Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Sábado, Junho 25, 2005]
"Acaso"
(Paulo Monte)
Prenúncio de chuva:
As nuvens pesam sobre a cidade - elas ou a outra? -
Um telefone brinda um recém-nascido.
Mas, e do tempo, o que dizer?
Um automóvel lança seu rugido:
Que é feito de nossos rugidos?
Nossos pés buscam raízes
Mas o melhor do tempo está no momento este, o da criação sabadinal:
O sábado com sabor de chuva!
E o resto, só o sonar de neurônio(perdido), refaz
A ânsia de nossos dias.
por Andarilha descalça * 2:48 PM
[Terça-feira, Junho 21, 2005]
Soneto
Ausente andei de ti na primavera,
Quando o festivo Abril mais se atavia,
E em tudo um'alma juvenil pusera
Que até Saturno saltitava e ria.
Mas nem gorjeios d'aves, nem fragrância
De flores várias em matiz e odores,
Moveram-me a compor alegre estância
ou a colher, do seio altivo, as flores.
Nem me tocou a palidez do lírio,
Nem celebrei o vermelhão da rosa;
Eram não mais que imagens de um emíreo
Calcado em ti, padrão de toda cousa.
Inverno pareceu-me aquela alfombra,
E me pus a brincar com tua sombra.
William Shakespeare
(Tradução: Ivo Barroso)
por Andarilha descalça * 11:57 PM
[Sexta-feira, Junho 17, 2005]
Quero saber
Pablo Neruda (Últimos Sonetos)
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender.
por Andarilha descalça * 12:22 AM
[Segunda-feira, Junho 13, 2005]
Minha homenagem ao Grande poeta
que hoje parte em busca de novas inspirações.
Urgentemente
Eugénio de Andrade
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
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Último texto
O sal da língua
(Eugénio de Andrade)
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
por Andarilha descalça * 11:32 PM
[Quinta-feira, Junho 02, 2005]
levantei-me
como se tivesse asas de vento
e o meu pensamento
voou em ti por dentro
de ti
depois não resisti
e o meu corpo sorriu
na tua espera
de olhos fechados
abraçando o universo
que vive na tua ilusão
que desagua nos mares
da nossa ilusão
tinhas flores no corpo
pétalas na boca
espírito de sedução
e balbuciaste
de mansinho
a palavra razão
como se ela existisse
nesta sublime ocasião
onde os corpos esquecem
em perfeita união
tudo o que é perene
em nosso coração
bebi então
as rosas da tua boca
a fonte da água louca
os teus olhos
as lágrimas que desciam
da tua fonte eterna
os seios
os ombros
o ventre e o seu reverso
depois
entrei no éden que tens
escondido no verso
na unidade
no verbo do teu corpo
que me deste a soletrar
de desejo
e que eu choro a cantar
adriano pinho
membro da SPA
por Andarilha descalça * 11:25 PM
[Quarta-feira, Junho 01, 2005]

por Andarilha descalça * 11:15 PM