Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Terça-feira, Novembro 30, 2004]
Despedida
Entre meu amor e eu hão de levantar-se
trezentas noites como trezentas paredes
e o mar será magia entre nós.
De sereias várias ao inverso
Não haverá senão recordações.
Ó tardes merecidas pela pena
noites esperançadas de olhar-te
campos de meu caminho, firmamento
que estou vendo e perdendo...
Definitiva como um mármore
entristecerá tua ausência
outras tardes.
(Jorge Luís Borges)
por Andarilha descalça * 12:37 PM
[Sábado, Novembro 27, 2004]
Versos Andaluzes
(Diante das Luzes de Tânger)
Antonio Júnior
Sou um homem de olhos abertos de volta à espanha
colorida de almodóvar.
eu olho ruas, que não são minhas ruas,
e beijo a história e o seu silêncio sofrido,
e penso em coisas surgidas do passado.
Me acende o coração ver rudes ciganos,
me consola o espírito acariciar o mar.
sou um homem de olhos abertos de volta à espanha
flamenca.
E nada é mais importante do que o caminho
a seguir; caminho de descobertas.
nada desperta os fantasmas do general franco
perdidos em noites antigas.
e a melancolia mais funda não mais importa.
sou um homem de olhos abertos de volta à espanha
sedutora de carmen.
por Andarilha descalça * 12:23 AM
[Sexta-feira, Novembro 26, 2004]
Alma
MANUEL BANDEIRA
Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor ,
Só em Deus ela pode encontrar satisfação
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo
As almas são incomunicáveis,
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo,
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
por Andarilha descalça * 12:08 AM
[Quinta-feira, Novembro 25, 2004]
Poeminha sentimental
Mário Quintana
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
por Andarilha descalça * 12:46 AM
[Quarta-feira, Novembro 24, 2004]
A Vida
Florbela Espanca
É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo ou o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!...
por Andarilha descalça * 12:28 AM
[Terça-feira, Novembro 23, 2004]
Prece
Senhor, que és o céu e a terra,
que és a vida e a morte!
O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!
Tu és os nossos corpos e as nossas almas
e o nosso amor és tu também.
Onde nada está tu habitas
e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar.
Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra,
ouvidos para te ouvir no vento e no mar,
e meios para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu.
Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos
nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos.
Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos
e servir-te como a um pai.
Minha vida seja digna da tua presença.
Meu corpo seja digno da terra, tua cama.
Minha alma possa aparecer diante de ti
como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol,
para que eu te possa adorar em mim;
e torna-me puro como a lua,
para que eu te possa rezar em mim;
e torna-me claro como o dia
para que eu te possa ver sempre em mim
e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu.
Senhor, livra-me de mim.
Fernando Pessoa (extraído de "O Eu Profundo").
por Andarilha descalça * 12:49 AM
[Domingo, Novembro 21, 2004]
Volte atrás
Silvana Duboc
O que já foi feito, desfaz
recomeça novamente
agora tenta diferente
cria coragem
claro que fácil não vai ser
mas só o fato de você querer
já pode lhe ajudar
então muda tudo de lugar
o que era importante
deixa viver mais distante
e aquilo que parecia indiferente
coloca na sua frente
inverte os valores
invalida as suas dores
joga fora os seus temores
busca alegrias
e deixa em sua vida
rolar as fantasias
mas nelas não se perca
saiba um freio colocar
para de novo não voltar
a esse mesmo lugar
onde fui lhe encontrar
aprenda finalmente
a fazer tudo consciente
daquele jeito que antigamente
você não soube fazer
é fácil aprender
basta você querer
no fim você vai ver
que a ordem dos fatores
alivia as dores
mas de uma coisa também terá certeza
lutar contra amores
é uma indelicadeza
que você não deve cometer com seu coração
isso não há de ser bom
enfim preciso me explicar
antes que todos esses conselhos você comece a anotar
preste atenção
eu estou no meu momento razão
mais tarde, quando em mim invadir a emoção
venho aqui e digo tudo diferente
falo pra você não voltar atrás
que já é tarde demais
digo pra deixar tudo como está
nada de recomeçar
insisto pra você continuar a tentar
com todas as coisas no mesmo lugar
é...assim é o meu coração
volúvel, eternamente equilibrando
entre a razão e emoção
e sempre se descompensando
porque tanto quanto você
por essa vida eu sigo amando.
por Andarilha descalça * 6:03 PM
[Sábado, Novembro 20, 2004]
Conclusa
Eugênia de Campos
Não chove nem pergunto:
"Que fiz eu da vida?"
Estou apenas aqui
e estar aqui é um modo simples de negar
todos os sonhos que falhei
como se nunca os tivesse sonhado,
e de fingir
que me sinto bem assim e até gosto
das visitas duas vezes por semana e cinco dias
para reaprender que não sou de companhia.
Se chovesse poderia embalar-me na doçura bafienta
e fazer versos falsos de mim,
imaginando ser a única passageira de uma nau imensa
ou de um comboio sem paragens que atravessasse
o continente inteiro da minha solidão.
E no entanto conforta-me estar aqui
à tristeza esplêndida do luar
e sentir que a minha vida nunca teve rumo.
É como voltar a ser criança
e não vir de lado nenhum e não ir para sítio nenhum.
Porque chove e nos dói vagamente
para sempre a garganta.
por Andarilha descalça * 12:38 AM
[Quinta-feira, Novembro 18, 2004]
Outonal
Amélia Pinto Paes
Cai uma folha no poente destes dias
O que era nítido torna-se difuso
Babel renasce em cinzas de um deserto próprio
E o vento busca em vão uma harmonia
A solidão é em mim um oásis às avessas
Lutando em vão contra a miragem certa .
por Andarilha descalça * 11:07 PM
[Sexta-feira, Novembro 12, 2004]
"Círculo Vicioso "
I
( O Vagabundo )
Deitado sobre um abnco, o olhar triste e parado
corpo exausto e vencido, alama cansada e morta
pensava:
"- Ah! quem me dera um palácio encantado,
banquetes sobre a mesa e sedãs à porta !"
I I
( O Homem Rico )
Deitado sobre um leito de seda, a alma inquieta,
a cabeça a escaldar em mil preocupações,
dizia:.
"- Ah! quem me dera ter nascido poeta
e viver para o amor, de sonhos e ilusões !"
I I I
( O Poeta )
Debruçado à janela, o olhar no céu profundo,
ele escrevia um poema e começava assim:
"- Se eu tivesse nacido um pobre vagabundo
talvez que não sofresse a dor que há dentro de mim !"
(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
por Andarilha descalça * 1:03 AM
[Terça-feira, Novembro 09, 2004]
DEJA LA VIDA FLUIR!...
Eda Carneiro da Rocha
Suelta todo lo que tienes preso en tu alma,
en tu cuerpo.
Deja la vida fluir...
No alejes tu pensamiento,
mucho menos
lo que sientes!..
Al som de esta canción, deja la vida fluir!..
Fluí con ella, danza, bate palmas,
mas no dejes nunca amor ir tu lejos!
Ah! eso no!
Si lo dejares, el no regresará mas...
Saldrá por la entrada, loco,
procurando otros amores
que no el tuyo,
pues no lo dejaste fluir!
Y ese amor no es subordinado!
Sólo respeta otro amor,
arraigado a sus entrañas,
a su vida, a su respiración,
a su miedo, a su libertad
tan preciosa que el sólo la deja por ti
mas no como quieres!..
Simplemente
dejando la vida fluir!
Eda Carneiro da Rocha
por Andarilha descalça * 9:45 PM
[Segunda-feira, Novembro 08, 2004]
XX
Hilda Hilst
Teu nome é Nada.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem:
Diante do eterno,nada
Morte,teu nome.
Um quase chegar perto.
Um pouco mais (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto
Um pouco mais,tu O terias visto.
Teu nome é Nada.
Haste,pata.Sem ponta,sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.
livro:Da Morte.Odes Mínimas
por Andarilha descalça * 12:37 PM
[Quinta-feira, Novembro 04, 2004]
Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade."
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho...
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?
(Walt Whitman)
por Andarilha descalça * 10:21 PM