Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004]
Garras dos sentidos
(Agustina Bessa-Luís)
Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
por Andarilha descalça * 2:38 PM
[Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004]
Sabedoria
Ronald de Carvalho)
Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!
Faze da tua realidade
uma obra de beleza
Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...
por Andarilha descalça * 10:57 AM
[Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004]
PERPLEXIDADE
Miguel Torga
Hesito no caminho.
Ninguém segue este rumo...
É noutra direcção
Que o vento leva o fumo
Das paixões...
Chegar, sei que não chego,
De nenhuma maneira;
Mas queria ao menos ir no lírico sossego
De quem não se enganou na estrada verdadeira.
E não vou.
Cada vez mais sózinho
Na solidão,
Duvido das certezas dos meus passos.
Vejo a sede ancestral da multidão
Voltar costas às fontes que pressinto,
E fico na mortal indecisão
De afirmar ou negar o cego instinto
Que me serve de guia e de bordão.
por Andarilha descalça * 10:04 AM
[Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004]
VIAGEM
(Marisa)
Oh!, tristeza me desculpe,
estou de malas prontas...
Hoje a poesia veio ao meu encontro
já raiou o dia, vamos viajar...
Vamos indo de carona na garupa
leve do vento macio,
que vem caminhando desde muito longe,
lá do fim do mar...
Vamos visitar a Estrela da Manhã raiada
que pensei perdida pela madrugada
mas que vai escondida, querendo brincar...
Senta nessa nuvem clara, minha Poesia
Anda, se prepara, traz uma cantiga
vamos espalhando música no ar...
Olha quantas aves brancas, minha Poesia
dançam nossa valsa, pelo céu que o dia
fez todo bordado de raios de sol...
Oh!, Poesia, me ajude, vou colher avencas,
lírios, rosas, dálias, pelos campos verdes
que você batiza de jardins do céu...
Mas pode ficar tranqüila, minha Poesia
pois nós voltaremos numa Estrela Guia,
num clarão de lua, quando serenar...
Ou talvez até, quem sabe?, nós só voltaremos
num cavalo baio, no alazão da noite
cujo nome é raio, raio de luar...
por Andarilha descalça * 11:29 AM
[Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004]
Fácil.
(Jota Quest).
Tudo é tão bom e azul
E calmo como sempre.
Os olhos piscaram de repente:
Um sonho.
As coisas são assim
Quando se está amando,
As bocas não se deixam
E o segundo não tem fim.
Um dia feliz
Às vezes é muito raro,
Falar é complicado,
Quero uma canção...
Fácil, extremamente fácil,
Pra você, e eu, e todo mundo cantar junto.
Fácil, extremamente fácil,
Pra você, e eu, e todo mundo cantar junto.
Tudo se torna claro,
Pateticamente pálido,
O coração dispara
Se eu vejo o teu carro.
A vida é tão simples,
Mas dá medo de tocar.
As mãos se procuram sós,
Como a gente mesmo quis.
Um dia feliz
Às vezes é muito raro,
Falar é complicado,
Quero uma canção...
Fácil, extremamente fácil,
Pra você, e eu, e todo mundo cantar junto.
Fácil, extremamente fácil,
Pra você, e eu, e todo mundo cantar junto.
por Andarilha descalça * 9:48 PM
Basta
Tonho França
Não quero mais o eterno,
bastam-me horas,
Não quero mais o sereno,
farta-me o insano.
Não espero mais nada de certo,
aposto no engano
barroca alma
sem paz, sem calma
não cabe mais no corpo
explode pelos poros.
Hoje, prefiro soltar-me à deriva
a ver-me preso ao mesmo porto.
Acredito mais na beleza da lenda
que na dureza da fé.
Acredito em sonhos, que movem,
invisíveis, os moinhos da vida
e criam histórias, fantasmas, heróis, amores
sempre foi assim
Não importa o que foi escrito pelo destino
o improviso são as flores
ele muda o caminho.
por Andarilha descalça * 3:17 PM
[Terça-feira, Fevereiro 10, 2004]
XXV
Pablo Neruda
Vai-se o hoje: uma cápsula
de fria luz que volta a seu recinto,
à sua sombria, renascendo.
Deixo-o agora envolto em sua linhagem.
Dia, é verdade que participei na luz?
Tempo, sou parte de tua catarata?
Areias minhas, solidões!
Se é verdade que partimos,
fomos nos consumindo
em pleno sal marinho
e a golpes de relâmpago.
Minha razão tem vivido na intempérie,
entreguei ao mar meu coração calcário.
por Andarilha descalça * 2:16 PM
[Domingo, Fevereiro 08, 2004]
Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
Hilda Hilst
por Andarilha descalça * 7:37 PM
[Sábado, Fevereiro 07, 2004]

por Andarilha descalça * 2:37 PM
[Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004]
Uma imagem é uma poesia viva.
Andarilha descalça
Fotografia : Sebastião Salgado
Fotografia : Sebastião Salgado
Fotografia: Sebastião Salgado
por Andarilha descalça * 9:19 AM
[Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004]
Minha homenagem a grande escritora
que parte para outra dimensão
deixando um rastro de beleza e sentimento.
Hilda Hilst
"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."
por Andarilha descalça * 10:36 AM
Soneto de Exaltação
Alessandro Braga
Exaltar ¿ te - ei a cada noite e dia
e sempre, e de forma tão magnífica
que, frente a tua beleza, calar - me - ia
e não aceitaria, sobre ti, nem a mais amena crítica.
Sobre ti, enumeraria mil maravilhas
e me apaixonaria pela grandeza
de uma alma branca, inundada de pureza
e banhada pelo frescor do mar de mil ilhas.
Cantaria mil canções e odes e hinos,
não falaria palavrinhas poucas
nem usaria fonemas em rimas ocas.
Deixaria minhas palavras soarem como sinos,
bilhetinhos de amor em bolinhas de sabão,
que rezo, encham teu coração.
por Andarilha descalça * 8:41 AM
[Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004]
"Não me conhecem aqueles que pensam
que sou apenas carne e sangue, viajante
transitório da frágil nave Terra que me gerou.
Pois sou espírito, eterno, indestrutível,
não confinado a espaço nem a tempo e
quando minha estada aqui estiver terminada,
meus papéis desempenhados, minhas tarefas
executadas, porei de lado este traje espacial
chamado corpo e mudarei para outras
mansões, outros papéis, outras tarefas
na casa da vida eterna, de nosso Pai."
(J. Sig Paulson - Trecho do livro Visão Eterna)
por Andarilha descalça * 9:48 AM
[Terça-feira, Fevereiro 03, 2004]
O POETA PEDE AO SEU AMOR
QUE LHE ESCREVA
Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.
Federico Garcia Lorca
tradução: William Agel de Melo
por Andarilha descalça * 2:37 PM
Ao retorno
" Viver tem que ser perturbador.
É preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados,
e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco,
sua adoração ou seu desprezo.
O que não faz você mover um músculo,
o que não faz você estremecer, suar,
desatinar, não merece fazer parte de sua biografia."
(Trecho retirado do livro Divã da Martha Medeiros)
por Andarilha descalça * 2:16 PM
AMOR
Maria Seixas
Não sei amar assim, devagarinho...
Como se não fora o amor um sobressalto!
E porque quando o senti, gritou bem alto,
dele me desfiz, porque era espinho.
Dói em mim, o amor. Sempre doeu...
E é tão grande a dor, que me enlouquece;
que quando o sinto é bem maior que eu,
é bem maior do que o amor merece.
por Andarilha descalça * 11:18 AM
Aninha e suas pedras
Cora Coralina
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos
poemas.
Recria tua vida, sempre,
sempre.
Remove pedras e planta
roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos
jovens
e na memória das
gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de
todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
(Outubro, 1981)
por Andarilha descalça * 11:12 AM
[Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004]

por Andarilha descalça * 11:28 AM