Caminhos onde meu olhar pousa, minha mente habita... Caminhos de imagens, palavras, sentimentos... Caminhos por onde transita minha alma andarilha.

1492 A Conquista do Paraiso
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[Segunda-feira, Junho 30, 2003]


A Lista
(Oswaldo Montenegro)

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você.



por Andarilha descalça * 8:33 PM

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Acreditamos que as coisas e as pessoas é que nos
fazem infelizes, mas isso não é verdade - somos
causa e efeito de nós mesmos.

(Hammed)





por Andarilha descalça * 12:25 PM

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[Sexta-feira, Junho 27, 2003]



por Andarilha descalça * 12:14 PM

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[Quarta-feira, Junho 25, 2003]


A pomba apunhalada
Carlos Heitor Cony


Faz tempo, escrevi uma crônica para o programa
¿ Mais Você¿, da TV Globo, sobre uma pomba
que vem todas as manhãs bicar uns pedacinhos de pão
que deixo no peitoril da janela da cozinha.
É uma pomba branca, rechonchuda, desconfiada e faminta.
Vem de longe, parece, de Copacabana, atravessa pelo alto o morro dos Cabritos
e vem buscar o carinho que lhe dou em troca da alegria que ela me dá.
Outro dia, ela veio ferida, havia um colar de sangue em torno de seu peito branco.
Não comeu o pão farto que ali colocara para ela.
Ficou me olhando, exigindo que eu compreendesse.
Ela fora machucada, ao que parece de propósito, parecia um corte de gilete.
Com cuidado, segurei-a, lavei-lhe a ferida, não era profunda.
Profundos eram seus olhinhos vermelhos, que me cobravam
uma explicação para aquilo.
Passou uns dias sem aparecer. No sábado, o dia nem havia nascido, e
ouvi o barulho na área de serviço. Fui ver o que era. A pomba lá estava, caída no chão,
o colar de sangue na altura do peito.
Dessa vez não tive dúvida: não fora um acidente. Alguém a ferira com uma faca
ou um canivete, deixando-a viva para sofrer a dor da ferida e a estupidez da agressão.
Fiz o que pude. Agasalhei-a, ela parecia sentir frio. Coloquei-a numa caixa, com
alpiste que mandei comprar.
Ontem, quando acordei, ela tinha ido embora.
Esperei-a à tarde, quando as pombas costumam voltar.
Não apareceu.
Teria sido apunhalada mais uma vez?
Por que não ficara comigo?
O que fora buscar lá fora, em seu destino de pomba misturado com o destino
de homens que apunhalam pombas?
Depois do Dilúvio, uma pomba trouxe um ramo de paz para o homem e para sua arca.
Vou continuar esperando.
As águas ainda não baixaram, mas eu tenho a certeza de que ela virá.



por Andarilha descalça * 12:15 PM

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[Segunda-feira, Junho 23, 2003]



por Andarilha descalça * 12:35 PM

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por Andarilha descalça * 12:34 PM

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por Andarilha descalça * 12:12 PM

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[Domingo, Junho 22, 2003]



Suas Mãos



Não ousarei tocar suas mãos
para que o sonho não seja profanado.
Essas mãos que não sei bem
se alguma vez as retive junto a mim.

Não tocarei suas mãos..
Quero-as sempre imaculadas.

Mãos que acordaram desejos
e evocaram segredos.
Mãos que secretamente choraram o vazio
e cantaram a dor..

Mãos indefinidamente aradas pelo tempo.
Que guardaram silêncios
e beberam do amor.
Que afagaram sorrisos
e reteram calor.

Não tocarei suas mãos!
Deixo-as para sempre imaculadas.

Andarilha descalça





por Andarilha descalça * 3:52 PM

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Depois do sol
Cecília Meireles

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
¿ As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .





por Andarilha descalça * 3:37 PM

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[Sábado, Junho 21, 2003]

Divindade
( Tao Te Ching, poema 14 de Lao Tsé )

Quem quer ver a Divindade
Não a verá,
Porque ela é invisível.
Quem quer ouvir a Divindade
Não a ouvirá,
Porque ela é inaudível.
Quem quer tanger a Divindade
Não a tangerá,
Porque ela não tem forma.
Nenhum caminho parcial
Conduz à meta total.
Só na visão do Todo se encontra a Divindade
E então a superfície parece tenebrosa escuridão,
Equanto a profundeza parece luminosa superfície.
Nunca a Divindade é inteligível,
Ela permeia o Universo sem fim
E gira pelo Todo como se fosse Nada.
A Divindade é o Ser sem o Existir,
É o mais Insondável de todos o insondáveis.
Quem encara a Divindade não lhe vê a face.
Quem segue o Infinito o verá sempre fugitivo.
Só quem sintoniza com o Infinito,
Esse o conhece realmente,
Como os antigos o conheciam,
Eles, que sabiam que todos os visíveis
Nascem do Invisível.



por Andarilha descalça * 5:10 PM

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[Sexta-feira, Junho 20, 2003]


Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que
estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio."

Clarice Lispector




por Andarilha descalça * 6:34 PM

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[Quinta-feira, Junho 19, 2003]

Sonhe

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância
das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

Clarice Lispector




por Andarilha descalça * 3:06 PM

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[Quarta-feira, Junho 18, 2003]




Uma homenagem especial!!!


por Andarilha descalça * 9:03 PM

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Aprendi

Aprendi a ser de todos os lugares
e de lugar nenhum.
Então onde nascem
os sonhos e as fantasias
onde brotam
as dores e as alegrias
a água
o fogo
e o vento
eu me reconheço.
Me reconheço no espaço
na terra
no tempo.
E meu olhar andarilho não se cansa.
E bebo os sonhos
e devoro ilusões.
O meu alimento
é a beleza do pensamento,
a busca eterna da essência.
Minha alegria
é a magia da fantasia,
nela eu posso sonhar.
E se consigo sonhar
consigo fazer.
Se consigo fazer
consigo ser.
E então
consigo viver.

Andarilha descalça
junho/2003



por Andarilha descalça * 12:10 PM

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[Terça-feira, Junho 17, 2003]



Hoje eu me vesti de claridade


Hoje eu me vesti de claridade
e deslizei entre
a memória de antigos tempos.
Andei pelas ruas entre as folhas
enquanto os pássaros me contavam segredos.
Hoje eu me vesti de claridade
e a natureza se revelou mais amiga.
Revi as gramas que ainda serão plantadas
e descobri versos verdes, azuis e violetas.
Caminhei por lugar imaginário
na alameda clara.
O sol me encantou com suas histórias,
falava de reflexos e jardins.
Hoje eu me vesti de claridade
e a claridade sorriu para mim
e sorrindo descobrimos a vida.


Andarilha descalça
junho/2003



por Andarilha descalça * 12:13 PM

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[Segunda-feira, Junho 16, 2003]



Destino




O que eu sinto
é este infinito espaço
entre a palavra e a magia
que circula em minha veia
entre o permitido e o proibido.

Então deixo o pensamento
vagar distraído
em busca do
verbo traduzido
que me aponte
a direção
do poema sentido.
Por fim encontro-te
e tudo o mais
são temores
esquecidos.


Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 12:21 PM

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[Domingo, Junho 15, 2003]


Não faças de ti
um sonho a realizar.
Vai.
(Cecília Meireles)





por Andarilha descalça * 7:27 PM

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Nadador
Cecília Meireles

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, passáro da água!

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento...



por Andarilha descalça * 6:38 PM

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[Sábado, Junho 14, 2003]




Você em mim



É como se soubesse de você
antes mesmo de tua aparição
é como se em mim se desaguasse
fino rio de orvalho e emoção.

É como se meu dentro me intimasse
feito barco correndo sem descanso
desbravando todos teus segredos
inundando teus cantos e remansos.

É como se meu corpo se encontrasse
o gosto de teu corpo secular
na boca o desejo desmedido
na alma o prenúncio do amar.

É como se de mim se desprendesse
um cheiro de resina ou de flor
e como se falar não fosse tudo
os olhos se entregaram sem pudor.

E como se não fôra necessário
o esbôço de uma tela colorida
as tintas misturadas se escorreram
tingindo o grande desenho da vida.

Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 3:46 PM

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[Sexta-feira, Junho 13, 2003]


Abstrato




Abstrato é o amor
o amar
é o querer
é o pecar.

Abstrato é o silêncio
o calar
é o sentir sem tocar.

Abstrato é o desejo
inesgotável
insaciável
inexplicável
que fere secretamente
o olhar.

Andarilha descalça




por Andarilha descalça * 12:19 PM

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[Quinta-feira, Junho 12, 2003]


A palma de minha mão


Na palma de minha mão
há um pouco de tudo:
Vozes de saudade
medo da solidão
asas de sonho
brilho de lágrimas
perfume de flores
paz de orgasmo
canto de bem-te-vi.
A palma de minha mão
é um ninho
repleto de poema
que oferto a ti.

Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 12:11 PM

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[Quarta-feira, Junho 11, 2003]

"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio."

"As vezes a gente acha que está dizendo bobagens
e está fazendo poesia."

"Se as coisas são inatingíveis,
não é motivo para não quere-las.
Que tristes os caminhos se não fora,
a magica presença das estrelas!"

"Não te irrites, por mais que te fizerem ...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

"Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho ! "

(Mário Quintana)



por Andarilha descalça * 12:41 PM

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Porto seguro


Seu riso
é feito
rio manso
que num
espaço perfeito
eu me deito
e descanso.


Seu riso
é feito
imenso mar
que em
sucessivas ondas
eu mergulho
sem indagar.

Seu riso
é feito
sal e sol de verão
que me servem
de abrigo
quando desmorono
ou perco a razão.



Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 12:39 PM

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[Terça-feira, Junho 10, 2003]


Palavras

Palavras soltas ao vento
palavras que encobrem saudade
palavras que atiçam
prometem
e ferem.
Palavras que exprimem ansiedade.

Palavras que vão e não voltam
palavras que cortam feito bisturi
palavras que apenas são
palavras ditas em vão
palavras que reprimem
suprimem
deprimem
Palavras que instigam solidão

Palavras puras
palavras duras
palavras que expõem coração
palavras que molham o corpo
palavras infernais
fatais
Palavras finais.

Palavras que secam a alma
palavras que desmoronam
palavras que criam tristezas
palavras impensadas
rimadas
iradas
palavras esperadas.

Palavras em boca manchada de baton
palavras perfumadas
insensatas
belas
palavras poemas
palavras paixão
palavras que tecem compaixão

Palavras claras e
raras
palavras insolentes
palavras que apavoram
devoram
ignoram
demoram.


Palavras lavradas
pa ...lavras..

Andarilha descalça
2003




por Andarilha descalça * 9:30 PM

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[Segunda-feira, Junho 09, 2003]

Tudo que é natureza
é arte que desconheces;
tudo que é acaso
é direcionamento que não podes ver;
tudo que é discordância
é harmonia não compreendida;
tudo que é mal parcial
é bem universal.

Alexander Pope
poeta inglês - século 18.



por Andarilha descalça * 12:16 PM

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[Domingo, Junho 08, 2003]

"Assim que se olharam, amaram-se; assim que se
amaram, suspiraram; assim que suspiraram,
perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que
descobriram o motivo, procuraram o remédio.
(Shakespeare)



por Andarilha descalça * 4:26 PM

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[Sábado, Junho 07, 2003]


Voyeur

Espia...
Na fresta do que não digo,
onde moram meus amores
No rasgo do meu sorriso,
onde nascem meus humores
Na fenda do meu vestido,
onde resistem meus pudores
Nas brechas do dia-a-dia,
de onde brota essa energia
Espia...
e me delicia
Claudia Letti





por Andarilha descalça * 9:49 PM

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Semeia

Semeia, semeia:
o que importa é semear
- pouco, muito, tudo -
a semente da esperança.
Semeia tuas energias
para poderes enfrentar
as lutas da vida.
Semeia tua coragem
para poderes encorajar o outro.
Semeia teu entusiasmo,
tua fé, teu amor.
Semeia coisas pequeninas,
insignificantes.
Semeia e confia:
cada semente há de enriquecer
um pequeno espaço de chão.

Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 8:21 PM

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Para ser grande,
sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago
a lua toda
brilha, porque alta vive.

(Odes de Ricardo Reis)

******


Só a a arte é útil.
Crenças, exércitos, impérios,
atitudes - tudo isso passa.
Só a arte fica, por isso só a arte vê-se,
porque dura.

************


Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros
espelhos fantásticos que torcem para
reflexões falsas
uma única anterior realidade que
não está em nenhuma e está em todas.

***************


Sentir é criar.
Sentir é pensar sem idéias,
e por isso sentir é compreender,
visto que o universo
não tem idéias.

************

Sentir é compreender.
Pensar é errar.
Compreender o que outra pessoa pensa
é discordar dela.
Compreender o que outra pessoa sente
é ser ela.
Ser outra pessoa é de grande
utilidade metafísica.
Deus é toda a gente.

*********

Viver não é necessário.
Necessário é criar.

******

O paradoxo não é meu;
sou eu.


****

Não pondero sonhos;
não me sinto inspirado:
deliro.

****


Sê plural como o universo.

******



por Andarilha descalça * 7:52 PM

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[Sexta-feira, Junho 06, 2003]


Soneto
Luís de Camões

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce e é piedoso;
Quem o contrário diz não seja crido:
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens e inda aos deuses odioso.
Se males faz Amor, em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria




por Andarilha descalça * 12:57 PM

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Emigrando


Libertei a fera
que avidamente
voou em busca
de pacífica revolução
rompendo sonhos seculares
de barreiras que alimentaram
minha loucura.

E eu fiquei nua
mas pura.

Esvaziei o céu
deixando intacta
a gota derradeira.

E eu fiquei só
mas inteira.

Enchi a taça
que transbordando
rolou pela terra
em várias direções
misturando o sal
em água indefinida.

E eu fiquei calada
observando o milagre da vida.


Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 12:46 PM

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Ternura


Acolha-me em tuas
suaves mãos.
Limpa meus pensamentos
de todo medo.
Abrace meu coração
menino sem berço.
Sussurra baixinho
os contos de fadas
pra eu ninar.
E então sonha
comigo
os nossos sonhos
de sempre.


Andarilha descalça


por Andarilha descalça * 11:14 AM

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[Quinta-feira, Junho 05, 2003]


Agonia

Esperança morta
onde esconde meu desejo?

Balança, Esperança!
Sacode meu interior.

Grita, Esperança!
Acorda o meu torpor.
Venha ao meu encontro
desata-me o furor.

Caminha, Esperança!
Seja livre
solta as rédeas do rancor.

Voa, Esperança, voa!
Sopra o vento
do amor.

Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 12:15 PM

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[Quarta-feira, Junho 04, 2003]


Arco


Que quer o anjo? chamá-la.
Que quer a alma? perder-se.
Perder-se em rudes guianas
para jamais encontrar-se.


Que quer a voz? Encantá-lo
que quer o ouvido? embeber-se
de gritos blasfematórios
até quedar aturdido.


Que quer a nuvem? raptá-lo.
Que quer o corpo? solver-se,
Delir memória de vida
E quanto seja memória.



Que quer a paixão? detê-lo.
Que quer o peito? fechar-se
Contra os poderes do mundo
Para na treva fundir-se.



Que quer a canção? erguer-se
Em arco sobre os abismos.
Que quer o homem? salvar-se
Ao prêmio de uma canção.


Carlos Drummond de Andrade



por Andarilha descalça * 12:57 PM

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Álvaro de Campos

Estou Cansado

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto ¿
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.





por Andarilha descalça * 12:45 PM

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[Terça-feira, Junho 03, 2003]



Thiago de Mello

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Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony



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Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.



Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.



Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.



Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.



Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.



Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.



Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.



Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.


Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.



Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.



Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964




por Andarilha descalça * 1:02 PM

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Inversão


Não quero a descoberta
de fatos surpreendentes.

Nem a lógica dos aflitos
tão incoerente.

Não quero a busca dos peregrinos
premente.

Amores sofridos,
bens partidos,
esperanças vãs.
Libero tudo.
Aparto-os de mim.


Olhares, versos obscenos,
virtudes e segredo comum,
desprezarei a todos
um a um.

Certezas e razões
deslocarei de minha mente.

Quero hoje e tão somente
a sincera alegria do demente.


Andarilha descalça




por Andarilha descalça * 12:19 PM

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É preciso


É preciso saber inventar
é preciso reaprender a sonhar
é preciso uma rede para descansar
é preciso estrelas contar.
É preciso a saudade espantar
é preciso saber calar
é preciso nas nuvens brincar
é preciso não chorar.


Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 12:16 PM

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[Segunda-feira, Junho 02, 2003]




"Eu disse a minh´alma,
fica tranqüila e espera...
Até que as trevas sejam luz
e a quietude seja dança."
T. S. Eliot




por Andarilha descalça * 9:58 PM

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Entretanto


Entre tanto barulho
ouço o silêncio.

Entre tantos sorrisos
vislumbro o choro.

Entre tantos olhares
permaneço invisível.

Entre tantos abraços
não sinto seus braços.


Entre tantas mensagens
não entendo a linguagem.

Entre tantas saudades
resisto....

Entretanto
existo.

Andarilha descalça




por Andarilha descalça * 12:51 PM

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Sentir


Penetrar sentidos

e suavemente

perceber

que a vida

é como espuma

pura

que se desmancha

entre partidas

e despedidas

sob um olhar

atônito.


Andarilha descalça







por Andarilha descalça * 12:37 PM

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[Domingo, Junho 01, 2003]



Coesão

Um certo dia
eu descobri que
gostava de poesia
e
nunca mais chorei
sozinha.

Andarilha descalça



por Andarilha descalça * 10:06 PM

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