Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Terça-feira, Agosto 31, 2004]


Adiamento
(Fernando Pessoa)

DEPOIS DE AMANHÃ, sim, só depois de amanhã...

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,

E assim será possível; mas hoje não...

Não, hoje nada; hoje não posso.

A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,

O sono da minha vida real, intercalado,

O cansaço antecipado e infinito,

Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...

Esta espécie de alma...

Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,

Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...

Ele é que é decisivo.

Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...

Amanhã é o dia dos planos.

Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;

Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...

Tenho vontade de chorar,

Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...



Não, não queiram saber mais de nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã...

Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.

Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...

Depois de amanhã serei outro,

A minha vida triunfar-se-á,

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático,

Serão convocadas por um edital...

Mas por um edital de amanhã...

Hoje quero dormir, redigirei amanhã...

Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?

Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,

Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...

Antes não...

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã...

Tenho sono como o frio de um cão vadio.

Tenho muito sono.

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...

Sim, talvez só depois de amanhã...




por Andarilha descalça * 10:25 AM

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[Sábado, Agosto 28, 2004]


O MEU DESEJO
Florbela Espanca

Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...

Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, amor, devagarinho,
Até a Morte me levar consigo...




por Andarilha descalça * 12:27 AM

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[Sexta-feira, Agosto 27, 2004]


Sonhos de Aninha
Cora Coralina

Que a mesa esteja sempre posta para a oferta
modesta.
O pão da esperança e o vinho da alegria.
Combater o pessimismo e acreditar nos valores
humanos,
no patriotismo dos que governam e na recuperação
demorada dos erros e violências do presente.
Garimpar mentalmente, batear numa serra distante,
no estado vizinho,
dita Serra pelada. Toda de ouro e mais Carajás,
toda de mistérios insondáveis,
para pagar todas as dívidas do Brasile seus
contratos onerosos.
Exportar minérios, tantos, ainda não catalogados.
Ferro e ouro, ouro e ferro.
Quebrar os grilhões do débito.
Estas e outras esperanças e certezas.
Sonhos de Aninha.



por Andarilha descalça * 8:20 AM

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[Quarta-feira, Agosto 25, 2004]


Ontem
Bruno Kampel

Nunca uma noite
foi tão longa
nem tão densa.

Jamais tua presença
foi tão morna
nem tão densa.

Nunca jamais
navegar você
será tão pleno.

Velejarei a lembrança
dessa noite, remando
eternamente.




por Andarilha descalça * 3:22 PM

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[Terça-feira, Agosto 24, 2004]


Antônio
R. CArlOS Pontes

I

Antônio, preso
no passado,
descobre no presente,
ausente,
que as portas abertas,
não o libertam
da prisão humana.

Antônio vê as faces se virarem,
ao passar sua palidez.
Sente a antiga ira,
do mundo que gira,
em torno dos que nasceram
amparados pelo lado certo.

Antônio com fome,
busca a fome,
com sede de sangue.
E nas noites que caem,
abate o seu alimento.

Antônio recebe por fim,
o fim de tantos Antônios,
Pedros e Josés.
A vala dos comuns.

Antônio deixou semente.
Sempre deixam tantas sementes,
os que se colhem cedo na vida.

Antônio filho, ouve sobre o Antônio pai.
Viveu uma morte, preso em vida.

Antônio olha o futuro, nas manchetes de ontem.

II

Antônio descobre
que o mundo é maior
do que os seus passos.

Antônio cede,
recebe o pranto
de se saber vencido
antes de caminhar.

Antônio chora,
um choro breve,
breve como sua hora.

Antônio louco,
corre pelo mundo nu
despido de esperança
sofre e engole
o fato, o fado de ser
Antônio.

Antônio cospe
por entre os ossos
a morte que o consome.

Antônio morre
outro Antônio nasce.

III

Antônio sem sorte,
tenta a sorte
propondo um corte
na vida de morte.
Sorri a sorte,
e diz que não ama,
quem não tem como pagar
a cama.

Antônio insiste
e por fim
a sorte não resiste
ao fim de toda má sorte.

Antônio então recebe
o amor nas horas vagas
e sobrevive do amor
recebido e atendido.

Um dia a sorte
se cansa,
diz bom dia a morte
e muda de dono.

Antônio dorme.
Outro Antônio acorda.

IV

Antônio sobe na vida,
e do alto do morro
vê quem vive, no alto da vida.

Antônio sente a consciência
desaparecer, na onda de violência.
Sente a visão do futuro
escorrer, nos becos escuros, tiros.

Antônio que viveu pelo pó
ao pó retornará.
Na luta do concreto,
trapaças, carcaças,
tudo parte do incerto.

Antônio não será velado.
Seu corpo queimado.
lembrará a tantos Antônios,
que a vida se consome em dor.

Um Antônio tomba,
outro Antônio se levanta.

V

Antônio dos trens,
em busca de vinténs,
se aperta em vida,
no abandono
de viver, com sono.

Antônio lê o jornal,
que o vento traz más notíciais,
quando sopra sobre ninguém.

Antônio é quase nada,
e tudo que tem,
é quase nada que o mantém.

Antônio se aposenta,
para descobrir que sua dispensa,
dispensa comentários.

Antônio desordenado,
se alimenta de maus bocados.
Para quem tanto esperou,
a chegada do descanso,
se faz, na eternidade.

Um Antônio falece,
Outro Antônio Adoece,

VI

Antônio se organiza,
e vê outros Antônios agonizar.
Todo dia prega palavras
a Antônios pregrados em vida.

Nas portas do inferno,
Antônios recebem o paraíso,
de ganhar o justo pelo injusto.

Tempos de evolução,
sentar com patrões,
e olhar nos olhos gordos,
com fome de igualdade.

Antônio se vende.
Coisa pequena pensa,
pois deixar de ser Antônio
é grande coisa.

Antônio foge.
Muda de nome e ganha sobrenome.

Um Antônio se esconde,
Outro Antônio aparece.

VII

Antônio da palavra,
em poucas linhas,
ganha o muito que o mantém
vestido de linho.

Antônio homem,
amigo do salvador,
traz a palavra presa
em correntes de ouro.

Antônio expulsa demônios,
que insistem em ocupar
corpos vazios, sem pagar aluguel,
para ir para o céu.

Antônio pregador
vive quase sem dor.
Todo dia, a dor do próximo,
o aproxima do dia
em que será salvo, pelo amor.

Um Antônio cura,
Outro Antônio liberta.

VIII

Antônio das letras, estudou à noite,
E por estudar por demais
agora guia Antônios, cegos à luz do amor.
[dói escrever no escuro]

Como é por direito a defesa,
Antônio se defende, vendendo a todos,
o alto preço da liberdade.
[livres, somos cativos da verdade].

Antônio leva e traz,
notícias e desmandos.
Como um pombo correio,
se orienta pelo dinheiro,
que do norte ao sul, traça as linhas,
do que é correto e justo,
e do que é melhor, deixar de existir.
[e o mundo foi dominado pelo lucro]

Quem via as carnes gordas de Antônio,
não via o verme gordo, à luz do dia,
libertar vermes que não tem hora,
para saciar sua fome de matar.
[Deus, o que criou ?]

Um Antônio abre as celas,
Outro Antônio sela a sorte, dos Antônios.

IX

Antônio poeta, cansa de pensar em Antônio,
e mira a miragem distante, de um mundo distante,
onde Antônios sejam santos
e o pranto de tantos Antônios
não sejam as águas que libertam, outros Antônios.
Não tenho moral para finalizar
ou antes de pensar, finalizo
este ato imoral de ver a vida com olhos do mal.
[O fim será o mesmo].
- exceto o túmulo -
.


In "O Olhar do Mágico"





por Andarilha descalça * 1:14 PM

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[Segunda-feira, Agosto 23, 2004]



Poema do esquecimento

José Angel Buesa
Tradução de Maria Teresa Almeida Pina

Vendo passar as nuvens foi passando a vida,
e tu, como uma nuvem, passaste por meu tédio.
E se uniram então teu coração e o meu,
como se vão unindo as bordas de uma ferida.

Os últimos sonhos e os primeiros cabelos brancos
entristecem de sombra todas as coisas belas;
e hoje tua vida e minha vida são como as estrelas,
pois podem se ver juntas, estando distantes...

Eu bem sei que o esquecimento, como uma água maldita,
nos dá uma sede mais funda que a sede que nos resgata,
porém estou tão seguro de poder esquecer...

E olharei as nuvens sem pensar que te quero,
com o hábito surdo de um velho marinheiro
que ainda sente, em terra firme, a ondulação do mar.




por Andarilha descalça * 10:04 AM

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[Domingo, Agosto 22, 2004]


Vôo absoluto
Odete Ronchi Baltazar

Tatuada a amor em brasa,
meus dias têm a marca da paixão.
Sigo aberta,
_alada_

faço asas
das minhas próprias mãos.
Vôo livre nos céus,
que eu mesma invento
para me manter de pé.
Mergulho sempre inteira neste sonho...
E minha imaginação
é meu alimento,
é minha fé.




por Andarilha descalça * 7:36 PM

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[Sábado, Agosto 21, 2004]


Cântico XXVI
Cecília Meireles

O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...





por Andarilha descalça * 2:32 PM

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[Quinta-feira, Agosto 19, 2004]



Caminho do coração
Arlinda Lamêgo

Caminho que meu coração percorre...
Meu mundo cabe ali, na esquina.
Já fui imortal, invencível.
O mundo cabia na minha mão.
Andei por muitos caminhos.
Mas, sem querer , sem saber ,
Desci a rua, todos os caminhos
Levaram-me na busca da esquina.
Um lugar sagrado,momento especial.
Na dispersão, ficaram fragmentos.
No olhar mudo, risadas sem motivos.
Tudo era azul, como o céu e o mar.
A esquina era ali e eu não via.
Lutei para não ser profunda, visceral.
Ri dos próprios defeitos, sem conselho.
Nada traçado. Ri dos tropeços.
Não quis ser adulta, vi as coisas
Como são:passageiras. Pedi arrego.
Sorri.De mim e do mundo.
Lutei pra meu mundo não ficar cinza.
Em mundo pleno
De engenharia das traições.
Escolher alguém sem desvendar
A vida inteira.
Em propulsão silenciosa (feminina?)
Aceitei-me do jeitinho que sou.
Como presente, comum, entre tantas,
Sem pretensão de ser perfeita.
Indivisível,
Escondida na emoção.
Fui nuvem, busquei esperança
E a mantive. Criei alternativa.
Tentei, tentei...
Marquei encontro diário.Sou cedro.
Um beija-flor invadiu minha casa.




por Andarilha descalça * 8:18 AM

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[Quarta-feira, Agosto 18, 2004]




por Andarilha descalça * 8:24 AM

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[Domingo, Agosto 15, 2004]


Alma gêmea
Clara Luz


Se tua alma sempre me seguiu,
a minha alma sempre te esperou.

Se tua alma sempre me acolheu,
a minha alma sempre te amparou.

Se tua alma sempre me serviu,
a minha alma sempre te embalou.

Se tua alma sempre me sorriu,
a minha alma sempre te abraçou.

Se tua alma sempre me sonhou,
a minha alma sempre, sempre te amou!

E assim
Nossas Almas Gêmeas repletas de Amor
- em suave comunhão -
seguirão docemente para junto de Deus,
Eternamente.

Alma Gêmea da minha
que sempre me pressente e sempre me adivinha
todos os dias te amo mais, sempre mais,
cada vez mais!




por Andarilha descalça * 6:19 PM

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[Sábado, Agosto 14, 2004]


A outra vida
Cassiano Ricardo

Não espero outra vida, depois desta.
Se esta é má
Por que não bastará aos deuses, já,
A pena que sofri?
Se é boa a vida, deixará de o ser,
Repetida.




por Andarilha descalça * 6:34 PM

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[Sexta-feira, Agosto 13, 2004]


Fotografia
Tonho França.

Não pareço mais comigo
Pedaços de mim se perderam
Enquanto o tempo, absorto, passava
E eu, sem estar em mim, nem via...

Não me pareço mais com aquilo
Que eu mais parecia
Hoje me mostro muito
Nas linhas onde eu me escondia.

E quieto observo a decadência.
Dos músculos, das massas, das mãos vazias.
Hoje eu sofro muita a influência
Das verdades que eu defendia.

Não envelheci na face o quanto envelheci
Na alma, órfã de alegria, e não me resta
muita coisa, a não ser alguns versos
E um riso antigo que insiste nesta fotografia.




por Andarilha descalça * 9:11 AM

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[Quinta-feira, Agosto 12, 2004]


POENTE
Judith Domingues Marés González

É tarde talvez pra recitar teu nome
pra cantar as endechas sob as rugas
pra velejar ao vento a todo pano
pra banhar-me nas águas da fortuna.

É tarde talvez pra remover a cinza
amontoada ao longo do caminho
pra desfazer os nós do desengano
pra sorrir outra vez entre os espinhos.

Se me dizes, porém , que sobra ainda
em tuas mãos calor para aquecer-me
em teus lábios o sumo das videiras
em teus passos a ânsia de buscar-me,

desabe o mundo
ao redor
e recriaremos os dois o Paraíso.




por Andarilha descalça * 11:50 AM

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[Quarta-feira, Agosto 11, 2004]


Canção Louca
William Blake

A brava brisa brame
E a noite é fria;
Vem a mim, Sono,
E abraça minha agonia.
Mas arre! O dia prenhe
Preenche já o leste,
E as aves sonoras da aurora
Da terra se escarnecem.

Arre! Para os ares
Da cúpula celeste
Minhas notas partem,
Fartas de pesares.
Elas batem no ouvido da noite,
Molham os olhos do dia
Brincam com tempestades
Enlouquecem a ventania.

Como um demônio na nuvem
Em uivo agudo,
Pela noite eu procuro,
E com a noite me curvo;
Não me serve o leste
Onde o consolo acresce,
Pois a luz agarra meu cérebro
Com dor frenética.

(tradução de Regina de Barros Carvalho)




por Andarilha descalça * 8:55 AM

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[Terça-feira, Agosto 10, 2004]


Poema Ironico
Manuel Bandeira


O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batebdo asas na irrealidade...

Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro linho fique ao pé dele.

Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos teus tecidos.

Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...

Tu te perguntas, curioso, quais
Serão, seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...

E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.

E os teus desejos ferventes vão
Batendo asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.


por Andarilha descalça * 9:06 AM

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[Segunda-feira, Agosto 09, 2004]


Penso

Quando penso
que já sei tudo,
depois de tantos dias,
tantas caminhadas,
tanta vivência...
Depois de tantas noites,
tantos sonhos,
tanto sentimento...

Penso que tudo sei
e quanto mais eu penso,
mais eu sei o quanto esse tudo é nada
e ao pensar
descubro quão importante é o pensamento,
a definição de mim,
a revelação do universo,
o fervilhar do descontentamento,
da evolução insignificante,
repetitiva e irrelevante,
dum saber deslizante
como a água
que só tem essência
no seu movimento
e parando...sabendo,
é tão estéril
como o lodo dum charco.

Por isso prefiro não saber,
correndo em busca do mar da vida

Manuel Neves



por Andarilha descalça * 8:36 AM

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[Sábado, Agosto 07, 2004]



Sonhos de sonhos
Wanderlino Arruda

Passo a passo,
passam os passos
de sonhos bem sonhados
em múltiplas sinergias.

Alma com sol e lua,
estrelas incontadas,
terra e céu,
saudades.
Aqui encanta o canto
com mil matizes.

A sensibilidade vive e vibra
por luminosas dimensões.
O bem-querer cavalga
em cintilantes brisas
de vento-luz.
Felicidade sim.

É acordado o amanhecer:
agora ilumina a sedução
e poetiza vívidas vidas,
vidas revividas.
Múltiplas vidas.




por Andarilha descalça * 8:46 PM

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[Sexta-feira, Agosto 06, 2004]


Elogio da sombra
Jorge Luis Borges

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.




por Andarilha descalça * 12:00 PM

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[Quinta-feira, Agosto 05, 2004]


Poema para Thaís que me fez mãe
Fernanda Guimarães

E tu me escolheste entre tantas mulheres
Olhaste-me sem que eu ainda te visse
Vestindo-te de amor para em mim habitar
E te fizeste botão a florir em meu ventre
Nem te perguntaste se era primavera
Em ti não existiam estações quaisquer
Planejaste chegar em tua mansuetude
Trazida pelos braços amorosos da lua
Que também cúmplice iria se fazer cheia.

Sonhaste em vir, quando sorrissem estrelas
E o vento te embalasse doces canções
E pulsaste vida, onde eu não me conhecia.
Ao ouvires a melodia da minha voz
Respondias-me no ritmo de teus membros
No vôo do teu coração alçavas-me
Quando te entoava apenas o refrão
Daquela canção em que minhas mãos
Dançavam passos de carícias contigo,
Quando somente te sentia dentro de mim.

Perdia-me em gestos, sussurrando-me...
Ah, os segredos que te confidenciava
Nas noites insones, em que te espreguiçavas
Ocupando todos os meus espaços,
Como se até a respiração me levasses.
Parecias querer dizer ao mundo
Que em tuas conversas com Deus
Já havias decidido pelo momento
Em que sorririas em meus braços.

Sim, foste mais que desejada
E quando enfim te deitaste em meu peito
Unindo-te em uníssono ao meu cansaço
Rezei-te na voz do meu silêncio:
Bendita sejas tu filha
Pela Mãe que me tornaste!




por Andarilha descalça * 3:54 PM

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[Quarta-feira, Agosto 04, 2004]



Perfumaria
Flora Figueiredo

Há dias de se acordar tão feminina!
Gata,sereia,bailarina,
sedas,laços e batom.
O corpo é doce,o beijo é bom,
a vida é orquestra; eu,maestrina.
É dia de viver celeremente.
Antes que o encanto rache
ou que o ciclone aumente,
lavo-me em mel e purpurina.
Mas toca o telefone,a flauta desafina,
e eu visto a couraça novamente.




por Andarilha descalça * 11:45 AM

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[Terça-feira, Agosto 03, 2004]





Eternidade
Miguel Torga


A vida passa lá fora,

Ou na pressa de uma roda,

Ou na altura de uma asa,

Ou na paz de uma cantiga;

E vem guardar-se num verso

Que eu talvez amanhã diga.




por Andarilha descalça * 12:46 PM

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[Segunda-feira, Agosto 02, 2004]


Cósmica
Eliane Stoducto

Na cósmica noite fria
Vagando qual um cometa
Minha paixão viaja
Brilhando feito uma estrela
Perdida na imensidão..




por Andarilha descalça * 9:07 PM

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[Domingo, Agosto 01, 2004]


Epigrama no.8
Cecília Meireles

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar quando caí.





por Andarilha descalça * 12:50 AM

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