Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Quarta-feira, Junho 30, 2004]


Soneto da Saudade

Guimarães Rosa


Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!
Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E a te expressar que este amor em nós ungido
Suportará toda distância sem problemas...
Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda a ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos...
Nem a distância apaga a chama da paixão.





por Andarilha descalça * 11:58 AM

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[Terça-feira, Junho 29, 2004]


Mulher ao Espelho
Cecília Meireles

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal fez, essa cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se é tudo tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.





por Andarilha descalça * 11:28 AM

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[Segunda-feira, Junho 28, 2004]


Aquela janela virada pro mar
(Tristão da Silva)

Cem anos que eu viva não posso esquecer-me
Daquele navio que eu vi naufragar
Na boca da Barra tentando perder-me
E aquela janela virada pro mar

Sei lá quantas vezes desci esse Tejo
E fui p'lo mar fora com a alma a sangrar
Levando na ideia os lábios que invejo
E aquela janela virada pro mar

Marinheiro do mar alto
Quando as vagas uma a uma
Prepararem-te um assalto
Pra fazer teu barco em espuma

Reparo na quilha brilhando na crista
Das vagas gigantes que o querem tragar
Se não tens cautela não pões mais a vista
Naquela janela virada pro mar

Se ainda houvesse mais fortes correra
Lembrando-me noites de meio do luar
Dos olhos gaiatos que estavam à espera
Naquela janela virada pro mar

Mas quis o destino que o meu mais que dou
E já velho e cansado visse encalhar
Na boca da Barra e mesmo defronte
Naquela janela virada pro mar

Marinheiro do mar alto
Olha as vagas uma a uma
Preparando-te um assalto entre montes de alva espuma
Por mais que elas bailem numa louca orgia
Não trazem desejos de me torturar
Como aquela doida que eu deixei uma dia
Naquela janela virada pro mar .





por Andarilha descalça * 2:56 PM

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[Domingo, Junho 27, 2004]



Esperança
MARIO QUINTANA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
¿ ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
¿ Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

¿ O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA ...




por Andarilha descalça * 3:47 PM

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[Sábado, Junho 26, 2004]



Quarto Poema
Elizabeth Hazin


O que é mais longo do que um caminho?
O que chora no escuro além da fonte?
O que vai, não volta e nunca é longe?
O que machuca essa boca é o amargo espinho?
Por que tem a saudade a cor do plátano?
Era vidro. Sabias quando o deste?
(Por que flutua assim sem que se quebre?)
Era pouco. Sabias quando o tinhas?
(Por que flutua assim sem que se acabe?)
E as promessas? e os sonhos? e as carícias?
Estava escrito nos astros o encontro?
Não nos dera o poema um dia apenas?
Por que não pode o sonho contra o tempo?
Por que não pode o tempo contra o sono?




por Andarilha descalça * 10:21 AM

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[Sexta-feira, Junho 25, 2004]


Amor

Amor, co'a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar-me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto o quis aquela que eu adoro:
Nelas podes tomar de mim vingança;
e, se inda não estás de mim vingado,
contenta-te co'as lágrimas que choro .
(Luiz Vaz de Camões)




por Andarilha descalça * 7:17 PM

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[Quinta-feira, Junho 24, 2004]


CREPÚSCULO
Fausto Rodrigues

Um grito cinde o crepúsculo
e gritos invadem o quarto.
A noite invade o domínio
dos gritos, sangra o crepúsculo,
rebelam-se as sombras das cores.
A cor dos gritos, a cor da noite
é selvagem como o crepúsculo.
O silêncio, o silêncio, o silêncio
oculta os gritos dentro da noite.




por Andarilha descalça * 9:37 PM

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[Quarta-feira, Junho 23, 2004]



Eu quero a fonte
Lysa Minalba

Eu quero a fonte
... do desconhecido que contém
todas as coisas...


Eu quero a fonte
... do já percebido,
que esqueci como é,
de tanto ver...


Eu quero a fonte
... da fonte, que
não sei onde está.


Mas, eu quero a fonte
que sei... vou encontrar,
por que, como eu,
ela está a me buscar...




por Andarilha descalça * 12:33 PM

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[Terça-feira, Junho 22, 2004]


Os pés
Mário Quintana


Meus pés no chão
Como custaram a reconhecer o chão!
Por fim os dedos dessedentaram-se no lodo macio,
agarraram-se ao chão...
Ah,que vontade de criar raizes!




por Andarilha descalça * 1:43 PM

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[Segunda-feira, Junho 21, 2004]


Coisa Abstrata
Cláudia Letti

Já tomou conta de mim, o receio,
Essa dor.
A antecipação...
Pisa forte, fundo nas minhas entranhas,
nos meus sentidos.
A profundidade...
Entra, cava, abre caminhos, não pede licença.
A eterna angústia...
Me sacode, derruba, suga energia, machuca,
Não pede perdão.
Depois me afaga, me embala, me anima, embriaga
A felicidade...
Antes, porém, se define, se retrata, quase me mata.
É coisa abstrata...
Paixão.




por Andarilha descalça * 8:30 AM

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[Domingo, Junho 20, 2004]


Poema romântico
Wanderley Cabral Xavier

Se tu quiseres, minha flor,

Eu cantarei, de canto em canto,

Toda a tua beleza e calor,

Direi a toda gente o teu encanto.

Não direi que tu nasceste ontem,

Nem que amanhã tu morrerás;

Direi apenas que é para mim que vives

E que em mim nunca te extinguirás!




por Andarilha descalça * 6:54 PM

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[Sábado, Junho 19, 2004]


POR TI
Solange Rech

Si no fuera por ti,
yo ni me habría dado cuenta de que las flores se abrieron
para embellecer nuestro día.

Si no fuera por ti
mi vida, al revés de un paseo,
habría sido um monótono caminar
entre piedras y cardos.

Si no fuera por ti,
yo no tendría ojos para ver que el horizonte me llama,
pues estaría ocupado con mi pequeñez
de hombre solo.





por Andarilha descalça * 7:20 PM

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[Sexta-feira, Junho 18, 2004]


Separação de bens
(Dalva Agne Lynch)

Você fica com a razão.
Eu fico com os dias ensandecidos
com o vento nos seus cabelos
com o canto final do sol
no dourado da sua pele.

Você fica com a verdade.

Eu fico com os raios da lua
com os sussurros sem nexo
os beijos loucos, dementes
com a obsessão dos corpos.

Você fica com o direito.

Eu fico com as horas de gozo
com o ruído das folhas das árvores
com seus dedos tecendo anseios
na brancura do meu corpo

Você fica com o que é certo.

Eu fico com a incerteza
com a beleza do instante sem continuidade
com o momento perdido entre as horas
com a eternidade perdida no momento.

Você fica, meu amor.

Eu sigo.




por Andarilha descalça * 11:14 AM

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[Quinta-feira, Junho 17, 2004]


A mais bela poesia escrita pela nossa mãe natureza:
ORQUÍDEA.

Andarilha descalça




por Andarilha descalça * 9:51 AM

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[Quarta-feira, Junho 16, 2004]


Passeio ao campo
Florbela Espanca

Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! -

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras...




por Andarilha descalça * 9:24 PM

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[Terça-feira, Junho 15, 2004]


Se tu vens, por exemplo,
às quatro da tarde,
desde as três eu começarei a ser feliz.


(O Pequeno Príncipe)
(Antoine de Saint-Exupéry)



por Andarilha descalça * 10:42 AM

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[Segunda-feira, Junho 14, 2004]


Lépida e leve
Gilka Machado

Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
O verso não descreve...
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em seu labor,
gostos de afagos de sabor.


És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesmo acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.


Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.


Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!


¿ Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
¿ Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação,
és o elástico da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
¿ Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...


Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me veste quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...


Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inféria e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...


Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...




por Andarilha descalça * 9:07 AM

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[Sábado, Junho 12, 2004]


Dia dos Namorados

Dá licença?
Quero ser sua namorada a vida inteira, pois tenho uma reserva imensa de ternurinhas e meninice arteira.
Quero brincar como nos primeiros dias de namoro sem declaração. Curtir as pequenas alegrias como quem não quer nada de novo não (mas quer, pois homem não é mais simples que mulher).
Pegar é claro, nos teus dedos só pra verem como reagem e, achando graça dos teus falsos medos, murmurar: Coragem! Fingir que me esqueci no combinado no parque, para ver se sentes falta de mim e surgir da moita de capim, com o meu olhar luzindo, dizer: que engraçado! Mas você por aqui, meu querubim?


Ou me esconder atrás da porta, miando que nem gato, e continuar miando, já reconhecido, a fazer o estranhíssimo relato de que uma fada torta me transformou num bicho assim todo encolhido.


Quero te dar bombons, e ora veja! Pedir que me passes a cereja de boca a boca! É mais gostoso se a trincarmos a sós, enquanto os dedos vão tecendo uma carícia lenta e silenciosa, mas tão eletrizante que só vendo.
Y otras cositas mais, que nem te conto é minha sempre namorada. Mas de certo adivinhas este conto, o mesmo de antes e a cada hora diferente, assim como é a gente que se ama de antigo amor presente e não se cansa e nem vai se cansar de um certo suave e ardente, antigo e encantador: NAMORADOR!

Desconheço o autor.





por Andarilha descalça * 2:20 PM

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[Sexta-feira, Junho 11, 2004]


Estudo
Vinicius de Moraes

Meu sonho (o mais caro)
Seria, sem tema
Fazer um poema
Como um dia claro.

E vê-lo, fantástico
No papel pautado
Ser parte e teclado
Poético e plástico.

Com rima ou sem rima
Livre ou metrificado
-Contanto que exprima
O impropositado.

E que ( o impossível
Talvez desejado)
Não fosse passível
De ser declamado.

Mas que o sonho fique
Na paz sine-die
Ça c`est la musique
Avant la poésie.




por Andarilha descalça * 6:37 PM

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[Quinta-feira, Junho 10, 2004]


O Amor
(Vladimir Maiakóvski)

Talvez, quem sabe, um dia...
por uma alameda do zoológico,
ela também chegará...
Ela que também amava os animais...
Entrará sorridente assim como está,
Na foto sobre a mesa...

Ela ... é tão ... bonita!!!
Ela é tão bonita que na certa, eles a ressuscitarão...
O século trinta vencerá...
o coração destroçado já...
Pelas mesquinharias...
Agora vamos ... alcançar,
tudo o que não podemos amar...
na vida...
Com o estrelar ... das noites inumeráveis.

Ressuscita-me!!!
Ainda que mais não seja,
porque sou poeta,
e ansiava o futuro...

Ressuscita-me!!!
Lutando contra as misérias, do cotidiano,
Ressuscita-me por isso...

Ressuscita-me!!!
Quero acabar de viver o que me cabe... minha vida...
para que não mais existam ... amores servis.
Ressuscita-me!!!
Para que ninguém mais tenha, de sacrificar-se,
por uma casa, ou um buraco....
Ressuscita-me!!!
Para que a partir de hoje, a partir de hoje,
a família se transforme...

...e o pai...
seja pelo menos o Universo...
... e a mãe ...
seja no mínimo...
A Terra...
A Terra...
A Terra...




por Andarilha descalça * 7:06 PM

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[Quarta-feira, Junho 09, 2004]


SOU MULHER
Ivone Boechat

Sou mulher,
com as aflições e a inspiração do poeta,
o esplendor e a serenidade... das mães!
Sou uma canção de ninar!
Experimentadora dos sabores do tempo...
Estrela da constelação familiar.
Sou letra e música da canção
Do mais puro sentimento,
Que a mulher é capaz de cultivar.
Sou feita com a síntese
Do segredo de amar!
Tenho duas fases: minguante e cheia,
Assim como o luar!




por Andarilha descalça * 12:22 PM

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[Terça-feira, Junho 08, 2004]


A ÚLTIMA ROSA DO VERÃO


É a última rosa
Do Verão, sozinha;
Nenhuma outra resta
Formosa e vizinha,
Nenhuma irmã sua
ou botão de rosa
Responde aos suspiros
Que exala, formosa.

Não quero deixar-te
Sozinha a florir:
Tuas irmãs dormem,
Vai também dormir.
Por isso eis que espalho
Tuas folhas no chão,
Onde as irmãs tuas
Já mortas estão.

Tão breve eu vá quando
Os que amo fugirem,
E do anel do amor
As jóias caírem.
Caídos os que ama
No sono profundo,
Quem habitaria
Sozinho este mundo?


(Thomas Moore - tradução de Fernando Pessoa)




por Andarilha descalça * 9:27 AM

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[Segunda-feira, Junho 07, 2004]


Amores finitos
Ana Paula Mangeon

Até mesmo
o amor-perfeito
um dia despetala.





por Andarilha descalça * 9:51 AM

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[Sábado, Junho 05, 2004]


Quem namora
Artur da Távola


Quem namora agrada a Deus.
Namorar é a forma bonita de viver um amor.
Não namora quem cobra nem quem desconfia.
Namora, quem lê nos olhos e sente no coração
as vontades saborosas do outro.

Namora, quem se embeleza em estado de amor.
Namora, quem suspira, quem não sabe esperar mas espera,
quem se sacode de taquicardia e timidez diante da paixão.
Namora, quem ri por bobagem, quem sente frios e calores
nas horas menos recomendáveis.

Não namora quem ofende, quem transforma
a relação num inferno, ainda que por amor.
Amor às vezes entorta, sabia?
E quando acontece, o feito pra bom faz-se ruim.
Não namora quem só fala em si e deseja o parceiro
apenas para a glória do próprio eu.

Não namora quem busca a compreensão
para a sua parte ruim.
O invejoso não namora. Tampouco o violento!
Namorados que se prezam têm a sua música.
E não temem se derreter quando ela toca.
Ou, se o namoro acabou, nunca mais dela se esquecem.

Namorados que se prezam gostam de beijo, suspiro,
morderem o mesmo pastel, dividir a empada, beber no
mesmo copo. Apreciam ternurinhas que matam de vergonha
fora do namoro ou lhes parecem ridículas nos outros.

Por falar em beijo, só namora quem beija de mil maneiras
e sabe cada pedaço e gostinho da boca amada. Beijo de
roçar, beijo fundo, inteirão, os molhados, os de língua,
beijo na testa, no seio, na penugem, beijo livre como o
pensamento, beijo na hora certa e no lugar desejado. Sem
medo nem preconceito. Beijo na face, na nuca e aquele
especial atrás da orelha, no lugar que só ele ou ela
conhece.

Namora, quem começa a ver muito mais no mesmo
que sempre viu e jamais reparou. Flores, árvores, a santidade, o perdão, Deus,
tudo fica mais fácil para quem de verdade sabe o que é namorar.
Por isso só namora quem se descobre dono de um lindo amor.

Só namora quem não precisa explicar, quem já começa a
falar pelo fim, quem consegue manifestar com clareza e
facilidade tudo o que fora do namoro é complicado.

Namora, quem diz: "Precisamos muito conversar"; e quem é
capaz de perder tempo, muito tempo, com a mais útil das
inutilidades e pensar no ser amado, degustar cada
momento vivido e recordar palavras, fotos e carícias com
uma vontade doida de estourar o tempo e embebedar-se de
flores astrais.

Namora, quem fala da infância e da fazenda das férias,
quem aguarda com aflição o telefone tocar e dá um salto
para atendê-lo antes mesmo do primeiro "trim". Namora,
quem namora, quem à toa chora, quem rememora,
quem comemora datas que o outro esqueceu.
Namora, quem é bom, quem gosta da vida,
de nuvem, de rio gelado e parque de diversões.

Namora, quem sonha, quem teima, quem vive morrendo de
amor e quem morre vivendo de amar.




por Andarilha descalça * 7:52 PM

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[Sexta-feira, Junho 04, 2004]


Salmo à Boa Mulher

Celebra a boa mulher, porque ela é boa
porque o seu amor sempre faz bem!

Celebra a boa mulher de todo teu coração
na intimidade dos teus amigos.

Faz com que todo o povo a celebre
e que esteja sempre em alto lugar.

Grandes são as obras da boa mulher,
dignas de louvor para quem a ama.

Seu amor é esplendor e majestade
seus feitos não cairão no esquecimento.

Ela ama aos que ama e odeia aos que odeia
ela não é como as outras: ela é justa.

Ela nunca se apressa em perdoar,
mas aplica ao que merece, o castigo.

Cultua a boa mulher, porque ela é boa
porque o seu amor sempre faz bem!

Queira a boa mulher como se não houvesse
mais outra mulher para ser querida.

O corpo da boa mulher é um sacrário,
não o profane com o amor parcial.

Toca sempre o corpo da boa mulher
como se tocasse em anjos celestes.

Penetra no corpo da boa mulher
como se possuído por mil demônios.

Dilacera suas virginais entranhas
e planta bem fundo a sua semente.

Protege com sua alma a boa mulher,
porque ela é a força de sua alma.

Adora a boa mulher, porque ela é boa
porque o seu amor sempre faz bem!

By

Géber R.Accioly (RHOMANO)




por Andarilha descalça * 3:00 PM

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[Quinta-feira, Junho 03, 2004]


A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste a vida geral, a com uma quiescência de viver
e explorar os rumos de obscuridade sem prazo,
sem consulta, sem provocação,
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais
grave do que o ato sem continuação,
o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão de sentir saudade de ti...
simples apertar de mãos, nem isso,
voz modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre a certeza e segurança. Sim, tenho saudades.Sim, acuso-te
por que fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza.

Nem nos deixaste sequer o direito de indagar
por que o fizeste,
por que te foste ...

Carlos Drummond de Andrade



por Andarilha descalça * 8:28 AM

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[Quarta-feira, Junho 02, 2004]


DESEJOS VÃOS

Eu q'ria ser o mar de altivo porte
O mar enorme, a vastidão imensa...
Eu q'ria ser a árvore que não pensa
Que ri do mundo vão e até da morte...

Eu q'ria ser o sol, a luz intensa,
O bem de que é a humildade e não tem sorte!
Eu q'ria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão até a morte!

Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem aos céus, os braços, como um crente!

E o sol ativo e forte, ao fim do dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas pisa-as toda gente!...

Florbela Espanca




por Andarilha descalça * 3:47 PM

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[Terça-feira, Junho 01, 2004]


Ode à Poesia
Pablo Neruda


Perto de cinquenta anos

caminhando

contigo, Poesia.

A princípio

me emaranhavas os pés

e eu caía de bruços

sobre a terra escura

ou enterrava os olhos

na poça

para ver as estrelas.

Mais tarde te apertaste

a mim com os dois braços da amante

e subiste

pelo meu sangue

como uma trepadeira.

E logo

te transformaste em taça.

Maravilhoso

foi

ir derramando-te sem que te consumisses,

ir entregando tua água inesgotável,

ir vendo que uma gota

caia sobre um coração queimado

que de suas cinzas revivia.

Mas

ainda não me bastou.

Andei tanto contigo

que te perdi o respeito.

Deixei de ver-te como

náiade vaporosa,

te pus a trabalhar de lavadeira,

a vender pão nas padarias,

a tecer com as simples tecedoras,

a malhar ferros na metalurgia.

E seguiste comigo

andando pelo mundo,

contudo já não eras

a florida

estátua de minha infância.

Falavas

agora

com voz de ferro.

Tuas mãos

foram duras como pedras.

Teu coração

foi um abundante

manancial de sinos,

produziste pão a mãos cheias,

me ajudaste

a não cair de bruços,

me deste companhia,

não uma mulher,

não um homem,

mas milhares, milhões.

Juntos, Poesia,

fomos

ao combate, à greve,

ao desfile, aos portos,

à mina

e me ri quando saíste

com a fronte tisnada de carvão

ou coroada de serragem cheirosa

das serrarias.

Já não dormíamos nos caminhos.

Esperavam-nos grupos

de operários com camisas

recém-lavadas e bandeiras rubras.



E tu, Poesia,

antes tão desventuradamente tímida,

foste

na frente

e todos

se acostumaram ao teu traje

de estrela cotidiana,

porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,

cumpriste tua tarefa,

teu passo entre os passos dos homens.

Eu te pedi que fosses

utilitária e útil,

como metal ou farinha,

disposta a ser arada,

ferramenta,

pão e vinho,

disposta, Poesia,

a lutar corpo-a-corpo

e cair ensanguentada.



E agor,

Poesia,

obrigado, esposa,

irmã ou mãe

ou noiva,

obrigado, onda marinha,

jasmim e bandeira,

motor de música,

longa pétala de ouro,

campana submarina,

celeiro

inextinguível,

obrigado

terra de cada um

de meus dias,

vapor celeste e sangue

de meus anos,

porque me acompanhaste

desde a mais diáfana altura

até a simples mesa

dos pobres,

porque puseste em minha alma

sabor ferruginoso

e fogo frio,

porque me levantaste

até a altura insigne

dos homens comuns,

Poesia,

porque contigo,

enquanto me fui gastando,

tu continuaste

desabrochando tua frescura firme,

teu ímpeto cristalino,

como se o tempo

que pouco a pouco me converte em terra

fosse deixar correndo eternamente

as águas de meu canto.





por Andarilha descalça * 8:48 AM

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