...


Fernando Pascoa




por Andarilha descalça * 10:38 PM

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Soneto

Ausente andei de ti na primavera,
Quando o festivo Abril mais se atavia,
E em tudo um'alma juvenil pusera
Que até Saturno saltitava e ria.

Mas nem gorjeios d'aves, nem fragrância
De flores várias em matiz e odores,
Moveram-me a compor alegre estância
ou a colher, do seio altivo, as flores.

Nem me tocou a palidez do lírio,
Nem celebrei o vermelhão da rosa;
Eram não mais que imagens de um emíreo
Calcado em ti, padrão de toda cousa.

Inverno pareceu-me aquela alfombra,
E me pus a brincar com tua sombra.


William Shakespeare
(Tradução: Ivo Barroso)


por Andarilha descalça * 12:10 AM

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[Terça-feira, Agosto 09, 2005]


o meu caminho

é um caminho de palavras
pequenas e ansiadas
palavras de silêncio
que vivem em mim
e devoram o meu ser
sem parecer na minha alma
ao amanhecer
no entardecer
do anoitecer na minha vida
escorreita e insensata
como se a minha vida fosse um rio
uma cascata de desejos infindos
o voo de um pássaro
de um condor
de uma inca que mora em mim
no mais fundo dos meus desejos
nos solfejos
que habitam Choupin, Brahms Beethoven louco
como as cordas que o pôs mouco
em ti, torrente de sol
dos montes erguidos das civilizações perdidas
em ti mulher ardente e cadente
prostituta do amanhã
desejada ontem e hoje
corpo volúvel
com ouvidos de poeta sem letra
outras vezes obstreta das filhas que tens e dos amores fúteis que voarão sobre o teu corpo
umas vezes vivo, outras morto.

afinal voarás como o condor dos Andes
que mora em ti
INCA

adriano pinho




por Andarilha descalça * 10:48 PM

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[Domingo, Agosto 07, 2005]



Gestos, atos e atitudes
na direta dependência
da verdade
implícita na intenção.
O nobre testemunho do amor
se revela no silêncio de um olhar

Plínio Sgarbi





por Andarilha descalça * 9:42 PM

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[Sábado, Agosto 06, 2005]


Qualquer urgência tem

( Artur Lucena)



Qualquer urgência tem

a confidência

das pedras em viagem



Eu - a coisa mais

simples das semanas que me

olham - estou neste percurso

há anos. Diremos: a fotografar

o fabrico de acácias «por

urgência declarada».



Rasgar a página não resulta.

O amor requer um outro

som na nebelina,

um outro

cheiro de maresia.

.../





por Andarilha descalça * 6:59 PM

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[Sexta-feira, Agosto 05, 2005]


O MEU VÍCIO

O meu vicio é estar aí!
O meu vicio é repousar perdidamente
A cabeça no teu peito.


O meu vicio é vaguear por aí loucamente!

O meu vicio é não ser perfeito
De qualquer jeito.

O meu vicio é viajar pelos teus segredos
E neles enlouquecer-me.

O meu vicio é fazer de ti o meu degredo.
O meu vicio é em ti desnudar-me
Desvendar-me
revelar-me.

O meu vicio é procurar em ti onde perder-me.

O meu vicio é criar entre o que sou e o que sinto de Ti

O meu vicio é realizar-te no profundo de mim
e ter-me aí!

O meu vicio é desejar-te sofregamente!
Vaguear por aqui e por aí
Como louco Eternamente!

Fernando Pascoa




por Andarilha descalça * 9:41 PM

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[Quinta-feira, Agosto 04, 2005]


Noite
( Helena Monteiro)

É de noite que as palavras se soltam,

sem destinos nem contornos,

vagueando plurais em seus sentidos,

omitindo-se e revelando-se.



É de noite que me solto no sentir,

quando no adormecido silêncio

as palavras se fantasiam e libertam.



É de noite que acordo o poema

na sonolência do verbo,

na indigência dos significados,

na suavidade dos desvarios

consumados.



É de noite, na noite de mim,

que diariamente me exponho

nos silêncios libertados.




por Andarilha descalça * 10:06 PM

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[Quarta-feira, Agosto 03, 2005]


Quando o Luar Caiu
Conceição Lima

Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.

As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.




por Andarilha descalça * 10:09 PM

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[Segunda-feira, Agosto 01, 2005]


Quero-te para além das coisas justas
(Joaquim Pessoa)


Quero-te para além das coisas justas

e dos dias cheios de grandeza.

A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,

as ágatas, as águas.

O meu sol vem de dentro do teu corpo,

a tua voz respira a minha voz.

De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas

dos beijos? Discuto esta noite

apenas o pudor de preferir-te

entre as coisas vivas.




por Andarilha descalça * 9:28 PM

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