Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Quinta-feira, Setembro 30, 2004]


Para os Teus Olhos
(Guilherme de Almeida)

Eu passeio nos teus olhos
como uma sombra impalpável
numa planície de flores vertiginosas
Meu vulto tomba na sede esticada
da sua superfície. insensivelmente
como uma pluma


Eu sou para os teus olhos claros,
entre as algas dos teus cílios
como uma flor de luar
na alma azul de um lago
de alvas águas...


Sombra, reflexo, pluma...
Eu sou tão pouco para os teus olhos!
Quase nada; o jogo de um reflexo,
uma pluma e uma sombra...


No entanto, como eu me sinto enorme
quando penso que é nos teus olhos
que as estrelas vem, como eu, humildemente,
acender-se também!




por Andarilha descalça * 12:18 AM

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[Quarta-feira, Setembro 29, 2004]


Sei que não quero contar
Amílcar de Castro


Sei que não quero contar

a história dos espaços já construídos.



Por mais ontens que se guarde

mesmo por amor ou saudade

não faremos amanhecer jamais.



Gostaria, sim, de mostrar o espaço

ainda não visto

o espaço reinventado de assombros

e sem alarde

mas que se mostra novo, sempre novo.



Nada é mais vulgar que o espaço

nem nada mais vivo quanto a luz.



Quando a descoberta se faz sentir

é no presente que antecipo o futuro

mesmo no tempo que se armam as forças

para desvendar a forma clara.

Creio

Tenho fé na forma que não deixa resto

Que estampa e cala

Como a fala do poeta

que em silêncio contém o mundo.




por Andarilha descalça * 12:30 AM

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[Terça-feira, Setembro 28, 2004]


Liberdade
Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.




por Andarilha descalça * 8:49 AM

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[Segunda-feira, Setembro 27, 2004]


Quisera
Eugênio Tabosa

Quisera transpor
todas as portas
fluir pelas janelas,

voar serena
por verdes campos
sem deixar sombra,

ser como o vento
uma leve brisa
um cheiro de mar,

ser o olhar
seguindo o pássaro
que risca o céu.

Ir sem receios
um sorriso breve,
como quem vem...




por Andarilha descalça * 1:32 PM

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[Sábado, Setembro 25, 2004]


"el viento en la isla"
(Pablo Neruda)

EL viento es un caballo:
óyelo cómo corre
por el mar, por el cielo.

Quiere llevarme: escucha
cómo recorre el mundo
para llevarme lejos.

Escóndeme en tus brazos
por esta noche sola,
mientras la lluvia rompe
contra el mar y la tierra
su boca innumerable.

Escucha cómo el viento
me llama galopando
para llevarme lejos.

Con tu frente en mi frente,
con tu boca en mi boca,
atados nuestros cuerpos
al amor que nos quema,
deja que el viento pase
sin que pueda llevarme.

Deja que el viento corra
coronado de espuma,
que me llame y me busque
galopando en la sombra,
mientras yo, sumergido
bajo tus grandes ojos,
por esta noche sola
descansaré, amor mío.




por Andarilha descalça * 12:25 AM

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[Sexta-feira, Setembro 24, 2004]


DESÍGNIOS
Bruna Lombardi


Alguém pode me dizer
se estava prevista na palma da minha mão
esta paixão inesperada
se já estava escrita e demarcada
na linha da minha vida
se fazia já parte da estrada
e tinha que ser vivida


ou foi um desgoverno repentino
que surpreendeu os deuses
todos os que desenham nosso destino
ou foi um desatino, uma loucura
uma imprevisível subversão
que só a partir de agora eu trago marcada
na palma da minha mão.




por Andarilha descalça * 4:56 PM

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[Quarta-feira, Setembro 22, 2004]


A ausente
Vinicius de Moraes

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...




por Andarilha descalça * 2:27 PM

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[Terça-feira, Setembro 21, 2004]


MADRUGADAS

Sois encantos,
ternura e saudade,
prenúncio do alvorecer.

Tantas madrugadas dormi.
Tantas madrugadas sonhei.
Tantas madrugadas chorei.

Madrugadas estreladas.
Madrugadas escuras.
Madrugadas frias e quentes.

Porém as mais convincentes
são aquelas em que não durmo,
não sonho,
não choro.

Silencio diante do meu amor
que antecipa o meu amanhecer.
Beija-me na boca de orvalho.
Nos meus braços
é pássaro cantando no galho,
é peixe nadando no mar...

Para ele dispo-me pura e nua
para festejar o sol...

NELL




por Andarilha descalça * 9:02 AM

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[Segunda-feira, Setembro 20, 2004]


A beleza
BAUDELAIRE

Sou mais bela, ó mortais! que um sonho de granito,
E meu seio, onde vem cada um gemer de dor,
Foi feito para o poeta inspirar um amor
Semelhante à matéria, isto é mudo e infinito
Reino no azul como uma esfinge singular;
Meu coração é neve e ao mesmo tempo arminho;
Odeio o que se move e faz o desalinho,
E não sei o que é rir, nem sei o que é chorar.
Os poetas, ante as minhas grandes atitudes,
Que aos monumentos mais altivos emprestei,
Consumirão o ser nos estudos mais rudes;
Pois para esses servis amantes reservei
Um puro espelho em que é mais bela a realidade:
Meu olhar, largo olhar de eterna claridade!




por Andarilha descalça * 12:13 AM

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[Sábado, Setembro 18, 2004]


Tristezas da lua
CHARLES BAUDELAIRE

Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.

No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.

Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,

No côncavo das mãos torna essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no peito.




por Andarilha descalça * 2:54 PM

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[Sexta-feira, Setembro 17, 2004]


Fragmentos


Se eu pudesse ajuntar os cacos

e das sobras - pequenos mosaicos,

construir de novo a nossa vida,

não poderia dar forma definitiva...

sequer esboço de um sonho vão...

às pinceladas vagas e aleatórias

de um preto e branco sinistro

que vão e vem, sem significação...

Sem rostos, marcas ou lembranças,

sem sequer história para ser lida...


Dos pequenos fragmentos

das lembranças partidas, na verdade,

não há imagem arquitetada

que desperte do coração uma saudade...

Maria Tereza




por Andarilha descalça * 10:50 AM

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[Quinta-feira, Setembro 16, 2004]


Maktub!


Estava escrito que os teus olhos
não veriam os meus olhos....
que a minha alma não seria a tua gêmea,
que o teu ombro não descansaria
o meu cansaço
e a tua casa não teria portas para mim...

Estava escrito que os teus beijos
não me beijariam com ternura,
que o teu coração não poderia
ser o meu abrigo,
que a tua imagem seria sempre
esta mítica lenda
e a tua presença, apenas utopia...

Estava escrito que os meus sonhos
reais nunca seriam...
que a tua lembrança guardada ficaria
como rara jóia...
que os meus passos se apressariam
para ti
e que os rejeitariam os teus
como corpos que se repelem...

Estava escrito, enfim,
que a despeito de tudo o que sonhei
e senti e amei por ti
nossos caminhos seguiriam eternamente
como paralelas linhas:
estejam próximas ou distantes,
por curto trecho ou
longa caminhada,
jamais haverão de no espaço
se encontrar...

Maria Tereza




por Andarilha descalça * 8:57 AM

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[Quarta-feira, Setembro 15, 2004]



OLHAR-TE


Olhar-te

É como contemplar um monumento

Esculpido pela mão humana

Em elevação ao ser amado.



Olhar-te

É como velejar em um imenso mar

Sentindo no rosto a carícia da brisa

Que se une ao sol para nos suavizar.



Olhar-te

É sentir o afago

De mãos carinhosas

Que procuram em meu corpo

Despertar o instante mais perfeito.



Olhar-te

É reviver o calor de teus beijos

É continuar ouvindo sua voz sussurrando

Aquelas deliciosas palavras que balbucias

Brotadas do seu eterno amor e desejo por mim.

(Sonia Santos)




por Andarilha descalça * 12:08 AM

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[Terça-feira, Setembro 14, 2004]


Sempre haverá poesia
G.A.Bécquer


Não digais que, esgotado seu tesouro,
Por falta de assuntos emudeceu a lira;


Poderá não haver poetas; porém sempre
Haverá poesia!


Enquanto as ondas da luz ao beijo
Palpitem acendidas,

Enquanto o sol as desgarradas nuvens
De fogo e ouro vista,

Enquanto o ar em seu seio leve
Perfumes e harmonias,

Enquanto exista no mundo primavera,
Haverá poesia!


Enquanto a ciência humana não descubra
A origem da vida,

E entre o mar e o céu exista um abismo
Que ao cálculo resista,


Enquanto a humanidade, sempre avançando,
Não saiba para onde caminha,

Enquanto exista um mistério para o homem,
Haverá poesia!


Enquanto sentirmos que a alma rí,
Sem que os lábios ríam;

Enquanto choremos, sem que o pranto acuda
A nublar a pupila;


Enquanto o coração e a cabeça
Batalhando prossigam,

Enquanto existam lembranças e esperança,
Haverá poesia!


Enquanto existam olhos que refletem
Outros olhos que os miram,

Enquanto responda o lábio suspirando
A outro lábio que suspira,


Enquanto sentir-se possam num beijo
Duas almas confundidas,

Enquanto exista uma mulher formosa,
Haverá poesia!




por Andarilha descalça * 12:10 AM

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[Segunda-feira, Setembro 13, 2004]


Escute

Sylvia Cohin


sei que não é fácil dizer, muito menos escutar...
eu bem que tento chamar sua atenção,
acenar discretamente os meus sinais
que da vida se inscrevem nos anais,
e fico muda, enraivecida, frustrada...
esta surdez me faz sentir tão mal amada,
pior! eu me sinto mal ouvida...!
relegada
esquecida,
desconsiderada,
preterida...
afinal, quem pensa você que é,
que pode ignorar meus sentimentos
desconhecer essa linguagem que se instala
quando os ouvidos param de escutar e a boca de falar...
o silêncio do protesto !
do vácuo, o vazio, sem gesto...
a boca cerrada incapaz de uma palavra
enquanto tudo em volta fala, grita, agita...
e clama que você, por caridade,
escute...!
os sinais das mãos, vazias, frias,
na esperança do calor das suas...
essa espera paciente frente ao jornal irritante,
muralha intransponível, parede de papel,
alienante...
falando sério...
não sei onde estou que não cometo um desatino
e atiro pela janela de uma vez,
o presidente, seus ministros, comentaristas,
provoco uma "serial viuvez"
matando todos eles de uma vez!!
escute...
quando me arrumo e vou pra rua,
explodo o cartão de crédito,
cinema regado a coca... pipoca...
esquecer na fantasia comprada
a solidão cohabitada...
escute...
embora confusos,
preste atenção aos meus sinais...
os seus, nem sei como saber mais...!
perceba se me acerco sorrateira,
se exalo o perfume que lhe atiça,
a nuca sedenta e nua...
sou eu, acenando, e você...
andando por outra rua...
escute...
quando busco o aconchego de seus braços
e neles descanso o meu cansaço,
quando te espero sorridente
ao final de mais um dia, companheira
e confidente,
querendo ser de novo conquistada,
flor viçosa ansiando ser colhida...
em lugar de simplesmente ser comida
e logo após ser esquecida!!
soterrada!!
na hecatombe dos sinais despercebidos...
escute...
valorize minhas suadas vitórias,
tenha orgulho de meus feitos, olhe pra mim direito,
ouça atentamente minhas histórias!!
não sou de sua vida um acessório...
escute...
é bom que fique atento ao meu cansaço...
começo a dar sinais de indiferença
nem me importo se não vê a negligência...!
descubro que estou noutra sintonia...
nós já somos do mal a sentença... a revelia...
acorde !!
é hora de apagar nossos sinais, não valem mais...
o amor não sobrevive de cobranças
nem se alimenta de falsas esperanças...
de sábio repousa em sua crença...
é hora de cerrar a porta de passagem...
levar nas costas a mochila da bagagem
olhar o mundo colorido,
nova paragem...
desfruto... desfrute !
e escute...!


por Andarilha descalça * 2:04 PM

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[Domingo, Setembro 12, 2004]



Nel mezzo del camin...
Olavo Bilac

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha.

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.




por Andarilha descalça * 12:19 AM

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[Sábado, Setembro 11, 2004]


Antes de fechar a porta e ir embora
Não me venha dizer que está levando tudo
Que deseja deixar
Pegue o seu medo e tristeza
e escreva nas páginas do livro deixado em cima da
mesa
e não se esqueça

É preciso que um dia se vá prá que outro dia
amanheça...

Não esbarre na louça e repare no jardim
As plantas subindo pro céu
Nunca deixe de cantar a brisa
E de voltar quando queira

Não perca a altura do vôo, nem se desvaneça
O tempo é concreto e se você tem pressa
Não perca a cabeça

É preciso que um dia se vá prá que outro dia amanheça...

(Sérgio Sá)




por Andarilha descalça * 9:47 PM

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[Sexta-feira, Setembro 10, 2004]


Confiança


O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...


(Miguel Torga)




por Andarilha descalça * 10:43 AM

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[Quinta-feira, Setembro 09, 2004]


O Corpo da Paixão não terá Sono
Sarah Rodrigues

À beira-mar eu sonho e me liberto.
eu vou buscando em sonho o teu calor,
que não me faça ter este deserto
de ter, no meu amar, teu pouco amor!




Pois esse bem que um dia foi tão certo
se abriu na minha vida como flor,
e aquele amor que um dia esteve perto
me diz que o mesmo bem é minha dor.

Mas este amor, nascente do meu pranto,
é derramado, em verso, como canto
que se declama dentro da minh¿alma!

Se durmo apaixonada no abandono,
o corpo da paixão não terá sono
e as ondas do meu mar não terão calma!




por Andarilha descalça * 11:08 PM

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[Terça-feira, Setembro 07, 2004]



Rotina
EUGÉNIO DE ANDRADE


Passamos pelas coisas sem as ver,

gastos, como animais envelhecidos:

se alguém chama por nós não respondemos,

se alguém nos pede amor não estremecemos,

como frutos de sombra sem sabor,

vamos caindo ao chão, apodrecidos.




por Andarilha descalça * 12:04 AM

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[Sábado, Setembro 04, 2004]


Palavras, palavras...
ESTHER ROSADO

A mão que se leva ao rosto

guarda outra mão,

guarda.



Assim como guarda a casa

as impressões dos que nela

transitaram.



O corpo que se lava

sob a água

também guarda



a impressão solene

vulcânia, mas atroz

do gozo



lava.





Na unha, um resto de aurora

semente do dia

com a qual

o dia a si mesmo cava.



Na boca guardam-se os mistérios

e as notas musicais

de todas

as palavras



lavras.



Os braços guardam, ainda,

impressões de outros abraços:

mornidão.



mas aquilo que não se toca

é sempre brasa...



um susto, e plena asa.





A palma aberta da mão,

cotovelos, coxas, cílios,

tua guarda a própria história.



A vida humana é rastilho

da mais perigosa pólvora.



O ventre, o umbigo, o sexo,

sobrancelhas, íris, nariz,

tudo esconde acontecimentos:



por um triz que não me foste,

por um triz que não te fui.

Palavras.




por Andarilha descalça * 4:16 PM

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[Sexta-feira, Setembro 03, 2004]



Nasceu um poema

Pelos dias horas e minutos
Vou passando a rua da vida
Levo risos ouço insultos
Ainda assim sigo a trilha

Encontro ferro encontro aço
Encontro luz que me conduz
Me Ilumina a cada passo
Na caminhada que me propuz

Envolventes carinhos e ais
Em momentos de ternura
Instantes verdadeiros, reais
São os mometos de candura

Nesta imperfeita viagem
Composta de horas dificeis
Espreito, quero ver miragem
De alguns segundos amáveis

Na certeza porém vos digo
Mesmo que breves os bendigo
Momentos de candura reais
Valem quanto pesam e mais !

Este filho que agora nasce
É este momento perfeito
Que me põe sorriso na face
Que me alegra deste geito


È uma dádiva este minuto
Nascer um poema de amar
Deu a Luz um termo absoluto
Um filho pra sempre a cantar

Cecília Rodrigues
09/2004


por Andarilha descalça * 4:39 PM

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[Quinta-feira, Setembro 02, 2004]


Canções Do Mundo Acabado
Cecília Meireles


Meus olhos andam sem sono,

somente por ter avistarem

de uma tão grande distância

De altos mastros ainda rondo

tua lembrança nos ares.

O resto é sem importância.

Certamente, não há nada

de ti, sobre este horizonte,

desde que ficaste ausente.

Mas é isso o que me mata:

sentir que estás não sei onde,

mas sempre na minha frente.

Não acrediteis em tudo

que disser a minha boca

sempre que te fale ou cante.

Quando não parece, é muito,

quanto é muito, é muito pouco,

e depois nunca é bastante...

Foste o mundo sem ternura

em cujas praias morreram

meus desejos de ser tua.

A água salgada me escuta

e mistura nas areias

meu pranto e o pranto da lua.

Penso no que me dizias,

e como falavas, e como te rias...

Tua voz mora no mar.

A mim não fizeste rir

e nunca viste chorar.

(Porque o tempo sempre foi

longo para me esqueceres

e curto para te amar.)




por Andarilha descalça * 9:04 AM

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