Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Segunda-feira, Maio 31, 2004]
por Andarilha descalça * 1:13 PM
[Sexta-feira, Maio 28, 2004]
DESCOMPASSO DE UMA MULHER
Hilma Ranauro
Me querem mãe,
e me querem fêmea.
Me querem líder,
e me fazem submissa.
Me fazem omissa,
e me cobram participação.
Me impedem de ir,
e me cobram a busca.
Me enclausuram nas prendas do lar,
e me cobram conscientização.
Me podam os movimentos,
e me querem ágil.
Me castram o desejo,
e me querem no cio.
Me inibem o canto,
e me querem música.
Me apertam o cinto,
e me cobram liberdade.
Me impõe modelos, gestos,
atitudes e comportamentos,
e me querem única.
Me castram, me podam,
falam e decidem por mim,
e me querem plena e absoluta.
Que descompasso !
por Andarilha descalça * 3:23 PM
[Quinta-feira, Maio 27, 2004]
Alceu Wamosy
Ária Antiga
Chora o orvalho da luz sobre a rosa do dia
que se fecha. O jardim todo lembra um altar
para o qual sobe o incenso azul da nostalgia,
e onde os lírios estão de joelhos, a rezar.
Tu cantas para mim. Tua voz, triste e mansa,
vem trazendo, a gemer, dos confins da lembrança,
qualquer coisa de velho, onde a vida se esfume.
Quando a voz adormece um fantasma desperta.
A tua boca é como uma rosa entreaberta
que a saudade acalante e o passado perfume.
E essa velha canção que o teu lábio cicia,
no momento em que a tarde adormece no olhar,
enche o meu coração de uma vaga harmonia,
de um desejo pueril de ser bom, e chorar...

por Andarilha descalça * 3:10 PM
[Quarta-feira, Maio 26, 2004]
Eu nada sei
Letícia Thompson
Não sei escrever tudo o que sinto,
mas sei sentir
e com um amor imenso cada pedacinho da vida.
Não sei amar de morrer porque para mim amar é viver.
Não sei sonhar todos os meus sonhos,
só sei sonhar o que o meu coração pede.
Não sei dar tudo de mim,
mas me esforço para dar o que posso.
Não sei quase nada da vida,
mas sei que é bom existir.
Tudo o que eu sei é que a vida é linda
e que enquanto houver um mínimo de ternura
para oferecer, a vida vale a pena viver.
por Andarilha descalça * 1:38 PM
[Terça-feira, Maio 25, 2004]
ARCO ÍRIS
Ana Carolina Falabella
Vinha vindo
de distâncias
muito brancas
com o passado
de um vermelho
que sangrava....
Tinha os olhos
de um castanho
triste, tristes ...
e a dor
acinzentada
dos sozinhos....
Era cores !
era em cores,
Arco -íris !
Quero dar-lhe
todo o rosa
da alegria.....
Só não sei
se sua alma
aceitaria :
opção
de noite negra
já foi feita.....
Já foi feita !
Eu não sei
se mudaria.....
por Andarilha descalça * 9:47 AM
[Segunda-feira, Maio 24, 2004]
O Inútil Luar
Manoel Bandeira
"É noite. A Lua, ardente e terna,
Verte na solidão sombria
A sua imensa, a sua eterna
Melancolia...
Dormem as sombras na alameda
Ao longo do ermo Piabanha.
E dele um ruído vem de seda
Que se amarfanha...
No largo, sob os jambolanos,
Procuro a sombra embalsamada.
(Noite, consolo dos humanos! Sombra sagrada!)
Um velho senta-se ao meu lado.
Medita. Há no seu rosto uma ânsia...
Talvez se lembre aqui, coitado!
De sua infância.
Ei-lo que saca de um papel...
Dobra-o direito, ajusta as pontas,
E pensativo, a olhar o anel,
Faz umas contas . . .
Com outro moço que se cala,
Fala um de compleição raquítica.
Presto atenção ao que ele fala:
- É de política.
Adiante uma senhora magra,
Em ampla charpa que a modela,
Lembra uma estátua de Tanagra.
E, junto dela,
Outra a entretém, a conversar:
- "Mamãe não avisou se vinha.
Se ela vier, mando matar
Uma galinha.
" E embalde a Lua, ardente e terna,
Verte na solidão sombria
A sua imensa, a sua eterna
Melancolia..."
por Andarilha descalça * 10:09 AM
[Domingo, Maio 23, 2004]
Fazer da areia, terra e água uma canção
Depois, moldar de vento a flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais que puro som
envolverá o sonho da canção
por todo o sempre, neste mundo.
(Carlos Drummond de Andrade)
por Andarilha descalça * 4:20 PM
[Sábado, Maio 22, 2004]
LABAREDAS
Dorcila Garcia
És
pura inquietude,
sentidos despertos,
paixão voraz.
Desejo ardente,
chamas famintas,
silente queimar.
Ó, dor pungente!
Quando, sem aviso,
- simplesmente -
te vais...
Quão
ávido é esse fogo,
que não quer se apagar!
Mesmo depois
que partiste,
em rubras labaredas,
estou a queimar.
Ai, quem me dera!
uma fonte de água pura
esse tormento
viesse findar...
por Andarilha descalça * 6:12 PM
[Sexta-feira, Maio 21, 2004]
Sobre a pintura de um ramo florido
"Primavera Precoce", de Wang
Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?
Su Dong Po
por Andarilha descalça * 9:42 AM
[Quinta-feira, Maio 20, 2004]
Além da terra, além do céu
Carlos Drummond de Andrade
"Além da Terra, além do Céu
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do Sistema Solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial.
O verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar, razão de ser e viver."
por Andarilha descalça * 8:50 AM
[Quarta-feira, Maio 19, 2004]
Concerto para corpo e alma
(Rubem Alves)
Compreendi, então
que a vida não é uma sonata que,
para realizar sua beleza,
tem de ser tocada até o fim...
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de mini sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja,
é uma experiência completa
que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e amor
justifica a vida inteira.
por Andarilha descalça * 3:04 PM
[Terça-feira, Maio 18, 2004]
Preciso, para
Marina Colasanti
Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá centro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.
por Andarilha descalça * 2:56 PM
[Segunda-feira, Maio 17, 2004]
Canção do meu olhar
(Dúnia de Freitas)
Se meu olhar
te disser além, muito além
do que queres saber,
desvia.
Se meu olhar
me trair
e deixar transparecer
toda a ternura
que tenho por ti,
disfarça.
Se meu olhar
tentar assim
te conquistar e seduzir
e o brilho ardente
te incomodar,
dissimula.
Se meu olhar,
em teu olhar, encontrar
a mesma sintonia,
por favor,
sorria.
por Andarilha descalça * 11:09 AM
[Domingo, Maio 16, 2004]
Hoje reparto com vocês o bolo que mais gosto:
bolo de chocolate.
Sim, hoje meu blogger completa um ano
e eu simplesmente digo:
Obrigada.
Obrigada a todos que me ofereceram pão e água
nesta caminhada.
Foi este pão e esta água que me dera, forças
pra estar aqui.
E queira Deus que eu continue esta caminhada que tanto amo
com o carinho de todos vocês.
Beijo e...
vamos ao bolo!
Andarilha descalça

por Andarilha descalça * 4:58 PM
[Sábado, Maio 15, 2004]
Telemarketing do Bem Viver!
Elane Tomich
Bom dia!
Bem vindo ao nosso serviço
Telemarketing do Bem Viver!
Se você está em dia
Com as quotas de sobreviver,
Tecle zero.
Mas se atrasar o serviço,
Aguarde por um instante
E ouça esta música irritante.
Se você está pra nascer
Tecle um.
Sua mãe em desespero
Espera-te como niguém
E ,sequer por uma vez,
Esperou amor algum
Ou ilusões de além.
Ouça, enquanto espera
Pour Elise, no teclado,
De um Beethoven ensandecido,
Pior que ensurdecido,
Pelo som desafinado
Provisório e mal tratado...
Se deseja informação
Sobre como não morrer
De infantil desnutrição,
Aguarde uma vida por vez.
Que é grande a fila da vida
E termine teclando três,
Que é o toque na ferida.
Se é falta de amor e esperança,
Melhor não nascer criança.
A Guarda do Bem Viver,
Em novilíngua de Orwell,
Espera que tecle o quatro
Escutando Jingle Bells.
Porque é hora de fato,
De tocar na tecla cinco
Para de fato morrer
Por falta de amor e fé...
Pois, nossa assistência técnica
Não sabe o que isto é.
É coisa do fornecedor
Que nada sabe de dor.
Não se atende aos domingos.
Tecle em sua sua raiz étnica
Se estiver cotada em alta.
Botão do lado direito
Com uma suástica de efeito.
Nada ter a ver com ética!
Em loterias e bingos
Quem sabe, encontre
E me conte...
Da vida que está em falta.
E em vista disto tudo,
Bem...
Ouça de Mozart,um minuto,
Seu bravo ofício de Réquiem!
por Andarilha descalça * 9:23 PM
[Sexta-feira, Maio 14, 2004]
Amor
Álvares de Azevedo
Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
por Andarilha descalça * 3:29 PM
[Quinta-feira, Maio 13, 2004]
Paciência
Lenine
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é o tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára .
por Andarilha descalça * 3:19 PM
[Quarta-feira, Maio 12, 2004]
Venho de Tempos Antigos
(Hilda Hilst)
Deus pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst¿ eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
por Andarilha descalça * 8:50 AM
[Terça-feira, Maio 11, 2004]
Falando de amor
(Tom Jobim)
Se eu pudesse por um dia
Esse amor, essa alegria
Eu te juro, te daria
Se eu pudesse esse amor todo dia
Chega perto, vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir este segredo
Escondido num choro canção
Se soubesses como eu gosto
Do teu cheiro, teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor
Vem depressa, vem sem medo
Foi pra ti meu coração
Que eu guardei este segredo
Escondido num choro canção
Lá no fundo do meu coração.
por Andarilha descalça * 9:18 AM
[Segunda-feira, Maio 10, 2004]
DIALÉTICA
Vinicius de Moraes
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
por Andarilha descalça * 10:06 AM
[Domingo, Maio 09, 2004]

por Andarilha descalça * 5:28 PM
[Sábado, Maio 08, 2004]
As minhas asas
Almeida Garret
Eu tinha umas asas brancas,
asas que um anjo me deu,
em me eu cansando da terra,
batia-as, voava ao céu.
Eram brancas, brancas, brancas,
como as do anjo que mas deu:
eu inocente como elas,
por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
vinha para me tentar;
por seus montes de tesouros
minhas asas não quis dar.
- Veio a ambição, co' as grandezas,
vinham para mas cortar,
davam-me poder e glória;
por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
asas que um anjo me deu,
em me eu cansando da terra,
batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
que eu contemplava as estrelas,
e já suspenso da terra,
ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
asas que um anjo me deu,
para a terra me pesavam,
Já não erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
de enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
foi aquela hora de dores!
- Tudo perdi nessa hora
que provei nos seus amores
o doce fel do deleite,
o acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
asas que um anjo me deu,
pena a pena me caíram...
Nunca mais voei aos céus
por Andarilha descalça * 5:11 PM
[Sexta-feira, Maio 07, 2004]
Aurora boreal
Antônio Gedeão
Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto:
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a Luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatros lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
por Andarilha descalça * 3:45 PM
[Quinta-feira, Maio 06, 2004]
Emergência
(Mario Quintana)
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
por Andarilha descalça * 9:23 AM
[Quarta-feira, Maio 05, 2004]
O sentido da vida
Fred Matos
O sentido da vida,
se é que sentido há,
é passar.
passar como passa a brisa
ou como as vagas do mar,
passar como passa o tempo
sem tempo pra especular
se passa porque existe
ou se existe por passar.
por Andarilha descalça * 12:40 PM
[Terça-feira, Maio 04, 2004]

por Andarilha descalça * 8:54 AM
[Segunda-feira, Maio 03, 2004]
Como eu não possuo
Olho em volta de mim. Todos possuem ---
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.
Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!
Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.
Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...
Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...
Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...
Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...
Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...
De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.
Mário de Sá-Carneiro
por Andarilha descalça * 10:25 AM
[Domingo, Maio 02, 2004]
Ausência
(Helena Santos)
Cada barco que veleja
Nessa imensidão do mar
Leva com ele segredos
Que só tu podes desvendar (...)
por Andarilha descalça * 5:53 PM
[Sábado, Maio 01, 2004]
"Corridinho "
Adélia Prado
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, tudo truque, engenho:
É descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
por Andarilha descalça * 7:26 PM