Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
Clique aqui para ver meu outro blogger

Comments:

[Sexta-feira, Julho 30, 2004]


A canção da vida
Mário Quintana

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)




por Andarilha descalça * 11:08 AM

____________________________

Comments:

[Quinta-feira, Julho 29, 2004]


Bom Dia
Jorge Palma


Hoje eu tenho asas nos pés
Só me apetece dançar
Há tantas caras bonitas
Tantas mãos a acenar
Eu sou um balão colorido e mágico
- Bom dia!

Ontem já passou
Amanhã pode ser bom
Mas hoje é o melhor dia que há
Nem preciso de fé
Eu felizmente não preciso de nada
- Bom dia!

Hoje eu sou um homem contente
Ao serviço do amor
Sou o próprio sonho
E desconheço a dor
Eu sou o vagabundo mais feliz que existe
- Bom dia!

Hoje eu sou mais forte que os deuses
Mais certeiro que a morte
Estou por cima da queda
Mais seguro que a sorte
Eu sou o universo inteiro a sorrir
- Bom dia!





por Andarilha descalça * 10:04 AM

____________________________

Comments:

[Quarta-feira, Julho 28, 2004]


PERDI OS MEUS FANTÁSTICOS CASTELOS
Florbela Espanca

Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? -
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...





por Andarilha descalça * 9:18 AM

____________________________

Comments:

[Terça-feira, Julho 27, 2004]


Legenda dos dias
Raul de Leoni

O Homem desperta e sai cada alvorada

para o acaso das cousas... e, à saída,

leva urna crença vaga, indefinida,

de achar o Ideal nalguma encruzilhada.



As horas morrem sobre as horas. Nada!

E ao Poente, o Homem, com a sombra recolhida,

volta pensando: "Se o Ideal da Vida

não veio hoje, virá na outra jornada"...



Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,

mais ele avança, mais distante é o fim,

mais se afasta o horizonte pela esfera...



E a Vida passa. . . efêmera e vazia:

um adiamento eterno que se espera,

numa eterna esperança que se adia.




por Andarilha descalça * 4:10 PM

____________________________

Comments:

[Segunda-feira, Julho 26, 2004]



Sono das águas
Guimarães Rosa

"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono..."




por Andarilha descalça * 4:44 PM

____________________________

Comments:

[Sexta-feira, Julho 23, 2004]


Cântico IV
Cecília Meireles


Tu tens medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então será eterno.




por Andarilha descalça * 11:22 AM

____________________________

Comments:

[Quinta-feira, Julho 22, 2004]

Anjos do Céu
Álvares de Azevedo

As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d'escuma revolvem-se nus!
E quando de noite vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear,
E a trança luzente da nuvem flutua,
As ondas são anjos que dormem no mar!
Que dormem, que sonham- e o vento dos céus
Vem tépido à noite nos seios beijar!
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!
E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar:
São beijos que queimam... e as noites deliram,
E os pobres anjinhos estão a chorar!
Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar,
Por que não consentes, num beijo de amor
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?



por Andarilha descalça * 2:59 PM

____________________________

Comments:

[Quarta-feira, Julho 21, 2004]


"Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta - por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar."

Sophia de Mello Breyner Andresen




por Andarilha descalça * 8:18 AM

____________________________

Comments:

[Terça-feira, Julho 20, 2004]


Poema-Mulher

Aníbal Albuquerque


O poema

é como um corpo

de mulher.



Há de ser suave,

leve, belo.

Há de possuir

pontos sensíveis,

em que um simples toque

o faça vibrar.

Há de ser forte

e delicado,

flexível,

mas inquebrável.



Para alguns impenetrável.

Para alguém especial,

é aberto, transparente, claro.




por Andarilha descalça * 12:22 PM

____________________________

Comments:

[Segunda-feira, Julho 19, 2004]


Poema de oferta
Roberto Pontes


Que pode o sapateiro dar de melhor
ao amigo, no dia do seu aniversário?
E o pescador, hesitaria em dar-lhe peixes frescos?
E o lavrador, os cajus que então plantara?
O artesão daria um cesto ou uma talha.
A bordadeira, seu tecido de alvo fio.
O vinhateiro, moringa cheia de vinho
E a floreira, o mais formoso ramalhete.


Que posso dar-te no teu aniversário?
Ouro? ¿ Mas eu não sou garimpeiro...
Roupas? ¿ Também não sou alfaiate...
Aves? ¿ Um dia fui passarinheiro...


Algo de mim é o que vou dar-te
Pelas mãos padecentes
Dos que sustentam a vida.
Pelas mãos sagradas
Dos mais anônimos operários.


Dou-te, meu amigo, minha amiga, um poema,
Que este é o meu trabalho.




por Andarilha descalça * 8:40 AM

____________________________

Comments:

[Sexta-feira, Julho 16, 2004]


Pai Nosso

Wanderlino Arruda

A ti, Senhor, que és
pleno de luz e de amor,
e estás nos céus e em toda parte,
onde o teu nome é sempre bendito e santificado.
em constante e eterna bondade.
A ti, Senhor, apresentamos nosso pedido:
dá-nos o teu reino
de alegria, de compreensão;
a tua vontade e não a nossa seja feita,
aqui, onde estamos, aí onde estás e estaremos um dia;
o pão da saúde, da disposição ao trabalho,
do entender e ser entendido,
do amar e ser amado,
dá-nos hoje, dá-nos sempre, Senhor.
Ainda caminhantes no erro,
dá-nos o teu perdão e o ensinamento
de como devemos perdoar.
À criança que existe ainda em cada um
dá, Senhor, a tua proteção.
Liberta-nos do mal,
ampara-nos no caminho do bem,
pois teu, Senhor, somente teu,
é o poder, o reino e a glória
para sempre,
para todo o sempre.




por Andarilha descalça * 11:27 AM

____________________________

Comments:

[Quinta-feira, Julho 15, 2004]


AS PALAVRAS
Maria da Graça

São as palavras...
Como estrelas, espadas ou, flores.
São brinquedos as palavras.
Palavras são palavras.
Elas têm raízes, misérias e sépalas.
Tem espinhos, carinhos e pétalas.
São leves, ásperas ou, escorregadias.
São bonitas, cheias de cores.
Curam qualquer tristeza, muitas dores.
Gravadas por amores.
Para senti-las basta um vento...
Em uma aura clara.
Que até molham quando afagam,
num dado tempo ou num, momento,
silenciosas invadem o pensamento.
Vão seguindo como pássaros...
Soltas, leves pelo mundo e pelo espaço.
Às vezes absurdas, sem destino,
Promovem rubores e um desalinho.
Em tempo, vão encontrando um caminho.




por Andarilha descalça * 4:34 PM

____________________________

Comments:

[Quarta-feira, Julho 14, 2004]


Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado
que ainda não passou,
é recusar um presente que
nos machuca, é não ver o futuro
que nos convida...
Saudade é sentir que existe
o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
"aquela que nunca amou."
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido..."

(Pablo Neruda)




por Andarilha descalça * 8:55 PM

____________________________

Comments:

[Terça-feira, Julho 13, 2004]


Segredos

Odete Ronchi Baltazar*

Conta-me das tuas andanças
e das tuas fogueiras que,
em noites insones,
consumiram sonhos e
iluminaram pesadelos.
Fala-me das tuas nuvens
em tempos de chuvas e temporais.
Conta-me dos teus dias,
alegres ou tristes,
diferentes ou iguais.
Canta-me as tuas canções
que entoavas em silêncio
com medo de acordar.
Conta-me de teus suspiros
e de teus soluços
e de teu chorar.
Sussurra-me os nomes
que não queres mais gritar.
Desenha-me os sonhos e as danças
que tens escondidos em tuas mãos.
Alcança-me teus braços e,
depois,
fica para sempre quieto,
em paz,
em meu regaço.
Não serás mais triste,
eu te prometo!
Nunca mais.




por Andarilha descalça * 4:41 PM

____________________________

Comments:

[Segunda-feira, Julho 12, 2004]


Epígrafe

Eugénio de Castro

"Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa..."




por Andarilha descalça * 12:51 PM

____________________________

Comments:

[Domingo, Julho 11, 2004]


EU QUERO ESTA MULHER
Roberto Carlos Pontes


Úmida no orvalho da manhã
Que arranha e dilacera
Enquanto penetro em suas montanhas
Que geme e morde como fera .


Uma mulher que chove
Chove quando ama
Chove mais ainda quando desama
E desarma o silêncio que nos segue.

Uma floresta fechada
Com o amor crescendo a minha volta
Para eu esquecer que sou homem e civilizado
E amar a vida, como amam os loucos e os perdidos .

Uma mulher que me faça perder o rumo
E ora me sufoque, ora me alimente
Ora me faça homem, ora menino
Uma mulher, que uma vida não desvende.




por Andarilha descalça * 4:03 PM

____________________________

Comments:

[Sábado, Julho 10, 2004]


Musica incidental - Trenzinho Caipira - Villa Lobos
Reginaldo Bessa - Compositor

O tempo não pára no porto,
não apita na curva,
não espera ninguém.
O medo correndo nas veias
deixou tanta coisa pra trás
e a gente ficou de mãos cheias
com coisas que não valem mais
e fica um gosto de usado
naquilo que nem se provou
a gente dormiu acordado
e o tempo depressa passou.




por Andarilha descalça * 6:27 PM

____________________________

Comments:

[Terça-feira, Julho 06, 2004]



Fragmento imperfeito
Lya Luft

...Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério

A quatro mãos
escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério...




por Andarilha descalça * 9:13 PM

____________________________

Comments:

[Segunda-feira, Julho 05, 2004]


Eis-me
Sophia de Mello Breynner

Eis-me,
tendo-me despido de todos os meus mantos
tendo-me separado de adivinhos, mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes
O ausente
Nem o teu ombro me apoia
Nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas
Do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para lá do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes
O ausente¿.




por Andarilha descalça * 11:33 AM

____________________________

Comments:

[Domingo, Julho 04, 2004]


Limites do Amor
Affonso Romano de Sant'Anna


Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar.




por Andarilha descalça * 5:12 PM

____________________________

Comments:

[Sábado, Julho 03, 2004]


Hino à Vida
Lou Andréas-Salomé

Com certeza é assim que um amigo
ama ao amigo:
assim como eu te amo, enigmática vida!
Se eu em ti me alegrei, se chorei,
se me deste sofrimento ou prazer
eu te amo com toda tua felicidade e aflição,
e se deves me aniquilar,
arrancar-me-ei dolorosamente a teus braços,
como um amigo se arranca do peito do amigo.

Com toda a força eu te abraço,
deixa tua chama acender meu espírito e,
no calor da contenda, achar a resposta
para o enigma de tua essência!

Teu conteúdo despeja milênios para se meditar
e viver! Derrama dentro tudo o que tens!
Se não te resta mais nenhuma felicidade
para me presentear, que seja!
Ainda tens tua dor...




por Andarilha descalça * 12:07 AM

____________________________

Comments:

[Sexta-feira, Julho 02, 2004]


"Sem poder sonhar"
Florbela Espanca

Eu nao quero ser nenhuma cor,
apenas respirar pelos meus meios.
Nao que me considere um Senhor,
Neste mundo de bonitos e feios.

Nao procuro uma vida excelente,
pois so' pretendo ser quem eu sou.
Sou alguem que veio do Ocidente,
e para outras paragens vou.

Cruzei caminhos para ca' estar.
Mas se matasse o arrependimento,
dava tudo para o destino alterar.
Deixava-me ficar no esquecimento.

Tudo isto porque ainda eu nao sei,
se vale a pena seguir para a frente.
Neste reino falo com o Rei,
e cruzo fronteiras com o Presidente.

Ninguem escapa a esta natureza,
pois todos fomos feitos da terra.
Hoje sao as manias de riqueza
que leva a muitos, fazer a guerra.

Numa batalha sao matadores
que ferem vidas, o' vil ingratos.
Ha' anos que nao chovem amores,
nem Deus que apague maus factos.

Mesmo que nos vivessemos em paz,
nao passava de uma hipocrisia.
Para alguns essas coisas tanto faz.
E era ver se o mundo nao sofria.

Este homem que em mim existe,
nao e' parte primordial do ser,
pois mais de uma vez ele desiste,
respirando so' para nao morrer.

Nao havendo herois hoje em dia,
cada um segue para o seu lado.
Saber se algum vizinho sentia,
o explodir a bomba, o atentado.

Mas no fundo de mim eu guardo,
um dia para poder alcançar,
todo o corpo de alguem suado
que passou anos sem poder sonhar.




por Andarilha descalça * 11:22 AM

____________________________

Comments:

[Quinta-feira, Julho 01, 2004]


SÓ O SORRISO É ETERNO*

Meus filhos são meus braços,
estendidos na direita do futuro.

Em meu nome eles cuidarão de detalhes
que o tempo não permitiu entender:
uma conta não paga,
alguma carta não respondida,
um pedido extemporânio de desculpas,
alguma semente por lançar
ou uma luz que esqueci acesa.
Ajeitarão alguma ausência social
("Papai lamenta não ter comparecido.
Ele precisou morrer no dia da sua festa.
Outro dia quem sabe...")

As mãos de meus filhos,
que, novas, ainda recendem a inocência,
afagarão meus amigos
até que o tempo lhes tenha varrido da mente
a minha imagem.

Então tudo terá voltado ao normal:
As águas dos mares continuarão verde-azuladas,
os arco-íris acontecerão regularmente
e eu estarei reduzido as dimensões de uma foto.

E um dia qualquer, abrindo um álbum,
a minha neta dirá entre surpresa e contente:
- "Mamãe, o vovô está rindo..."

Solange Reck

*=Classificada no concurso literário/99
=Vertido para o inglês e publicado nos EUA.




por Andarilha descalça * 11:12 AM

____________________________