Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Sexta-feira, Abril 30, 2004]
Paciência de amor
( Marcos Maia)
Sorri como quem quer,
mas foge ao riso
demonstra me querer
só no improviso
às vezes chega breve,
sem aviso
e nunca entende a mim,
que mais preciso.
Assim, faça do amor
uma ciência
se amo tanto
e não me dá clemência
vou esperar
com mais benevolência
aguardando esse amor
com paciência
(improviso para o tema)
por Andarilha descalça * 9:56 AM
[Quinta-feira, Abril 29, 2004]

por Andarilha descalça * 11:10 AM
[Quarta-feira, Abril 28, 2004]
"Nascemos, e nesse momento
é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida,
mas o dia pode chegar em que nos perguntemos:
Quem assinou isto por mim"?
José Saramago
por Andarilha descalça * 8:42 AM
[Terça-feira, Abril 27, 2004]
Felicidade
(Antonio Cícero)
Felicidade é esse acaso
Que te fez o que és.
Nada queres dizer.
Nada deves a trabalho
Ou a dever.
Perverso
Brincas
Criatura de um só dia
Absoluto
És festa
Serás luto
És festa sonho carne frêmito
Não mereces este prazer
Nem eu mereço teu amor:
Tudo entre nós é gratuito
E muito
E parte
Cardumes de sol ao mar
Quase sem arte
Quero-te feliz.
por Andarilha descalça * 9:45 AM
[Segunda-feira, Abril 26, 2004]
Amigo
(CORA CORALINA)
Amigo
Vamos conversar
Como dois velhos que se encontram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos a mesma estrada.
Eu era moça.
Sentia sem saber
seu cheiro de terra,
seu cheiro de mato,
seu cheiro de pastagens
É que havia dentro de mim,
no fundo obscuro de meu ser
vivências e atavismo ancestrais:
fazendas, latifúndios,
engenhos e currais.
Mas... ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo.
O medo que todo homem sente
da mulher letrada.
Não pressentiu, não adivinhou
aquela que o esperava
mesmo antes de nascer.
Indiferente
tomaste teu caminho
por estrada diferente.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois... depois...
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.
Hoje, no tarde da vida,
apenas,
uma suave e perdida relembrança.

por Andarilha descalça * 9:28 AM
[Domingo, Abril 25, 2004]
Poema do Amigo
(Pe. Orlando Gambi)
Escuta meu amigo:
A qualquer hora em que chegares,
Sentarás comigo à minha mesa.
A qualquer hora em que bateres à minha porta,
Meu coração também se abrirá.
A qualquer hora em que chamares, eu me apressarei.
A qualquer hora em que vieres,
Será o melhor tempo de te receber.
A qualquer hora em que te decidires,
Eu estarei pronto para seguir.
A qualquer hora em que quiseres beber,
Eu irei contigo à fonte.
A qualquer hora em que te alegrares,
Eu bendirei ao Senhor.
A qualquer hora em que sorrires,
Será mais uma graça que o Senhor me concede.
A qualquer hora em que quiseres ir,
Eu irei à frente dos caminhos.
A qualquer hora em que caíres,
Eu estenderei os braços.
A qualquer hora em que te cansares,
Eu levarei a cruz.
A qualquer hora em que te sentires triste,
Eu permanecerei contigo.
A qualquer hora em que te lembrares de mim,
Eu acharei a vida mais bela.
A qualquer hora em que partires,
Ficarás como a lembrança de uma flor.
A qualquer hora em que voltares,
Renovarás todas as minhas alegrias.
A qualquer hora em que quiseres uma rosa,
Eu te darei toda a roseira.
Eu te digo tudo isso,
Porque não posso imaginar uma amizade
Que não seja toda, de todos os instantes e para todo o bem.
Assim é que foi sempre e será a amizade de Cristo,
Para todos os homens de todos os tempos.
Agradeço a Deus por ter me dado você como AMIGO...

por Andarilha descalça * 5:01 PM
[Sábado, Abril 24, 2004]
Soneto do Amigo
(Vinicius de Moraes)
Enfim, depois de tanto erro passado
tantas retaliações, tanto perigo
eis que ressurge noutro o velho amigo
nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
com os olhos que contém o olhar antigo
sempre comigo um pouco atribulado
e como sempre singular comigo.
Um bicho igual à mim, simples e humano
sabendo se mover e comover
e a disfarçar com meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
que só se vai ao ver outro nascer
e o espelho de minha alma multiplica...
por Andarilha descalça * 12:17 PM
[Sexta-feira, Abril 23, 2004]
Legado
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
por Andarilha descalça * 10:12 AM
[Quinta-feira, Abril 22, 2004]
A lua e a rosa
Miguel de Unamuno
No silêncio estrelado a Lua dava-se à rosa
e o aroma da noite lhe enchia
- boca sedenta - o paladar do espírito, que adormecendo
toda sua angústia se abria ao céu noturno de Deus e sua Mãe...
Plena, cabelos tranqüilos, a Lua, serena e só, acariciava a Terra
com seus cabelos de rosa selvagem, branca, escondida...
A Terra desde suas rochas, exalava de suas entranhas
fundidas de amor, seu aroma...
Entre as amoreiras pretas, seu ninho, era outra Lua a rosa...
plena, cabelos coalhados em seu seio, sua corola;
as cabeleiras mescladas da Lua e da rosa no calor
da noite fundidas em uma só...
No silêncio estrelado a Lua dava-se à rosa
enquanto a rosa dava-se à Lua, quieta e só.
por Andarilha descalça * 8:22 AM
[Quarta-feira, Abril 21, 2004]
A arte da guerra
(contrariando a Sun Tsu)
Nego-me a saber quem são
aqueles meus inimigos,
e a todos eu dou a mão,
embora tantas as intrigas.
No calor dessas batalhas,
sem brigar, dou-lhes amor.
Se ainda houver uma mortalha
minha, dá-la-ei a qualquer ator
que se dispuser a continuar
uma grande luta inversa,
sem ódios, atirando ao ar
muitas balas de vida, em versos.
ALCEU BRITO CORRÊA
por Andarilha descalça * 9:17 PM
[Terça-feira, Abril 20, 2004]
Manhã para se ser Feliz
(J. G. de Araújo Jorge)
Esta é uma manhã para se ser feliz
em algum lugar, de algum modo,
é uma manhã para se ser feliz...
Esta é uma manhã para dois, para dois juntos
abraçados e tontos, num remoinho,
não como nós, eu aqui, diante do sol, das árvores,
de tudo,
- envergonhado porque estou sozinho...
Esta é uma manhã que me fala de ti, nas nuvens,
na transparência do ar,
neste azul do céu, imaculado,
na beleza das coisas tocadas de sonho
e imaterialidade...
Uma manhã de festa
para se ser feliz de verdade!
Esta é uma manhã
para te ter ao meu lado...
Quando Deus fez uma manhã como esta estava
com certeza apaixonado...

por Andarilha descalça * 10:05 AM
[Segunda-feira, Abril 19, 2004]
Canção
(Cecilia Meireles)
No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto
Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
por Andarilha descalça * 12:49 PM
[Domingo, Abril 18, 2004]
Segredos
Virgínia Schall
D'onde veio a vida
a cavalgar esferas
a espiralar-se em galáxias
retorcendo-se em hélices?
D'onde sua memória
no eco sussurrado das ondas
nas odes sonoras das conchas
murmúrios ancestrais da existência
a borbulhar por entre espumas
na cristalina taça oceânica?
D'onde o misterioso rumor
de marés e corações pulsando
a embalar em sonho e sono
o silêncio oculto de um momento
a despertar-se súbito do nada?
Vida, que chega e sopra
suspira, se esconde e se revela
em entranhas secretas
concêntricas
completas.
Vida que em mim se indaga
e a par de tanto mistério, soberana
se emociona.
por Andarilha descalça * 4:40 PM
[Sábado, Abril 17, 2004]
A estrela
Manuel Bandeira
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do dia.
por Andarilha descalça * 5:01 PM
[Sexta-feira, Abril 16, 2004]
LUCIDEZ
(Mauro Salles)
Tenho a consciência
do brilho e do fracasso
Na areia da praia
meus passos não deixam marcas.
por Andarilha descalça * 10:27 AM
[Quinta-feira, Abril 15, 2004]
O Tempo
(Carlinhos Vergueiro)
O tempo, não é minha amiga,
Aquilo que você pensou,
As festas, as fotos antigas,
As coisas que você guardou,
Os trastes, os móveis, as tranças,
Os vinhos, os velhos cristais,
Lembranças, lembranças demais,
O tempo não para no porto,
Não apita na curva,
não espera ninguém,
Você vem deitar no meu ombro,
Querendo de novo ficar,
Eu olho e até me assombro,
Como pode esse tempo passar,
O tempo é areia que escapa,
Até entre os dedos do amor,
Depois há o vazio, é o nada,
É areia que o vento levou,
O medo correndo nas veias,
Deixou tanta vida prá traz,
E a gente ficou de mãos cheias,
Com as coisas que não valem mais,
E fica um gosto de usado,
Naquilo que nem se provou,
A gente dormiu acordado,
E o tempo depressa passou!
por Andarilha descalça * 9:31 AM
[Quarta-feira, Abril 14, 2004]
A CANÇÂO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK
(T. S. Eliot)
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.
Dante Alighieri. Ladivina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66 (N. do T.)
Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.
E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. "Ousarei" E . . "Ousarei?"
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!")
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas! ")
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.
Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?
E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?
E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?
.......
Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?
Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.
.......
E a tarde e o crepúsculo tão .docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.
E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: "Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei."
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: "Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto."
E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às
pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
"Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto."
Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.
Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.
Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.
Não creio que um dia elas cantem para mim.
Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.
Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.
(tradução: Ivan Junqueira)
por Andarilha descalça * 10:17 AM
[Terça-feira, Abril 13, 2004]
NÓS
(J.G. de Araujo Jorge)
Afinal o que eu sinto
é o sofrimento atroz
de muito tarde descobrir que nunca
falaremos em nós...
Eu, serei eu; - tu, serás tu,
e eternamente assim
nem nunca me terás como queres que eu seja
nem serás como eu quero que sejas pra mim...
Muito tarde... muito tarde...
-depois que assim te quero, e preciso de ti
como os pulmões de ar
ou os olhos de luz,
é que vou descobrir que se ficarmos juntos,
eu poderei te odiar, tu poderás me odiar!
- Quem diria afinal, ao que o amor se reduz?
Estraguei tua vida e desgraçaste a minha
e fomos acordar, os dois, tarde demais...
Agora, eu sigo só,
tu, seguirás sozinha,
eu, fugindo, - covarde!...
a este amor que me espinha!
tu, querendo, - medrosa!...
inutilmente a paz!
E o que é estranho afinal, é que nós nos amamos,
e sentimos no entanto que nos separamos,
cada um com a sua sombra dolorosa a sós...
-conformados, na dor cruel nos convencemos.
de que nunca na vida, eu e tu... seremos
nós...
por Andarilha descalça * 10:53 AM
[Segunda-feira, Abril 12, 2004]
CICATRIZES E MÁSCARAS.
Delasnieve Daspet
Invisíveis. Doloridas.
Fundos sulcos.
Marcas que doem.
Dores multiformes.
Todo corpo.
Toda alma.
Ninguém as vê.
Mas estão lá!
Notáveis. Evidentes.
São tantos embates.
Tantos embustes.
Tantas lutas.
Perdi a maioria.
Ganhei algumas.
Sobrevivi.
Por isso - as cicatrizes!
Não tento entender,
Não mais!
Como foi que deixei escapar
A pureza d'alma!
Mudei meus limites.
Porque não deveria?
Tenho de corresponder
As minhas dores!
As dores nos mudam.
O sorriso fácil foi embora.
Calada - agora - ouço!
Ouço o balançar da brisa noturna.
O ranger da porta antiga.
Uma janela batendo no vento,
O caminhar da lua.
O bater da onda.
Me ouço!
E a vida ziguezagueando
Passa por mim.
E me assusta!
O frêmito da gargalhada,
Cheia de fogo,
Cheia de gelo,
Cheia de água,
Ácido,
Veneno,
Desaba sobre meus sonhos.
E no silêncio interno.
Na dor que me cala.
Sou esfera.
Espera.
Metáfora.
Perdi o foco!
Após a batalha,
Fiquei só.
Cicatrizes.Máscaras.
Palhaça,
Rasgaram minha fantasia.
Rio e gargalho,
Da solidão.
por Andarilha descalça * 10:03 AM
[Domingo, Abril 11, 2004]
Livros inclementes e graves
Poema 422
José Jorge Letria
Ofereciam-me um pouco de tudo e um pouco de nada
Na esperança de que pudesse ser feliz
Como se enganavam
Como eu me enganava
O amor nunca vem quando chamamos
É rebelde e evasivo como salamandras e as aves noturnas
Não tem paradeiro
Só os gatos percebem o que eu escrevo
Porque me vêem chorar quando não escrevo
E o amor onde esta?
Pra onde levou a parca bagagem do seu exílio
Morreu nas cartas, definhou no riso, estiou na voz
Apodreceu nos gestos
Já nada resta dele
A não ser um soluço
Um rumor
Um pressentimento
Os livros que falam de amores assim
A si mesmos descrevem
Sem que ninguém precise inventar o que irão dizer
Existem para calar não para revelar
Pois sabem muito mais do que seria suposto saberem
São livros inclementes e graves
Tratados onde o saber não se demora
Confissões de que a verdade está ausente
Lemo-los, e é acrescido o inverno,
Que nos tocam os olhos como um lamina.
por Andarilha descalça * 7:10 PM
[Quarta-feira, Abril 07, 2004]
"O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida,
e restaurar na velhice a adolescência.
Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui.
Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.
Se só me faltassem os outros, vá;
um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde;
mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo (...)"
Machado de Assis in: Dom Casmurro
por Andarilha descalça * 3:09 PM
[Terça-feira, Abril 06, 2004]
OS ANDARILHOS
(EUNOFRE MARQUES)
É como se nada tivesse acontecido
depois de tudo o que acontecera.
É como se nada se tivesse dito
depois de tudo o que se dissera.
E ficamos assim, perplexos,
sem nada compreender
e sem ter nada prá fazer
e apenas a nos perguntar
o quê, por quê, prá quê,
mas só por perguntar.
E mesmo assim seguimos
prá lá, prá cá, tanto faz,
pois também não sabemos aonde ir
nem sequer onde chegar,
se já chegamos, se já passamos,
se algum dia nós vamos parar.
Mas é só isso que sempre fazemos
e poderemos fazer:
ir, seguir, caminhar.
por Andarilha descalça * 9:00 AM
[Segunda-feira, Abril 05, 2004]
O que me dói
(Fernando Pessoa)
O que me dói não é
o que há no coração
mas essas coisas lindas
que nunca existirão...
São as formas sem forma
que passam sem que a dor
as possa conhecer
ou as sonhar o amor.
São como se a tristeza
fosse árvore e, uma a uma,
caíssem suas folhas
entre o vestígio e a bruma.
por Andarilha descalça * 10:25 AM
[Domingo, Abril 04, 2004]
Anúncio desclassificado
(Ivy Wyler)
PRECISA-SE
De uma paixão que não dure(mais que um dia),
ou que se consuma(em uma só noite).
No dia seguinte,
Há o clarear(com a lucidez das manhãs).
PROCURA-SE
Um amor que muito faça(e pouco permaneça).
Precisa fazer sofrer,(depois de todas as delícias).
Há de deixar saudade,
pranto, lamúriasdores e súplicas.
Precisa-se de uma paixão,
procura-se um lamento,uma
dor lancinante(mas efêmera)
Só para se criar um poema.
por Andarilha descalça * 3:57 PM
[Sábado, Abril 03, 2004]
Sob o Signo da Inquietação
Bruna Lombardi
O susto em nós foi avançar
muito para dentro do proibido.
Muito para perto de uma zona perigosa
A boca da noite... o desconhecido...
Vagos caminhos de uma via nebulosa.
Vários conceitos para falar da mesma coisa
O susto em nós foi descobrir porteiras
de territórios nunca antes percorridos
No fundo de todos nós um visitante
No fundo, a falta de sentido...
Visitantes de nós mesmos cometíamos
a imprudência de quase enlouquecer
Para chegar à compreensão.
E uma coisa afiada nos conduzia
através da trilha da poesia
e do difícil trajeto da paixão....
por Andarilha descalça * 12:16 AM
[Sexta-feira, Abril 02, 2004]
Os versos que te dou
(J.G. de Araujo Jorge)
Ouve estes versos que te dou, eu os fiz
hoje que sinto o coração contente,
- enquanto o teu amor for meu somente,
eu farei versos... E serei feliz ...
E hei de faze-los pela vida em fora
versos de sonho e amor, e hei de depois
relembrar o passado de nós dois,
esse passado que começa agora...
Estes versos repletos de ternura
são versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los, sem ninguém
que possa perturbar nossa ventura...
Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia, mais tarde, revive-los,
nas lembranças que a vida não desfez...
E ao lê-los... Com saudade, em tua dor,
hás de rever, chorando, o nosso amor,
e hás de lembrar, também, de quem os fez...
Se nesse tempo eu já tiver partido
e outros versos quiseres, teu pedido
deixa ao lado da cruz para onde eu vou...
Quando lá, novamente, então tu fores,
podes colher do chão todas as flores
pois são versos de amor que ainda te dou!
por Andarilha descalça * 9:40 AM
[Quinta-feira, Abril 01, 2004]
Foram os amores que tive
ou me tiveram:
partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
O tempo me ensinou
a não acreditar demais na morte
nem desistir da vida: cultivo
alegrias num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e seus segredos.
E a esperança - que rebrilha
como pedrinhas de cor entre as raízes."
Lya Luft, em Secreta Mirada
por Andarilha descalça * 10:30 AM