Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Quinta-feira, Dezembro 30, 2004]

por Andarilha descalça * 11:17 PM
[Domingo, Dezembro 26, 2004]
RECEITA DE ANO NOVO
(Carlos Drummond de Andrade)
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
por Andarilha descalça * 9:54 PM
[Segunda-feira, Dezembro 20, 2004]
POEMA DE NATAL
Mano Melo
Que este natal
Seja um nascimento
Cimento e cal
Para o concreto
De seus projetos
Seja a semente
Daquele passo adiante
Que você sempre quis
Saúde Felicidade
Trabalho Prosperidade
Para você sua família
Seu povo sua cidade
Seu país
Que você realize
Todos os sonhos do coração
Seu jardim floresça
Seus filhos cresçam
Que tudo de bom lhe aconteça
A você e aos que você ama
Que seus negócios se multipliquem por mil
E tudo que está bom
Seja melhor ainda
Que a dor e a tristeza
Não tenham lugar à sua mesa
Tudo do bom e do melhor
Para você e os seus
Com as graças de Deus.
por Andarilha descalça * 10:28 PM
[Sexta-feira, Dezembro 17, 2004]
Uma criança nascida numa manjedoura
Esquecida, aparentemente, por todos
Divide seu nascimento com os bichos
Sorri para o cavalo e brinca com os bois
Enquanto os homens são só engodos
Crescida, ela disse para os homens iguais
Que mais felizes são os animais.
Francisco Libânio
por Andarilha descalça * 12:29 AM
[Quinta-feira, Dezembro 16, 2004]
O constante diálogo
Carlos Drummond de Andrade
Há muitos diálogos
O diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado
O diálogo contigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o futuro
Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.
por Andarilha descalça * 12:48 AM
[Quarta-feira, Dezembro 15, 2004]
Poema do livro lido...
Quim Nogueira
¿Deixem-me ser um poema!
deixem-me ser todo eu um livro;
queria ser todo eu algo escrito,
algo para dizer ou ser dito!
queria ser todo eu um poema
para num livro à tua cabeceira pousar,
sentir-me ser lido
e nas tuas mãos versejar.
deixem-me ser um poema!
se o livro que desejo ser,
em livro um dia se tornar,
que seja o livro do livro lido
por todos os que precisam de amar...
sou assim, o poema desta manhã,
as palavras desta tarde
e os sons desta noite;
sou a manhã deste poema
e a tarde destas mesmas palavras,
a noite dos sons do fogo que arde...
sinto assim a sua fragrância,
numa ânsia
de palavra dita
ou mesmo de palavra escrita...
sinto o odor do poema versejado,
ouvido,
relido,
mirado,
querido
ou até mesmo...odiado...
sinto o cheiro da palavra que escrevo
ou da palavra que leio...
sinto o poema dentro de mim
com a manhã a nascer em ti
ouvindo a tarde adormecer
na noite do teu sonho de prazer...
sinto-me poema...
sinto-me palavra...
sinto-me viver...
deixa-me ouvir...
deixa-me ler...
porque não quero sentir a dureza do insulto
que o silêncio em mim provoca...
não quero ouvir os gritos lancinantes
dum silêncio que tanto me choca...
quero ouvir as palavras ditas...
quero ler as palavras escritas...
quero ouvir os sons que elas me trazem...
quero ler as tonalidades que elas fazem...
quero sentir o impacto do dito...
quero sentir o embate do grito...
não quero ler a palavra não escrita...
não quero ouvir o silêncio do livro vazio...
não quero escutar o silêncio do não dito...
quero sentir a pureza da voz
que a palavra escrita me traz...
quero sentir o estrondo do grito
que a palavra dita me faz...
quero sentir que és...
quero sentir que estás...
quero sentir as palavras
e quero os livros com elas gravadas!...
deixem-me ser um poema!...
escrevo assim
o poema desta manhã
com as palavras da tua tarde
e os sons da nossa noite,
e, se a noite chegar,
sem que a manhã tenha surgido,
não tenhas receio,
não tenhas medo,
porque mesmo assim eu te leio...
por Andarilha descalça * 12:53 AM
[Terça-feira, Dezembro 14, 2004]
A Imagem Perdida
Mário Quintana
Como essas coisas que não valem nada
E parecem guardadas sem motivo
(Alguma folha seca... uma taça quebrada)
Eu só tenho um valor estimativo...
Nos olhos que me querem é que eu vivo
Esta existência efêmera e encantada...
Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada
Refletirá meu vulto vago e esquivo...
E cerraram-se os olhos das amadas,
O meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,
Nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...
E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
Muitas vezes parei... e, nos espelhos,
Procuro em vão, minha perdida imagem!
por Andarilha descalça * 12:34 AM
[Domingo, Dezembro 12, 2004]
Uma belíssima mensagem de natal, recebida de alguem
muito especial.
Cara amiga Andarilha,desejo-te a si e à tua familia um Natal calmo, simples, e transparente
para que a Graça de Deus possa passar através de nós, todos os dias do ano,
como o sol passa pela vidraça...
E como não há natal sem presentes, deixo-te também alguns,
numa lista do meu património invisivel,
que por si ,com amizade, distribuo:
A riqueza da alma e do subsolo, as águas territoriais,as aguas correntes e paradas,
chovidas e por chover, as arvores, flores,frutos e jardins publicos,
os anos civis e os bissextos, os dias, meses e as estações, o sol o frio e o nevoeiro,
as estrelas e o luar,o mar e seu dono, a brisa,
o vento as tempestades e as bonanças, as cores da tua bandeira,o hino,
a soberania nacional, os partidos politicos, os direitos do homem, da mulher e da criança,
as liberdades e garantias dos cidadãos,o direito à habitação,
ensino e saude, as eleições livres, a democracia, a justiça,
a ordem juridica, a imprensa livre mas responsavel,
a opinião publica,a pureza da linguagem,as cartas de recomendação,
os discursos transcendentais, os livros e poemas escritos e os ainda não sonhados,
as grandes manifestações,a história, o direito à vida, ao sono e ao sonho,
a carestia da vida, as classes desfavorecidas e os povos massacrados, a moral cristã....
e todo o mais que por cansaço desculpe, não consigo mais... embrulhar.
Antes de terminar, apenas uma palavra para o ano que finda pois termina
com ele a convivência que tivemos, num ano em que desfrutei de cada palavra,
identificando-me com cada pensamento e que me deixei levar pela
melodia do seu verbo e verso .
Kahlil Gibran dizia que
" a poesia é um espirito/que habita a alma/cujo alimento é o coração/ e cujo vinho é o afecto",
e disso não tenho duvida alguma.
Assim, brindo com afecto a um feliz 2006 usando palavras do poeta espanhol,
Gustavo Bécquer, para que as tenhamos sempre presente em todos os dias do novo ano:
" Que é a Poesia? E tu perguntas-me? Poesia és tu."
Bem Hajas
Até sempre
por Andarilha descalça * 7:51 PM
[Terça-feira, Dezembro 07, 2004]
Uma palavra
(J. G. de Araújo Jorge)
Se tivesses mandado uma palavra ¿espera!¿
Sem mais nada, nem mesmo explicar até quando
Eu teria ficado até hoje esperando...
Era eterna ilusão de que fosses sincera
Que importaria a vida, o sol, a primavera,
Se eras, a vida o sol, a flor desabrochando ?
Se tivesses mandado uma palavra ¿espera!¿
Eu teria ficado até hoje esperando.
Não mandaste.
Tu nada disseste, e eu segui sem saber
O que fazer da vida que era tua
Procurando com o mundo esquecer-me de ti.
E afinal,
O destino irônico e mordaz,
Ontem fez-me cruzar com teu olhar na rua
Ouvir dizer-te ¿espera!¿
E ser tarde demais...
por Andarilha descalça * 12:50 AM
[Segunda-feira, Dezembro 06, 2004]
VENTOS
Ligi@Tomarchio®
Doces ventos segredam seus rumos
à princesa atenta aos sussurros.
Clarividência é privilégio dos deuses.
Do alto castelo ela pressente o caos.
Não pode mudar o destino
dos súditos, mundo, universo...
Coração em prantos e alquebrado
cora diante da visão dantesca!
Ao redor do castelo, soldados em forma,
aguardam a ordem para glória!
Não há orgulho em seu semblante
tão pouco alegria!
Deixa a mão acenar ao vento
com o olhar fixo no horizonte...
Perdeu-se em seus delírios...
Não há mais príncipe ou trono
apenas as grades da janela!
por Andarilha descalça * 12:06 AM
[Sábado, Dezembro 04, 2004]
A Casa do Tempo Perdido
Carlos Drummond de Andrade
Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
Pela metade; a outra metade são cinzas.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
Pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
Minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
No bater e bater.
O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.
por Andarilha descalça * 2:42 PM
[Sexta-feira, Dezembro 03, 2004]
A mulher e a tarde
Cecília Meireles
O denso lago e a terra de ouro:
até hoje penso nessa luz vermelha
envolvendo a tarde de um lado e de outro.
E nas verdes ramas, com chuvas guardadas,
e em nuvens beijando os azuis e os roxos.
Perguntava a sombra: "Quem há pelo teu rosto?"
"Que há pelos teus olhos?" - a água perguntava.
E eu pisando a estrada, e eu pisando a estrada,
vendo o lago denso, vendo a terra de ouro,
com pingos de chuva numa luz vermelha...
E eu não respondendo nada.
Sonho muito, falo pouco.
Tudo são riscos de louco
e estrelas da madrugada...
por Andarilha descalça * 12:42 AM
[Quarta-feira, Dezembro 01, 2004]
Perambulando
Cleide Canton
Perambulas, sei,
pelas minhas linhas apressadas
tentando sondar
se marcas ficaram
de um passado
atolado
no desdém
das tuas surpresas.
Perambulas, sei,
auscultando o tamborilar
do meu coração sonhador
nos tantos versos
em que prego o amor.
Perambulas, sinto,
pois gritante é o orgulho
que agasalha teu peito
e felino é o desejo
de ainda te sentires senhor,
sem concorrência, sem pudor...
Perambulas pelos matizes
das minhas noites insones,
pelas relvas do meu despertar,
pelo rastro dos meus passos,
pelos meus inteiros,
pelos meus pedaços.
E eu te digo que não me encontras
pois, simplesmente, não mais danço.
Apenas marco os meus compassos,
guerreio pela minha ritmia
embora ainda exista o falsete
na minha inacabada melodia.
por Andarilha descalça * 2:13 PM