Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Domingo, Agosto 31, 2003]


Soneto à lua
(Vinícius de Moraes)


Por que tens, por que tens olhos escuros

E mãos lânguidas, loucas e sem fim

Quem és, que és tu, não eu, e estás em mim

Impuro, como o bem que está nos puros?



Que paixão fez-te os lábios tão maduros

Num rosto como o teu criança assim

Quem te criou tão boa para o ruim

E tão fatal para os meus versos duros?



Fugaz, com que direito tens-me presa

A alma que por ti soluça nua

E não és Tatiana e nem Teresa:



E és tão pouco a mulher que anda na rua

Vagabunda, patética, indefesa

Ó minha branca e pequenina lua!





por Andarilha descalça * 5:21 PM

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[Sexta-feira, Agosto 29, 2003]


Fuga imperfeita
Andarilha descalça


Foge.
Foge enquanto é tempo
do amar
do pecar
foge para não naufragar.

Foge.
Foge enquanto é tempo
do leito
do rogo
do fogo
que nos quer dilacerar.
Foge para não se queimar.

Foge.
Foge enquanto é tempo
do beijo
que arde
feito vulcão
abrindo cratera
desvendando
nossa parte de fera.
Foge para não se revelar.




por Andarilha descalça * 8:57 PM

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por Andarilha descalça * 1:32 PM

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O duplo
(Afonso Romano de Sant¿Anna )

Debaixo de minha mesa
tem sempre um cão faminto
-que me alimenta a tristeza.

Debaixo de minha cama
tem sempre um fantasma vivo
-que perturba quem me ama.

Debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
-pensando que eu sou ele.

Debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta
-e alguém calado que grita.




por Andarilha descalça * 1:11 PM

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Asas e azares
(Paulo Leminsky)

Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais que eu fiz na vida?
Fiz,pequeno,quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo,pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz,depois,dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo ,o começo,
e essa historia sem fim.
Ása ferida,asa ferida,
meu espaço,meu herói.
A asa arde.Voar,isso não dói.



por Andarilha descalça * 1:06 PM

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[Quinta-feira, Agosto 28, 2003]




por Andarilha descalça * 1:03 PM

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O Silêncio
(Eugénio de Andrade )

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.





por Andarilha descalça * 12:54 PM

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Rosa Rilke Raimundo Correia
(Paulo Leminski)


Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas .




por Andarilha descalça * 12:45 PM

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O Prisioneiro
( Soares Feitosa )


Trouxeram-me a prisioneira ao interrogatório.



Recusei-me às perguntas porque as respostas
estavam ao passado. Sequer o futuro
se lhe indagou; que também recusou
perguntar, quando os carrascos lhe disseram:



¿ Pergunte o que quiser.


Ela apenas balbuciou:
¿ Eu sei.



Mentíamo-nos,
porque jamais nos víramos.



Decretei a prisão imediata de todos os carrascos.
Mantive a prisioneira sob algemas,
que ninguém é louco de manter
tesoiro tão rico ao léu;



mas, prudência maior,
soltei-lhe os braços e mudei as algemas

aos meus próprios pulsos.

Ela ¿
os gestos diziam que me seriam
sob afagos.



Deixei:
apenas que os olhos, os cabelos úmidos:



¿ Os meus? Os dela?



Era o chamamento.






por Andarilha descalça * 12:25 PM

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[Quarta-feira, Agosto 27, 2003]




por Andarilha descalça * 10:39 AM

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Atravessou a minha manhã uma bela borboleta
e meu olhar um pouco nublado
sorriu encantado e agradecido.

****

A borboleta
avança
perfeitamente leve
perfeitamente equilibrada.
Avança
ante
meus
olhos
encantados
de
criança

Andarilha descalça





por Andarilha descalça * 10:25 AM

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[Terça-feira, Agosto 26, 2003]




por Andarilha descalça * 4:13 PM

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Aviso da lua que menstrua

(Elisa Lucinda )

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!



por Andarilha descalça * 10:44 AM

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O poema do semelhante
Elisa Lucinda

O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,


Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.


Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.


Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.


O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.


O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente


Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.


Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança




por Andarilha descalça * 10:40 AM

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Cor - respondência
Elisa Lucinda

Remeta-me os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que voce tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito
ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.



por Andarilha descalça * 10:32 AM

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Esquinas
(Guilherme de Almeida)

Quem virá ao meu encontro
na rua que cruza com a minha?

Ângulos do acaso,
encruzilhadas do tempo,
cotovelos do espaço,
face a face com o inédito,
sustos com o irreconhecível,
encontrões com o imprevisto:
esquinas do mundo.

A vida mora nas esquinas.



por Andarilha descalça * 10:12 AM

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[Segunda-feira, Agosto 25, 2003]




por Andarilha descalça * 1:31 PM

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[Domingo, Agosto 24, 2003]


Faltando um Pedaço
(Djavan)

O amor é um grande laço
Um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculo
Pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada
Com a fuga de uma ilha
Tanto engorda quanto mata
Feito desgosto de filha
O amor é como um raio
Galopando em desafio
Abre fendas, cobre vales
Revolta as águas dos rios
Quem tentar seguir seu rastro
Se perderá no caminho
Na pureza de um limão
Ou na solidão do espinho
O amor e a agonia
Cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio
O cio vence o cansaço
E o coração de quem ama
Fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando
Que nem o meu nos seus braços.




por Andarilha descalça * 6:23 PM

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Há palavras que nos beijam
(Alexandre O'Neill)

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.




por Andarilha descalça * 6:19 PM

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[Sábado, Agosto 23, 2003]


Soneto XLIV
(William Shakespeare)


Se minha carne fosse pensamento
A distância jamais me reteria;

Apesar dos espaços, em um momento,
E bem longe, a ti eu chegaria.

Que importa onde meu pé pudesse estar,
Em que terra de ti tão afastada ?

O pensamento salta terra e mar
Só de pensar na terra desejada.

Morro ao pensar que não sou pensamento,
E que sonhar distâncias não consiga;

Sou feito de águas e terras, os elementos
Que ao tempo ocioso e à minha dor me obrigam.

De lentos elementos me resigno,
A ter somente as lágrimas, seus signos.

A um dia de verão como hei de comparar-te ?
A um dia de verão como hei de comparar-te ?

Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável !
Em maio o vendaval em ternos botões disparte

E o estio se consome em prazo não durável.
Às vezes, muito quente, o olho do céu fulgura,

Outras vezes se ofusca com a sua tez dourada;
Decai da formosura, é certo, a formosura,

Pelo tempo ou o acaso é enfim desadornada:
Mas teu verão é eterno, e não desmaiará.

Nem hás de a possessão perder tua beleza,
Vagando em sua sombra, o fim não te verá,

Pois neste verso eterno ao tempo, tu te igualas:
Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,
Meu canto existirá, e nele hás de viver.




por Andarilha descalça * 11:01 PM

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[Sexta-feira, Agosto 22, 2003]




por Andarilha descalça * 1:58 PM

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Meditação à beira de um poema
(Adélia Prado)

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro





por Andarilha descalça * 1:31 PM

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Poema da Amante
(Adalgisa Nery)


Eu te amo

Antes e depois de todos os acontecimentos,

Na profunda imensidade do vazio

E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo

Em todos os ventos que cantam,

Em todas as sombras que choram,

Na extensão infinita dos tempos

Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo

Em todas as transformações da vida,

Em todos os caminhos do medo,

Na angústia da vontade perdida

E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo

Em tudo que estás presente,

No olhar dos astros que te alcançam

E em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo

Desde a criação das águas,

desde a idéia do fogo

E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente

Desde a grande nebulosa

Até depois que o universo cair sobre mim

Suavemente.





por Andarilha descalça * 12:10 PM

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Os Que Não
(Helena Ortiz)


Como é que eu ia saber
que era teu último abraço
e que a tranquilidade
com que te foste
era apenas a de quem
afinal
desvenda o mistério?
Aqui ficaram os que não vêem
não percebem
não ouvem
não respondam



por Andarilha descalça * 11:53 AM

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SEGREDOS
(Virgínia Schall)

D¿onde veio a vida
a cavalgar esferas
a espiralar-se em galáxias
retorcendo-se em hélices?

D¿onde sua memória
no eco sussurrado das ondas
nas odes sonoras das conchas
murmúrios ancestrais da existência
a borbulhar por entre espumas
na cristalina taça oceânica?

D¿onde o misterioso rumor
de marés e corações pulsando
a embalar em sonho e sono
o silêncio oculto de um momento
a despertar-se súbito do nada?

Vida, que chega e sopra
suspira, se esconde e se revela
em entranhas secretas
concêntricas
completas.

Vida que em mim se indaga
e a par de tanto mistério, soberana
se emociona.



por Andarilha descalça * 11:43 AM

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PERSONA
(Virgínia Schall)

Minha alma feminina
é tão antiga
como o cheiro da terra
que a chuva molha
perfume milenar
essência almiscarada
que em muito mais de mil noites
arde à espera.




por Andarilha descalça * 11:36 AM

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Princípio
(Bruna Lombardi)

Na paixão de um homem, na inquietude
das feras, no vermelho
que o fio da lâmina provoca
o olho acostumado a perscrutar
as máscaras, as almas, o que não se confessa.

Na origem profunda do ser
Onde tudo começa
na sua luta contra o tempo
e contra a natureza

em tudo há o desgaste
em tudo o conflito se apresenta
raiz do ataque e defesa
há o mar, a fúria do mar
e a força da rocha que o enfrenta.




por Andarilha descalça * 11:31 AM

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Saudade
Gilka Machado


De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
(in Velha poesia, 1965)




por Andarilha descalça * 11:19 AM

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[Quinta-feira, Agosto 21, 2003]


Sobre os poetas ...

As coisas não são
tal e qual, aquilo que escrevemos
Mas aquilo que escrevemos
È tal e qual
ao que gostaríamos que fossem
Se escrevemos,
Sonhamos...
Se sonhamos
Escrevemos os nossos sonhos

By Cecília





por Andarilha descalça * 11:15 AM

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[Quarta-feira, Agosto 20, 2003]


Diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello


O diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, 55,
que morreu hoje após ficar gravemente ferido na explosão
de um carro-bomba contra o prédio da
ONU (Organização das Nações Unidas) em Bagdá,
foi escolhido em maio pelo secretário-geral da ONU,
Kofi Annan, como seu representante especial
para o Iraque por um período inicial de quatro meses.
O diplomata era representante da ONU desde
1969 e chefiou a missão da organização no Timor Leste.
Antes disso, ele liderou interinamente a operação da ONU em Kosovo.
A maior parte da carreira do diplomata se desenvolveu
no gabinete do Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), em Genebra (Suíça).
Fluente em inglês e francês, Vieira de Mello estudou no
Rio de Janeiro e recebeu títulos de doutorado em filosofia
e ciências sociais pela Universidade de Paris.
Vieira de Mello era desde julho de 2002 Alto Comissário
para os Direitos Humanos da ONU,
e tinha uma longa experiência em assuntos humanitários.
Nascido no dia 15 de março de 1948,
no Rio de Janeiro, Vieira de Mello estudou Filosofia em Paris
e obteve título de doutorado pela Sorbonne.
Em 1969, quando ainda estudava, começou a trabalhar no Acnur,
exercendo cargos em Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru.
Foi o principal assessor da Força das Nações Unidas
no Líbano entre 1981 e 1983, no momento da invasão israelense.
Depois, ocupou vários cargos de direção no Acnur
em Genebra, antes de dirigir, em 1994,
a Força de Proteção a Civis da ONU (Forpronu) para a antiga Iugoslávia,
no momento mais crítico da guerra na Bósnia.
Após o genocídio em Ruanda, Vieira de Mello foi,
durante alguns meses de 1996,
coordenador humanitário para a região dos Grandes Lagos,
no Leste da África, e depois, nomeado alto comissariado adjunto
para os refugiados.
Em 1998, Vieira de Mello foi nomeado para dirigir
o escritório de Assuntos Humanitários da ONU.
Defendeu com entusiasmo a ação da ONU no Timor Leste,
após a votação maciça da população em favor
da independência do território.
Em outubro de 1999, foi nomeado administrador
do Timor Leste, com a tarefa de reconstruir
o território devastado pela guerra.
Em junho do mesmo ano,
o diplomata brasileiro já havia sido convocado
por Annan para administrar provisoriamente Kosovo,
imediatamente após a entrada das tropas
da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)
e da partida dos sérvios nos Balcãs.

Minha homenagem e eterna gratidão.

Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 11:06 AM

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[Terça-feira, Agosto 19, 2003]


Um dia... o amor

Quando voltares
chegue devagar
sem
pressa.
Deixe a poeira da ansiedade
escorrer
pelo
corpo
e cair na terra.
Os fantasmas que habitaram
seu olhar
decerto se desprenderão.

Solte seu coração
sinta-o acelerar.
Pressinta.
Precise.

Abra a janela da emoção.
Aqui te esperam
a velha poltrona aconchegante,
o seu livro de poemas,
o vinho e as toalhas macias.

Não olhe para trás.
Esquece o ontem.
Avance...Avance...

Perscrute..
Dois olhos negros e
ansiosos
aguardam os sons de
seus passos .

Aspire...
Sinta o perfume da alfazema.
Deixe que a tarde
vagarosamente
se feche.
Não feche as cortinas.
Permita que a noite
seja cúmplice desse momento
e cambaleante
atravesse o amor
para repousar no colo
dos amantes.

Andarilha descalça
06/08/2003




por Andarilha descalça * 10:36 AM

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[Segunda-feira, Agosto 18, 2003]


Ninguém me Habita
Thiago de Mello


Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.





por Andarilha descalça * 11:07 AM

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Um pouco do muito que ELE nos deixa..
Com admiração deixo aqui para mim, para todos..

Andarilha descalça

Nascemorre
(Haroldo de Campos)


se

nasce

morre nasce

morre nasce morre

renasce remorre renasce

remorre renasce

remorre

re

re

desnasce

desmorre desnasce

desmorre desnasce desmorre

nascemorrenasce

morrenasce

morre

se






por Andarilha descalça * 10:43 AM

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[Sábado, Agosto 16, 2003]


Cântico IV
Cecília Meireles


Tu tens medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então será eterno.




por Andarilha descalça * 7:15 PM

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[Sexta-feira, Agosto 15, 2003]


Canto do povo de um lugar
(Caetano Veloso)

Todo dia o sol levanta
e a gente canta
o sol de todo dia.
Fim da tarde a terra cora
e a gente chora
porque finda a tarde.
Quando a noite a lua amansa
e a gente dança
venerando a noite.



por Andarilha descalça * 11:48 AM

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por Andarilha descalça * 8:59 AM

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[Quinta-feira, Agosto 14, 2003]




por Andarilha descalça * 2:36 PM

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Construção
(Chico Buarque de Holanda)

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado.




por Andarilha descalça * 10:42 AM

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Trapezista
(Cecilia Meireles)

De que maneira chegaremos
às brancas portas da Via-Láctea?

Será com asas ou com remos?
Será com os músculos com que saltas?

Leva-me agarrada aos teus ombros
como um cendal para agasalhar-te!

Seremos pássaros ou anjos
atravessando a sombra da tarde!

Deixaremos a terra juntos
e justapostos como metade,

sem o triste pó dos defuntos,
sem qualquer bruma que enlute os ares!

Sem nada de humanos assuntos:
muito mais puros, muito mais graves!

Cecília Meireles



por Andarilha descalça * 8:27 AM

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[Quarta-feira, Agosto 13, 2003]


DEUS ESTÁ FALANDO COM VOCÊ!!!

(Prece Indígena - Tradução e adaptação do Livro By San Etioy)



Um homem sussurrou: Deus fale comigo.

E um rouxinol começou a cantar

Mas o homem não ouviu.


Então o homem repetiu:

Deus fale comigo!

E um trovão ecoou nos céus

Mas o homem foi incapaz de ouvir.


O Homem olhou em volta e disse:

Deus deixe-me vê-lo

E uma estrela brilhou no céu

Mas o homem não a notou.


O homem começou a gritar:

Deus mostre-me um milagre

E uma criança nasceu

Mas o homem não sentiu o pulsar da vida.


Então o homem começou a chorar e a se desesperar:

Deus toque-me e deixe-me sentir que você está aqui comigo...

E uma borboleta pousou suavemente

Em seu ombro

O homem espantou a borboleta com a mão e desiludido

Continuou o seu caminho triste, sozinho e com medo.



Até quando teremos que sofrer para compreendermos que Deus
está sempre aonde está a vida ???

Até quando manteremos nossos olhos e nossos
corações fechados para o milagre da vida que
se apresentas diante de nós em todos os momentos ???






por Andarilha descalça * 1:26 PM

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[Terça-feira, Agosto 12, 2003]


Condição de mulher
(Maria do Carmo Lobatro)

Fala baixo, podem escutar,
Geme e xinga baixinho,
Pra não acordar o vizinho.
Cuidado, a cama está rangendo.
E deste jeito, gemendo,
Vai correr amanhã o boato
Que tu praticaste um ato
Eivado de desacato
À moralidade e ao Direito,
Aos bons costumes e ao respeito.
E a vizinha, com inveja
Da tua simples liberdade
Que ela não consegue ter,
Vai espalhar no condomínio
Que és um ser sem domínio,
Predestinada a morrer,
Que és uma gata perdida,
Por certo ganhas a vida,
Vendendo aos homens prazer,
Não vai ela entender nunca,
No vai e vem da sua vida.
Que a sua vida não é vida,
É obrigação de ser
Qualificada de esposa,
E neste estado ela não ousa
Amar e sentir prazer,
Pois, pela Religião,
Prazer é coisa do Cão,
É coisa pra não se ter,
Prazer é pecado mortal,
O prazer fere a moral,
E as virtudes do "Alto Ser".
A pobre vizinha escuta
Todos os dias no rádio
Que sentir prazer é pra puta,
Que esposa é mulher "séria"
É a féria com que sustenta
Sua vida e de seus rebentos,
Por certo não advém
de estar à disposição
De um homem que a sustém.
O sistema incutiu nela
Que a que está à disposição
De um só pelo seu tostão
Tem o "status" de esposa,
Não se iguala à mariposa,
Que troca o parceiro João
Pelo José ou o Romão,
Desde que lhe pague o pão.
Aprende, vizinha amiga,
Que a tua condição é a mesma,
Tendo até mais privilégio
A outra que está na zona,
Pois esta não tem quem tome
Dela satisfação,
Trabalha o dia que quer,
Ela é bem mais mulher
Na sua situação,
Que uma "esposa" qualquer
Debaixo de repressão.
Mulher companheira, amiga,
O que é o Casamento,
Se não ver teu sentimento
Menosprezado até o ponto
De transformá-lo em documento
Com efeito de sacramento?
Atenta pra encenação
desta imbecil instituição,
Que te põe na posição
De prostituta em ação,
Porém, como já falamos,
Em condições bem piores
Por não teres opção
De entregar teu sentimento
Pra quem ditar teu coração.
Este é o jogo do Sistema
No papel que dá à mulher,
Ou ela é Puta de Arena
Ou Puta de um só José.



por Andarilha descalça * 10:19 AM

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por Andarilha descalça * 9:50 AM

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[Sábado, Agosto 09, 2003]


A Alma...
(Gibran Khalil Gibran)


... E o Deus dos deuses separou de si mesmo uma alma e a dotou de beleza.
E deu-lhe a suavidade da brisa matinal e o perfume das flores do campo e a doçura do luar.
E entregou-lhe a taça da alegria, dizendo-lhe:
"Só poderás beber desta taça se esqueceres o passado
e não te preocupares com o futuro.
" E entregou-lhe a taça da tristeza, dizendo:
"Bebe dela, e compreenderás a essência da alegria da vida."
E soprou nela um amor que a abandonaria ao primeiro suspiro
de saciedade, e uma meiguice que a abandonaria
à primeira manifestação de orgulho.
E fez descer sobre ela, do céu, um instinto que lhe
revelaria os caminhos da verdade.
E depositou nas suas profundezas uma visão que vê,
o que não se vê.
E criou nela sentimentos que deslizam com as
sombras e caminham com os fantasmas.
E vestiu-a de um vestido de paixão que os
anjos teceram com as ondulações do arco-íris.
E colocou nela as trevas da dúvida, que são as sombras da luz.
E tomou fogo da forja do ódio, e ventos do deserto da ignorância,
e areia do mar do egoísmo, e terra pisada pelos pés dos
séculos e amassou todos esses elementos e fez o homem.
E deu-lhe uma força cega que se inflama nas horas de
loucura e desvanece diante das tentações.
Depois, depositou nele a vida, que é o reflexo da morte.
E sorriu o Deus dos deuses, e chorou,
e sentiu um amor incomensurável
e infinito e uniu o homem e a alma







por Andarilha descalça * 11:47 PM

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por Andarilha descalça * 11:33 PM

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Despedida
(Cecília Meireles)

Vais ficando longe de mim
Como o sono, nas alvoradas;
Mas há estrelas sobressaltadas
Resplandecendo além do fim.

Bebo essas luzes com tristeza,
Porque sinto bem que elas são
O último vinho e o último pão
De uma definitiva mesa.

E olho para a fuga do mar,
E para a ascensão das montanhas,
E vejo como te acompanhas,
Para me desacompanhar.

As luzes do amanhecimento
Acharão toda terra igual.
Tudo foi sobrenatural,
Sem peso de contentamento.

Sem noções do mal nem do bem,
Jogo de pura geometria,
Que eu pensei que se jogaria,
Mas não se joga com ninguém.








por Andarilha descalça * 11:02 PM

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por Andarilha descalça * 10:56 PM

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A tua voz fala amorosa
(Fernando Pessoa)

A tua voz fala amorosa...
Tão meiga fala que me esquece
Que é falsa a sua branda prosa
Meu coração desentristece.

Sim, como a música sugere
O que na música não'stá,
Meu coração nada mais quer
Que a melodia que em ti há...

Amar-me ? Quem o crera ? Fala
Na mesma voz que nada diz
Se és uma música que embala.
Eu ouço, ignoro, e sou feliz.

Nem há felicidade falsa,
Enquanto dura é verdadeira.
Que importa o que a verdade exalça
Se sou feliz desta maneira ?





por Andarilha descalça * 10:47 PM

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Ausência
(Vinícius de Moraes )

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que são doces...
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...
E em minha voz, a tua voz...
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado...
Eu deixarei...Tu irás e encostarás tua face em outra face...
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada...
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...
Porque eu fui o grande íntimo da noite...
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa...
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,
Serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.







por Andarilha descalça * 10:39 PM

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Se ao menos
(Rainer Maria Rilke)


Se ao menos uma vez tudo se aquietasse
Se se calassem o talvez e o mais ou menos
E o riso à minha volta...
Se o barulho que fazem meus sentidos
Não perturbasse mais minha vigília...
Então, num pensamento multifário
Poderia eu pensar-te até aos teus limites
E possuir-te (só o tempo de um sorriso)
E oferecer-te a vida inteira,
Como um agradecimento.







por Andarilha descalça * 10:35 PM

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[Sexta-feira, Agosto 08, 2003]




por Andarilha descalça * 11:40 AM

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[Quinta-feira, Agosto 07, 2003]


Muitas vezes as pessoas são egocêntricas,
ilógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.

Se você é gentil, as pessoas podem
acusá-la de egoísta, interesseira.
Seja gentil assim mesmo.

Se você é uma vencedora, terá
alguns falsos amigos e alguns
inimigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.

Se você é honesta e franca,
as pessoas podem enganá-la.
Seja honesta e franca
assim mesmo.

O que você levou anos para
construir, alguém pode destruir
de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.

Se você tem paz e é feliz,
as pessoas podem sentir inveja.
Seja feliz assim mesmo.

O bem que você faz hoje pode
ser esquecido amanhã.
Faça o bem assim mesmo.

Dê ao mundo o melhor
de você, mas isso pode nunca
ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.

Veja você que, no final das contas,
é entre você e Deus.
Nunca foi entre você e as
outras pessoas.

(Madre Teresa de Calcutá}



por Andarilha descalça * 12:32 PM

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[Terça-feira, Agosto 05, 2003]


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro.
É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".

Irmão do meu momento:
quando eu morrer Uma coisa infinita também morre.
É difícil dizê-lo: MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
e tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
não cabe no meu canto.

Hilda Hilst




por Andarilha descalça * 9:02 PM

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Oração
(Dalai Lama)


Que eu me torne em todos os momentos, agora e sempre,
um protetor para os desprotegidos,
um guia para os que perderam o rumo,
um navio para os que têm oceanos a cruzar,
uma ponte para os que têm rios a atravessar,
um santuário para os que estão em perigo,
uma lâmpada para os que não têm abrigo
e um servidor para todos os necessitados.




por Andarilha descalça * 12:13 PM

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[Segunda-feira, Agosto 04, 2003]




por Andarilha descalça * 12:21 PM

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Trabalhos de Amor Perdido

(William Shakespeare)

Mas o amor,
primeiro aprendido em uns olhos de mulher,
não vive sozinho fechado na cabeça,
mas com a agilidade de todos os elementos,
corre com a rapidez de nossos pensamentos
e dá a cada faculdade dupla potência,
acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
que passa despercebido ao ladrão cauteloso;
o tato do amor é mais fino e sensível
que as sensitivas antenas do caracol.

Ao paladar do amor
desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é o amor um Hércules
ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a esfinge
doce e musical
como o alaúde do brilhante Apolo,
encordoado com seus cabelos;
e quando o amor fala,
a voz de todos os deuses
deixa os céus estonteados com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar uma pena para escrever
até que sua tinta
seja temperada pelos suspiros do Amor.



por Andarilha descalça * 12:20 PM

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[Domingo, Agosto 03, 2003]


A busca

(Vera Regina Marçallo Gaetani)

Fui como a florque vingou por acaso.
Como o acaso não existe,
não tinha razão de ser.
Fui como a gota de orvalhosem planta para orvalhar.
Diluí-me pela terra,
orvalhando não sabia o quê.
Fui a rosa fecundada,
gerando tantas outras,
querendo formar jardim.
Mas à medida em que elas cresciam,
lá se iam e se afastavam de mim.
Fui como o raio de soltentando aquecer alguém.
Mas as nuvens zombeteiras,
brincando de esconde-esconde,
me impediram isso também.
Cansada de procurar,
exausta de não encontrarquem acreditasse em mim,
fui aos poucos me calando,
cada vez mais me afastando do vozerio aí de fora.
Palavras fúteis, inúteisao meu momento de agora.
E no profundo silênciodo meu "eu",
de repente fui achar tudo aquilo que era meu.
Estava lá meu jardim com todas aquelas flores
que um dia germinei,
umidecidas de amores
do orvalho que esparramei.
O raio de sol brilhava com tamanha intensidade
que quase me cegava,
tão grande sua claridade.
E num ato de coragem,
nunca antes tido então,
desnudei-me de meus rótulos,
bengalas joguei ao chão.
Escancarei as janelas,
vislumbrando diante delas
a conquista do sem fim!
O infinito... a eternidade...e meu Deus dentro de mim.



por Andarilha descalça * 5:43 PM

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[Sábado, Agosto 02, 2003]


CANTO DO VERBO EM BUSCA DA FORMA
(Teodomiro Alberto A. L. Vasconcelos)


Eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Antes do mar
fui vôo Antes do sal fui mar
e sede antes da água fresca Antes do verso
eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo
Estando antes eu nunca fui ontem
e sendo a tudo preso nunca fui refém
nem de mim mesmo porque a minha fome
não tem distância horizonte não tem nome
Sempre que me contam sou inumerável
sempre que me caçam sou invulnerável
Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo
a minha dimensão é outra sou o compasso
cósmico a que palpitam todas as galáxias
e a que se geram flores nos ramos das acácias
Não fui planeado nem projeto Não sou vontade
Nas letras de prisão lêem-me liberdade
não a minha a tua a deles ou a de todos
Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos
e das aves dos rios dos homens e mulheres
de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres
Por isso eu presido a todos os enganos
os do céu os da terra há tantos anos
que nem o tempo os lembra Sou a razão
de todas as derrotas o coração
da mágoa as mãos do desespero
Eu sempre estou e permaneço e espero
desde o caos e canto o refazer do desejo
na sua liberdade como lábios no beijo
Em mim tudo recomeça
grão a grão ponto a ponto peça a peça
mão a mão sol a sol segundo a segundo
porque comigo recomeça o mundo
até que tudo seja o que não vejo
até que o mundo seja o do desejo"



por Andarilha descalça * 10:11 PM

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[Sexta-feira, Agosto 01, 2003]


Arriscando-se

É renunciando o conforto do ninho que o pássaro
voa e se deleita com as amplas e maravilhosas
paisagens da natureza.

Torre Pastorino



por Andarilha descalça * 12:12 PM

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