Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Domingo, Maio 29, 2005]
ambigüidade
Bené Chaves
entre tuas macias coxas
eu afogo minhas lágrimas
afago teu sexo
pensando no amanhã
no anoitecer e amanhecer
de nossas e novas vidas.
por Andarilha descalça * 8:15 PM
[Sábado, Maio 28, 2005]
SOU O ESCRAVO QUE LIBERTOU O AMO
o discípulo que instruiu o mestre.
Sou a alma que ontem nasceu no mundo
e no mesmo instante criou este mundo vetusto.
Sou a cera orgulhosa que fez o ferro virar aço.
Passei ungüento nos olhos dos cegos
e ensinei homens de curto entendimento.
Sou a nuvem negra que trouxe alegria
da noite de dor ao dia de festa.
Sou a terra milagrosa
que pelo fogo do amo se elevou
e tocou a mente do céu.
Noite passada, o rei não dormiu,
contente de saber que eu, o escravo, dele me lembrei.
Não me culpes se sou escandaloso e lavrei justiça,
foste tu que me embriagaste.
Silêncio, que o espelho se desgasta;
quando soprei sobre ele,
protestou contra mim."
(Rumi)
por Andarilha descalça * 10:01 PM
[Sexta-feira, Maio 27, 2005]
Ainda que os teus passos pareçam inúteis, vai abrindo caminhos,
como a água que desce cantando da montanha. Outros te seguirão...
(Saint-Exupéry)
por Andarilha descalça * 11:53 PM
[Quarta-feira, Maio 25, 2005]
Boca
Boca: nunca te beijarei.
Boca de outro que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.
Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.
Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.
Carlos Drummond de Andrade
por Andarilha descalça * 12:33 AM
[Terça-feira, Maio 24, 2005]
Se...
J.G.de Araújo Jorge
Se eu pudesse parar a minha vida
e dar eternidade a um só momento,
- se eu não tivesse o meu destino preso
ao destino das coisas no espaço.
Se eu pudesse destruir todas as leis
e dentro do Universo que se move
parar meu mundo,
- havia de escolher esse segundo
em que você estivesse nos meus braços.
por Andarilha descalça * 12:22 AM
[Segunda-feira, Maio 23, 2005]
Desejos Vãos
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!
Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...
Florbela Espanca.
por Andarilha descalça * 12:11 AM
[Domingo, Maio 22, 2005]
que bando... para onde será que vão?
nos passos da tarde
alguns
trazem marcas
humana
mente
passo
em inúmeras voltas
ao redor
do parque
num arco
vê-lo pássa
ro
homem
onde abarco
trópica
a ótica ardente
de suas pernas
aquela
nitidamente
reverbera a ausência
da face
um contraste
entre a haste
e o tênue
adriana zapparoli
por Andarilha descalça * 12:16 AM
[Sábado, Maio 21, 2005]
Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas as vezes a saudade é tão profunda,
que a presença é pouco:
quer se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira,
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida.
Clarice Lispector
por Andarilha descalça * 12:33 AM
[Terça-feira, Maio 17, 2005]
QUERO
Quero aprender esperanto
compor versos em latim
regar flores
com lágrimas de virgens.
Quero morar em Paris
lançar-me da torre que há
cujo nome me traz calafrios
terceiro-mundistas.
Quero me banhar no mar alto
lavar meus pés no Caribe
encontrar alguém como eu
que vive em algum lugar.
Quero viver, meu amor
à revelia das horas
quero tudo para ontem
pois tempo já não há mais.
Vander Claudio
por Andarilha descalça * 12:03 AM
[Segunda-feira, Maio 16, 2005]
No tempo em que eu te amei
Vito Cesar Fontana
No tempo em que eu te amei,
havia sede e fome.
Queria tua voz,
teu jeito estranho e tua loucura.
E por não saber que te amava,
lutava,
acreditando ser paixão
a coisa torta de te ligar,
te encontrar e te brigar,
resplandecer e te mimar,
fazendo-te canções,
corrigindo-te o ímpeto,
desesperadamente procurando a tua boca
para o beijo pobre que,
mesmo o sendo,
minha boca ansiava.
No tempo em que eu te amei,
transformei rotinas de tempos plantados,
confisquei mil quereres
e empobreci meu gesto
para melhor chegar a ti,
mesmo sabendo-te tão próxima
e tão inatingível.
No tempo em que te amei,
eu estava errado.
Não havia bom senso
em te amar naquele momento e,
como sempre, como nunca,
mais uma vez desencontrado estava eu,
te amando e desejando.
No tempo em que te amei,
errei ao rejeitar o teu corpo
quando me foi ofertado por ti,
enlouquecida de vinhos,
amortecida de lógica
e trôpega de sentimentos.
No tempo em que te amei,
já não havia estrelas.
por Andarilha descalça * 12:05 AM
[Domingo, Maio 15, 2005]
figos maduros
Lau Siqueira
ai de mim
com essa figueira crescendo dentro
sem saber direito o momento da poda
ou da colheita
ai de mim
que não entendo de árvores que não com
preendo direito o que elas dizem o que fa
zem como agem na hora do corte e
depois
na transcendência das figueiras
nem sei se a casca
grossa no caule leitoso
com o tempo terá uma
fibra impermeável
ai de mim
que percorro a mansidão invisível
como um galo cumprindo o ofício
das manhãs.
por Andarilha descalça * 12:45 AM
[Sábado, Maio 14, 2005]
POEMA SOBRE A RECUSA
MARIA TERESA HORTA
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
por Andarilha descalça * 12:08 AM
[Sexta-feira, Maio 13, 2005]
Às vezes entre a tormenta
(Fernando Pessoa)
Às vezes entre a tormenta,
quando já umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.
E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que não conhece o langor.
E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito está feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.
Porque verdadeiramente
sentir é tão complicado
que só andando enganado
é que se crê que se sente.
Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo é chuvas que orvalham
folhas caídas que secam.
por Andarilha descalça * 12:10 AM
[Quinta-feira, Maio 12, 2005]
Tecendo a Manhã
1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Melo Neto
por Andarilha descalça * 12:02 AM
[Quarta-feira, Maio 11, 2005]
Reflexão
Murilo Mendes
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
É a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
por Andarilha descalça * 12:18 AM
[Quinta-feira, Maio 05, 2005]
O QUASE-PRESENTE
(Orlando Vaz Carneiro)
Desculpe
o quase-presente
apressado
o quase-gesto
esperado
o quase-sorriso
ensaiado
o quase-coração
disparado
desculpe
o quase-natal feliz
sonhado
aproveitei
e me presenteei
da quase-releitura
dos caminhos quase-escolhidos
pelos meus poemas quase-escondidos
... me deparei
com quase-sonhos de rei
encontrei
um quase-mim
que um dia quase-serei.
por Andarilha descalça * 12:00 AM
[Quarta-feira, Maio 04, 2005]
"_Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado."
Alice ruiz
por Andarilha descalça * 12:01 AM
[Domingo, Maio 01, 2005]
Perder e ganhar
Lya Luft
Com as perdas, só há um jeito:
perde-las.
Com os ganhos,
o proveito é saborear cada um
como uma fruta boa da estação.
A vida, como um pensamento,
corre à frente dos relógios.
O ritmo das águas indica o roteiro
e me oferece um papel:
abrir o coração como uma vela
ao vento, ou pagar sempre a conta
já vencida.
por Andarilha descalça * 12:07 AM