Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
[Quinta-feira, Julho 31, 2003]

por Andarilha descalça * 10:13 AM
... anda sempre tão unido o meu tormento comigo,
que eu mesmo sou meu perigo.
(Camões)
***
... grande astro! Qual seria sua felicidade
se lhe faltassem aqueles a quem ilumina?
(Nietzsche)

por Andarilha descalça * 10:12 AM
[Quarta-feira, Julho 30, 2003]
Você é levado em sua vida
pela criatura viva interior,
o ser espiritual brincalhão
que é o seu ser verdadeiro.
Não dê as costas
a possíveis futuros
antes de ter certeza de que não tem
nada a aprender com eles.
Você está sempre livre
para mudar de idéia e
escolher um futuro, ou
um passado
diferentes.
***
A marca de sua ignorância é a profundidade
da sua crença na injustiça
e na tragédia.
O que a lagarta
chama de fim do mundo,
o mestre chama de borboleta.
***
¿ E o que fariam vocês¿,
perguntou o Mestre
à multidão, ¿ se Deus lhes falasse
diretamente, em
pessoa e dissesse:
¿ ORDENO QUE SEJAS FELIZ NO MUNDO,
ENQUANTO VIVERES.¿
O que fariam então?¿
E a multidão calou-se,
não se ouvindo sequer
uma voz ou som sobre
os morros e através
dos vales.
E o mestre disse em meio
ao silêncio:
¿ No caminho de nossa felicidade
encontraremos o conhecimento
para o qual escolhemos
esta vida. É assim que
aprendi hoje e prefiro
deixá-los agora para
seguirem o seu caminho
como desejarem.¿
E seguiu o seu caminho
no meio da multidão,
voltando ao mundo
cotidiano dos homens
e dos motores.
Richard Bach
Ilusões.

por Andarilha descalça * 12:26 PM
[Terça-feira, Julho 29, 2003]
"ANJO"
Eu era a flor desfolhada
Dos vendavais a correr
Tu foste a gota dourada
E o lírio pode viver
Eu era sombrio e triste...
Contente minh'alma'é
Eu duvidava...sorriste
Já no amor tenho fé.
A fronte que ardia em brasas
A seus delírios pôs fim
Sentindo o roçar das asas
O sopro dum querubim
Um anjo veio e deu vida
Ao peito de amores nu...
Minh'alma agora remida
Adora o anjo que és tu.
Do livro "As Primaveras"
Casimiro De Abreu
Enviado com carinho por
Cecília

por Andarilha descalça * 12:30 PM
Cântico XXI
(Cecilia Meireles)
O teu começo vem de muito longe.
O teu fim termina no teu começo.
Contempla-te em redor.
Compara. Tudo é o mesmo.
Tudo é sem mudança.
Só as cores e as linhas mudaram.
Que importa as cores, para o Senhor da Luz?
Dentro das cores a luz é a mesma.
Que importa as linhas, para o Senhor do Ritmo?
Dentro das linhas o ritmo é igual.
Os outros vêem com os olhos ensombrados.
Que o mundo perturbou,
com as novas formas.
com as novas tintas.
Tu verás com os teus olhos.
Em sabedoria.
E verás muito além

por Andarilha descalça * 12:09 PM
[Segunda-feira, Julho 28, 2003]
A pequena morte
(Eduardo Galeano)
Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais
profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo:
no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e
suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa,
e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque
nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam
na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos
faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar
e acabando conosco nos principia.
Pequena morte, dizem;
mas grande, muito grande haverá de ser,
se ao nos matar nos nasce.

por Andarilha descalça * 12:21 PM
[Quinta-feira, Julho 24, 2003]
Canção do meu olhar
(Dúnia de Freitas)
Se meu olhar
te disser além, muito além
do que queres saber,
desvia.
Se meu olhar
me trair
e deixar transparecer
toda a ternura
que tenho por ti,
disfarça.
Se meu olhar
tentar assim
te conquistar e seduzir
e o brilho ardente
te incomodar,
dissimula.
Se meu olhar,
em teu olhar, encontrar
a mesma sintonia,
por favor,
sorria.
*******

por Andarilha descalça * 12:25 PM
[Quarta-feira, Julho 23, 2003]
Existem dias que o silêncio fala por nós.
Andarilha descalça

por Andarilha descalça * 12:24 PM
[Terça-feira, Julho 22, 2003]
Nos ensinam o medo e depois
querem que sejamos normais.
Andarilha descalça
É o medo...
(Amanda McBroom)
É o coração com medo de parar.
Que nunca aprende a dançar.
É o sonho que teme o despertar
Que jamais corre o risco.
Aquele que não quer ser aceito,
também não quer se entregar.
E a alma com medo da morte, nunca aprenderá a viver.

por Andarilha descalça * 12:46 PM
[Segunda-feira, Julho 21, 2003]

por Andarilha descalça * 12:12 PM
[Domingo, Julho 20, 2003]
Impertinência
Glória Horta
Agora compreendi.
Não te posso ter...
E eu, que encontrei teu riso
Na boca da noite
E guardei na minha,
Eu, que contemplei a vida
Na exposição policromática
Dos teus olhos,
E do teu saber olhar,
Eu, só agora percebo
Que eras da vida,
E que eu só queria
Te ver viver.
Nada de pertencer.

por Andarilha descalça * 4:57 PM
Meta
(Flora Figueiredo)
Não quero mais sonetos
para perpetuar
meus descaminhos.
Nem quero saber
onde foi se perder
minha estrela cadente.
Não quero gravetos
a sinalizar
os lugares por onde eu andar.
Vou dissipar os rastros
e dispensar os astros.
A luz é lá na frente.
Não quero voltar.
por Andarilha descalça * 3:38 PM
Reflexivo
Afonso Romano de Santana
O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.

por Andarilha descalça * 3:30 PM
[Sábado, Julho 19, 2003]
Ai, quem me dera
(Vinicius de Moraes)
Ai,quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim
Ai,quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo,ver brotar a flor.
Ai,quem me dera uma manhã feliz.
Ai,quem me dera uma estação de amor
Ah,se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais
Ai,quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim
Ai,quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E,finda a espera,ouvir na primavera
Alguém chamar por mim

por Andarilha descalça * 8:21 PM
Que Este Amor Não Me Cegue
Nem Me Siga
(Hilda Hilst)
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só sabem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

por Andarilha descalça * 8:11 PM
[Sexta-feira, Julho 18, 2003]
Diz
Isabel Machado
Sim... pode falar...
fale de paixão
fale de tesão
fale do teu jeito
que não é maldito
fale sussurrando tudo
ao meu ouvido
como um zumbido
de prazer...
Diga... diga que está apaixonado
diga que és o meu amado
desde outra vida
e que nada será violado
além da paixão
e que sempre haverá o cuidado
de nos pertencer...
... proteção...
Diz... diz que desejas o meu último sorriso
diz tudo aquilo que eu preciso
diga o que quer
e o que não quer
teu coração...
é tudo permitido
êxtase de emoção.
por Andarilha descalça * 9:32 PM
Deserto de nós dois
Se os dedos que apertei
em minhas mãos
os braços que toquei em longos e maravilhosos
silêncios
são aqueles que prometem
e no final apenas dizem que sustentam
minha dor
Se tudo que sonhei não passa de cruel cena
de filme
onde o ator desperta
e diz que um crime é um prazer
Se é para esperar o Nada
acontecer
sem ao menos esperar que um dia
o dia possa clarear
ao anoitecer
Eu digo
que assim
prefiro o abrigo de meus próprios deuses
que nunca saberiam entender
a espera desses longos
meses
A escurecer uma história de mulher
que foi roubada
e despejada
no deserto de nós dois
Eliana Mora

por Andarilha descalça * 12:10 PM
[Quinta-feira, Julho 17, 2003]

por Andarilha descalça * 9:21 PM
Operário em construção
(Vinicius de Morais)
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.
Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção

por Andarilha descalça * 9:01 PM

por Andarilha descalça * 12:44 PM
O cio da terra
(Milton Nascimento e Chico Buarque)
Debulhar o trigo
recolher cada bago de trigo
forjar do trigo
o milagre do pão
e se fartar de pão.
Decepar a cana
recolher a garapa da cana
roubar da cana
a doçura do mel
e se fartar de mel.
Afagar a terra
conhecer os desejos da terra
cio da terra, propicia estação
e fecundar o chão.

por Andarilha descalça * 12:39 PM
[Quarta-feira, Julho 16, 2003]
POEMA DOS OLHOS DA AMADA
Ó minha amada
que olhos os teus
são cais noturnos
Cheios de adeus
são docas mansas
trilhando luzes
que brilham longe
longe dos breus...
Ó minha amada
que olhos os teus
quanto mistério
nos olhos teus
quantos saveiros
quantos navios
quantos naufrágios
nos olhos teus...
Ó minha amada
que olhos os teus
se Deus houvera
fizera-os Deus
pois não os fizera
quem não soubera
que há muitas era
nos olhos teus.
Ah, minha amada
de olhos ateus
cria a esperança
nos olhos meus
de verem um dia
o olhar mendigo
da poesia
nos olhos teus
(Vinícius de Morais)

por Andarilha descalça * 12:27 PM
[Terça-feira, Julho 15, 2003]
O plano de vôo da águia
(Autor desconhecido)
Cantarei,
se me sentir deprimido.
Rirei,
se me sentir triste.
Redobrarei meu trabalho,
se me sentir doente.
Avançarei,
se sentir medo.
Vestirei roupas novas,
se me sentir inseguro.
Relembrarei meus objetivos,
se me sentir insignificante.
Hoje, serei senhor das minhas emoções.
Recordarei meus fracassos,
se me sentir confiante demais.
Pensarei nas fomes passadas,
se abusar do presente.
Relembrarei minha luta,
se me sentir complacente.
Relembrarei momentos de vergonha,
se me entregar a momentos de grandeza.
Tentarei parar o ventos,
se me sentir com poder demais.
Relembrarei momentos de fraqueza,
se me tornar demasiado orgulhoso.
Fitarei as estrelas,
se sentir que minhas técnicas são inigualáveis.
Hoje controlarei o meu destino,
e o meu destino é tornar-me o maior homem do mundo.
Serei senhor de mim mesmo.
Serei grande.

por Andarilha descalça * 12:28 PM
[Segunda-feira, Julho 14, 2003]
Pequena Cantiga à Mulher
Teresa Horta
Onde uma tem
O cetim
A outra tem a rudeza
Onde uma tem
A cantiga
A outra tem a firmeza
Tomba o cabelo
Nos ombros
O suor pela
Barriga
Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga
Tapa a nudez
Com as mãos
Procura o pão
Na gaveta
Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra
A pele seca
Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na
Enxada
Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa

por Andarilha descalça * 9:32 PM

por Andarilha descalça * 12:07 PM
[Sábado, Julho 12, 2003]
Sugestão
Thiago de Mello
Não cegues o fio da tua lâmina
contra a pedra em que o tempo transformou
a flor antiga que inventei cantando
quando sequer chegada eras ao mundo.
Nem cultives o cardo do infortúnio
em veredas por onde eu caminhava
antes da tua mão na minha vida.
Não podes apagar o que já é cinza
nem afogar o que a água já levou.
Alguma sombra azul do que passou
vive no amor que nos abraça agora.
Não desperdices teu poder de luz.
Prepara, cada noite, a tua aurora.

por Andarilha descalça * 5:33 PM
Máquina do Tempo
Antonio Gedeão
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
por Andarilha descalça * 5:28 PM
[Sexta-feira, Julho 11, 2003]
Falando de Amor
(Antonio Carlos Jobim)
Se eu pudesse por um dia
Esse amor, essa alegria
Eu te juro, te daria
Se pudesse esse amor todo dia
Chega perto, vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro canção
Se soubesses como eu gosto
Do teu cheiro, teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor
Chora flauta, chora pinho
Choro eu o teu cantor
Chora manso, bem baixinho
Nesse choro falando de amor
Quando passas, tão bonita
Nessa rua banhada de sol
Minha alma segue aflita
E eu me esqueço até do futebol
Vem depressa, vem sem medo
Foi pra ti meu coracao
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro canção
Lá no fundo do meu coração

por Andarilha descalça * 9:10 AM
[Quinta-feira, Julho 10, 2003]
Se não houvesse montanhas
Cecília Meireles
Se não houvesse montanhas!
Se não houvesse paredes!
Se o sonho tecesse malhas
e os braços colhessem redes!
Se a noite e o dia passassem
como nuvens, sem cadeias,
e os instantes da memória
fossem vento nas areias!
Se não houvesse saudade,
solidão nem despedida...
Se a vida inteira não fosse,
além de breve, perdida!
Eu não tinha cavalo de asas,
que morreu sem ter pascigo
E em labirintos se movem
Os fantasmas que persigo.

por Andarilha descalça * 12:39 PM
[Quarta-feira, Julho 09, 2003]

por Andarilha descalça * 12:11 PM
[Terça-feira, Julho 08, 2003]
Tocando em frente
(Almir Sater/ Renato Teixeira)
Ando devagar
porque já tive pressa
e levo esse sorriso
porque já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte,
mais feliz, quem sabe,
eu só levo a certeza
de que muito pouco sei,
ou nada sei.
Conhecer as manhãs
e as manhãs
o sabor das massas
e das maçãs.
É preciso amor
prá poder pulsar
é preciso paz prá poder sorrir
é preciso chuva para florir.
Penso que cumprir a vida seja simplesmente
compreender a marcha e ir
tocando em frente.
Como um velho boiadeiro
levando a boiada
eu vou tocando os dias pela
longa estrada, eu sou
estrada eu vou.
Todo mundo ama um dia,
todo mundo chora.
um dia a gente chega
e no outro vai embora.
Cada um de nós compõe
a sua própria história
e cada ser em si
carrega o dom de ser capaz
de se feliz.

por Andarilha descalça * 12:24 PM
[Segunda-feira, Julho 07, 2003]
¿ Amanhecer é uma lição do universo
que nos ensina que é preciso renascer¿.
(Raízes ¿ Renato Teixeira)

por Andarilha descalça * 12:19 PM
[Sexta-feira, Julho 04, 2003]
Quase
Mário de Sá Carneiro
Um pouco mais de sol ¿ eu era brasa
Um pouco mais de azul ¿ eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão...Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho desapertado em bruma,
O grande sonho ¿ ó dor! ¿ quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim ¿ quase a expansão...
Mas na minh¿alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim...-
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se lançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram, mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol ¿ vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol ¿ e fora brasa,
Um pouco mais de azul ¿ e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

por Andarilha descalça * 12:30 PM
[Quinta-feira, Julho 03, 2003]
Estar apaixonado
(Francisco Luis Bernárdez)
Estar apaixonado, amigos,
é encontrar o nome justo da vida.
É recuperar a chave oculta
que abre o cárcere em que a alma está cativa.
É captar, em determinados olhos,
um verdadeiro olhar que nos contempla.
É escutar de uma boca
a própria voz profundamente repetida.
É suspeitar que, para sempre,
a solidão de nossa sombra está vencida.
É descansar os olhos tristes
em uma paisagem de cegonhas e campos.
É governar a luz do fogo e, ao mesmo tempo,
ser escravo da chama.
É contemplar um trem
que passa pela montanha com as luzes acesas.
É escutar à meia-noite
a errante confissão da garoa.
Estar apaixonados, amigos,
é padecer espaço e tempo com doçura.
É despertar certo dia
com o segredo das flores e das frutas.
É comprovar de corpo e alma
que a tarefa de ser homem é menos dura.
É começar a dizer sempre
e em seguida não voltar a dizer nunca.
E é, além disso,
estar seguro de estar com as mãos puras.

por Andarilha descalça * 10:59 PM

por Andarilha descalça * 12:09 PM
[Quarta-feira, Julho 02, 2003]
Solte-se!
Liberte-se!
Voe!
E tudo o que o Universo produz de belo e grandioso
será alimento para o seu coração,
inspiração para a sua mente e
luz para seus olhos.
(C. Torres Pastorino)

por Andarilha descalça * 12:11 PM
[Terça-feira, Julho 01, 2003]
Eu recomendo...
Encontro de almas
Jalal ud-Din Rumi
Vem.
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes,
sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
sem língua, sem lábios.
Sem abrir a boca,
contemo-nos todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.
Fujamos dos incrédulos
que só são capazes de entender
se escutam palavras e vêem rostos.
Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.
Como podes dizer á tua mão: ¿toca¿,
se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessa, posso mostrar-te.

por Andarilha descalça * 9:55 AM