Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Quarta-feira, Março 31, 2004]


Resíduo
Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficam poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.

Mas tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
de teu áspero silêncio
um pouco ficou um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
nos pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
em pouco de mim algures?
no consoante?
no poço

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo fica um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
do vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas tudo, terrível, fica um pouco.
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço do cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.




por Andarilha descalça * 9:14 AM

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[Terça-feira, Março 30, 2004]


Liberdade
MIGUEL TORGA

(Albufeira, 28 de Agosto de 1975)

- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção,
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.




por Andarilha descalça * 10:23 AM

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[Segunda-feira, Março 29, 2004]


PORQUE HÁ DESEJO EM MIM, É TUDO CINTILÂNCIA
Hilda Hilst

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
ao invés de ganir diante do Nada.

 

por Andarilha descalça * 10:40 AM

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[Domingo, Março 28, 2004]



"Isolabella"
Do livro "Histórias do Tempo", de ©Lya Luft.


Quero levar-te àquela ilha
onde serás amado,
onde serás aceito
do jeito
que és.

Onde podes tirar a máscara
e deixar esplender
teu rosto.
Onde minha ternura
não se espantará
com teu grão de loucura;
onde minha paixão não diminuirá
com tua parcela de medos;
onde podes ser o que és,
naturalmente,
e mesmo assim
farei de ti
um rei.



por Andarilha descalça * 7:48 PM

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[Sexta-feira, Março 26, 2004]


Canção de outono
(Mário Quintana)

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colhe as horas, em suma...
mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte alguma!





por Andarilha descalça * 8:56 AM

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[Quinta-feira, Março 25, 2004]


Risco inútil
odeteronchibaltazar

Escrevo meus dias
em papéis translúcidos,
sem segredos,
sem mistérios
e sem encantamento algum.
Onde o glamour?
Onde a novidade
onde as fantasias?
Sonhos soltos,
perdidos,
embrulhados em rotinas,
em eternos medos.
Frisson? nenhum...
E em viver sem brilho,
sem fama,
sem lama,
sigo assim,
anônima criatura,
acomodada em ternuras,
invisível,
sem graças alcançadas,
e muitas mil promessas
não cumpridas.




por Andarilha descalça * 9:01 AM

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[Quarta-feira, Março 24, 2004]




por Andarilha descalça * 11:47 AM

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[Terça-feira, Março 23, 2004]




por Andarilha descalça * 8:13 AM

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[Segunda-feira, Março 22, 2004]


Madrid de marzo
Madri de março
(Adolfo Montejo Navas)

Más abajo de las lágrimas, está la muert
Mais abaixo das lágrimas, está a morte
Que nos acostumbra a nada. Más abajo
Que nos acostuma a nada. Mais abaixo
El terror, el aire que reúne todo,
O terror, o ar que reúne tudo,
Lo que no tiene nombre todavia,
O que ainda não tem nome,
Lo que nuestras palabras mendigan.
o que nossas palavras mendigam.
Más abajo de los lamentos, los vientos,
Mais abaixo dos lamentos, os ventos,
Más abajo del horror, la respiración
Mais abaixo do horror, a respiração
Cortada, y el hierro y la fiebre,
Cortada, e o ferro e a febre,
Y la cordura la materia de la locura
E a cordura e a matéria da loucura
Em su final de azogue.Más abajo,
Em seu final de azougue.Mais abaixo,
Está la sangre de la tierra, la vieja
Está o sangue da terra, a velha
Residência herida.Más abajo
Residência ferida. Mais abaixo
De Madrid, está el mundo gritado.
De Madri, está o mundo gritado.

Rio, 12 de marzo, 2004
Rio, 12 de março, 2004.


por Andarilha descalça * 8:55 AM

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[Sábado, Março 20, 2004]




por Andarilha descalça * 2:14 PM

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[Sexta-feira, Março 19, 2004]


Sete Anos de Pastor Jacó Servia
(Luis de Camões)

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
passava, contendo-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,

começou a servir outros sete anos,
dizendo: "Mais serviria, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida".





por Andarilha descalça * 4:19 PM

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[Quinta-feira, Março 18, 2004]




por Andarilha descalça * 9:45 AM

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[Quarta-feira, Março 17, 2004]




por Andarilha descalça * 4:30 PM

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[Segunda-feira, Março 15, 2004]


MANHÃ DE TERROR
Cenas de destruição e desespero na Estação Atocha,
no centro de Madri: sete bombas detonadas
no horário de maior movimento .

De repente o Nada

De repente o silêncio
o NADA
o esquecimento
o fim dos sonhos
o beijo não dado
o sorriso apagado
o frio
o gemido
o pavor
o NADA...
De repente
o fim não planejado
a crueldade
a fria guerra.
De repente
o NADA.

Andarilha descalça
14/03/2004





por Andarilha descalça * 9:13 AM

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[Sábado, Março 13, 2004]


Rebeldia
(Maria Seixas)

(manifesto contra o imperativo não categórico)


Odeio o uso do modo imperativo.
Se me dizem, cala-te!, eu canto.
Se me dizem esconde-te!, eu exponho-me.
Quando me ordenam que me vista, me desnudo.
Se me mandam expor, vou pró meu canto.
Quando me querem falante, eu sou muda.
Se me fazem gritar, eu silencio.
Se me tentam excitar eu fico queda,
Se me querem gelada, fico em cio.

Sou égua de raça pura e alma leda,
Crinas ao vento e ventas de fome,
À espera de um jokey que me dome.


Quem julga que me domou, bem se engana.
Que eu só sonho... na minha própria cama.




por Andarilha descalça * 10:48 PM

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[Sexta-feira, Março 12, 2004]




por Andarilha descalça * 9:06 AM

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[Terça-feira, Março 09, 2004]



Lilitchka! (em lugar de uma carta)

Fumo de tabaco roi o ar.
O quarto -
um capítulo do inferno de Krutchónikh.
Recorda -
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração - além.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez com zanga.
No teu "hall" escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
- duro fardo por certo -
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos - rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas dos meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

26 de maio de 1916. Petrogrado
Vladimir Maiakovski




por Andarilha descalça * 8:39 AM

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[Segunda-feira, Março 08, 2004]


Debruçada na janela
(Marillena S. Ribeiro)

Debruçada na janela da vida
Observo o mundo, desajeitada
Faço mera poesia, ventania
Em verso conto uma vida, vadia
Sou frágil criatura, apenas mulher
Sou a mais pura emoção, canção
Sou cinza do passado, recordação
Sou larva, borboleta em formação
Por vezes sou arco-íris, desbotado
Macerando um sonho dourado
Sou a profundeza do mar, medo
Apenas grão de areia, no mundo
Solta, livre e leve...
Misteriosa, incrédula, sonhadora
Do amor, sou mera portadora
Da vida, quero ser a pecadora
Santa, depravada, ou puritana
Sou menina-mulher de toda idade
Naturalmente, sem complexidade
Mantenedora de um amor sem possibilidade


Este texto encontra-se protegido pela Lei Brasileira nº 9.610, de 1998,
por leis e tratados internacionais.
Musica Maria Bethania: Pra Rua Me Levar.




por Andarilha descalça * 9:13 AM

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[Domingo, Março 07, 2004]






por Andarilha descalça * 5:44 PM

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[Quinta-feira, Março 04, 2004]


No teu poema
José Luis Tinoco

No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira, um céu aberto,
janela debruçada para a vida.
No teu poema existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura
e, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaço
do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
existe um cantochão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.
Existe um rio
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.




por Andarilha descalça * 2:47 PM

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[Quarta-feira, Março 03, 2004]


O mundo estava no rosto da amada
(Rainer Maria Rilke)

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

(Tradução: Augusto de Campos)




por Andarilha descalça * 8:57 AM

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[Terça-feira, Março 02, 2004]


Farewell
(Pablo Neruda, 1923 )

1

Desde el fondo de ti, y arrodillado,
un niño triste, como yo, nos mira.

Por esa vida que arderá en sus venas
tendrían que amarrarse nuestras vidas.

Por esas manos, hijas de tus manos,
tendrían que matar las manos mías.

Por sus ojos abiertos en la tierra
veré en los tuyos lágrimas un día.

2

Yo no lo quiero, Amada.

Para que nada nos amarre
que no nos una nada.

Ni la palabra que aromó tu boca,
ni lo que no dijeron las palabras.

Ni la fiesta de amor que no tuvimos,
ni tus sollozos junto a la ventana.

3

(Amo el amor de los marineros
que besan y se van.
Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.

En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.

Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar).

4

Amor el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.

Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.

Amor que quiere libertarse
para volver a amar.

Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va.

5

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.

Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.

Fui tuyo, fuiste mía. Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.

Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.

Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.

...Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.




por Andarilha descalça * 10:24 AM

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LIVRO DE HORAS
Miguel Torgas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão ao leme da nau
Nesta deriva em que vou.


Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.


Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.


Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.


Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.


Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser um monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.


Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!




por Andarilha descalça * 10:13 AM

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[Segunda-feira, Março 01, 2004]


As estrelas
(Mário Quintana)

Foram-se abrindo aos poucos as estrelas...
De margaridas lindo campo em flor!
Tão alto o Céu!...Pudesse eu ir colhê-las...
Diria alguma se me tens amor.

Estrelas altas! Que se importam elas?
Tão longe estão...Tão longe deste mundo...
Trêmulo bando de distantes velas
Ancoradas no azul do céu profundo...

Porém meu coração quase parava,
Lá foram voandoas esperanças minhas
Quando uma,dentre aquelas estrelinhas,

Deus a guie! do céu despencou...
Com certeza era o amor que tu me tinhas
Que repentinamente se acabou !





por Andarilha descalça * 3:51 PM

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