Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
Belo Horizonte
Uma das minhas paixões:
ORQUÍDEAS.
Um pouco do meu orquidário
para apreciação.
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Meu award

10:00 PM
Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem
Fernando Pessoa
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

Rabiscado por Andarilha descalça
11:14 PM
De um Lado Cantava o Sol
Cecília Meireles
De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!
Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?
Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!
Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim...
Rabiscado por Andarilha descalça
10:33 PM
A chave
Alice Spíndola
No meio da noite, configura
a fragrância das palavras mágicas
Na chave da noite, a ternura,
pluma que verte enigmas
Nas mãos do tempo,
o arado que rasga os mistérios
do sentimento que define
O homem da meia noite,
em seu caminho de volta
que faz
ao adentrar a meia lua
das unhas dos enigmas.
A mão da noite destrava a chave
da fragrância das palavras mágicas.
Rabiscado por Andarilha descalça
9:28 PM
O guardador de rebanhos (extratos da parte V)
Alberto Caeiro
(...)
O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério?
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
(...)
Rabiscado por Andarilha descalça
11:17 PM
O mágico nunca conta os seus segredos.
O poeta nunca explica uma entrelinha.
Rita Apoena
Rabiscado por Andarilha descalça
5:35 PM
Sei que sempre ficará
Algo de mim em ti
E algo de ti em mim
Como na tela o amanhecer
Que o pintor imortalizou.
E se ficam vivas nuanças
Das cores que a vida inventou,
Há um mistério que não se diz,
Escondido,
Em qualquer parte desse matiz.
E como nos versos inacabados
Que o poeta renunciou,
Fica essa aquarela,
Atraente e bela,
Pintada com cores do pranto,
Com esse lado, indecifrável,
Que o pintor deixou em branco.
Letícia Thompson
Rabiscado por Andarilha descalça
10:29 PM
Eu tenho...tu tens...
Eu tenho o tempo,
Tu tens o chão,
Tens as palavras
Entre a luz e a escuridão.
Eu tenho a noite,
E tu tens a dor,
Tens o silêncio
Que por dentro sei de cor.
E eu, e tu,
Perdidos e sós,
Amantes distantes,
Que nunca caiam as pontes entre nós.
Eu tenho o medo,
Tu tens a paz,
Tens a loucura que a manhã ainda te traz.
Eu tenho a terra,
Tu tens as mãos,
Tens o desejo que bata em nós um coração.
E eu, e tu,
Perdidos e sós,
Amantes distantes,
Que nunca caiam as pontes entre nós.
Pedro Abrunhosa
Rabiscado por Andarilha descalça
5:28 PM
UM OUTRO EU
Um outro eu, distante de mim
Distante de me pertencer
E distante de me querer
Um outro eu, num qualquer outro jardim
Dum qualquer outro canto
E com um qualquer outro pensamento
Um outro eu perdido
E desaparecido
Feito vagabundo a deambular para trás e para frente
Ora triste ora contente
Hoje aqui, amanhã ali e depois acolá
Um outro eu feito vagabundo, hoje aqui amanha lá!
Um outro eu por aí numa qualquer esquina
Com uma qualquer companhia
Num qualquer dia
E quiçá com uma qualquer mania
Procurando sua sina
Um outro eu talvez por aí perdido em angústia!
Um outro eu, numa qualquer discoteca de Luanda
Mulher bela, mulher linda
Mulher da vida, mulher que anda
Mostrando pernas grossas e exibindo os seios
Um outro eu mulher gatuna, roubando prazeres alheios
Numa qualquer discoteca de Luanda
Um outro eu, num qualquer quarto de um hotel
Numa cama de um hotel, sorvendo mel
Dando mel a um qualquer desconhecido
Conhecido
Um outro eu mulher linda
Prostituindo-se num qualquer hotel de Luanda
Um outro eu, num qualquer carro desconhecido
Em gemidos proibidos
Algures em canto escondido da ilha de Luanda
Da ilha da kianda
Um outro eu gozando prazeres aldrabados
Gozando prazeres contaminados!
Um outro eu dançando a tarrachinha
Pernas nas pernas entrelaçadas, desejo vivo nas entrelinhas…
Corpos nos corpos juntinhos
Respiração em respiração
Em louca excitação, em louca comunhão
Um qualquer eu a tarrachar, sexos nos sexos coladinhos!
Um outro eu às vezes, por aí entristecido e disperso
Num qualquer canto do planeta
Quiçá mesmo do universo
Um outro eu feito um qualquer cometa
Perdido à procura duma qualquer outra meta
Perdido à procura dum qualquer outro verso!
Um outro eu mulher linda
Mulher da vida, prostituindo-se num qualquer hotel de Luanda!
Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"
Rabiscado por Andarilha descalça
2:19 PM
... Nada ser
nada sou!
e contudo, sou.
sou, porque tu és,
porque fazes com que seja.
vamos dar asas ao desejo,
explorar o lugar onde o tempo pára
ou atravessar a pálida névoa
no cosmos das águas tranquilas,
onde reside o verbo,
onde o espírito se aquece
e a alma se refresca.
vamos dar asas ao desejo,
mergulhar no impulso do inúmero
ou calcorrear as cascatas do céu
no infindo das terras sagradas,
onde tudo é harmonia,
onde se vê o incomensurável
e se sente o improvável.
sim, vamos dar asas ao desejo!
deixar que ele nos leve à génese do ser
e ser qualquer nudez na fluidez do nada.
se nada sou
e mesmo assim sou,
deixa-me Nada permanecer
e contigo apenas Ser.
Vicente Ferreira da Silva
Rabiscado por Andarilha descalça
10:30 PM
FILHOS DA NOSSA ALMA
José M. Raposo
Sei que um dia vou morrer.
Quando tal acontecer,
Deixo-te as rosas e o vento,
Deixo-te a chuva e o sol,
O cantar do rouxinol,
Minha alma
E meu pensamento.
Deixo-te a nuvem que passa
E que o vento faz correr,
Deixo-te o encanto e a graça
De uma papoula a crescer,
Deixo-te as ondas do mar
Que se desmancham na areia,
Deixo-te o tênue luar
Em noites de lua cheia,
Deixo-te a flor e a beleza
Dos poemas que escrevi
E deixo-te a natureza...
Quando o teu tempo findar
E tu te fores daqui,
Nalgum lugar hei de estar
Só esperando por ti.
E ao partires, deixaremos
Plantados, como uma palma,
Os poemas que escrevemos.
Os filhos da nossa alma.
Rabiscado por Andarilha descalça
10:33 PM
Ser, sem nenhuma questão...
Ser, sem nenhuma questão...
Tenho marés e luas
sois, brisas e tempestade
que voam e nadam nuas
aqui e por todo o lado...
Tenho também muita garra
sendo um pouco selvagem
sou como a aragem
que nunca ninguém agarra...
Experimento o frio e o calor
que entra e sai neste coração
e assim viajo em estado de Amor
porque o Sou sem nenhuma questão!...
Manuela Pittet, in "Rostos de Amor"
Né-Atlântis
Rabiscado por Andarilha descalça
9:36 PM
Fosse o rio
abraçaria o mar.
Fosse mar
abraçaria o ar.
Fosse ar
abraçaria o fogo.
Seria então
todo.
Fernando Paixão

Rabiscado por Andarilha descalça
10:44 PM
Pergunta-me
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer.
Mia Couto

Rabiscado por Andarilha descalça
10:14 PM
E então ficamos os dois em silêncio, tão
quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois
caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude
tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...
Nada há mais a dizer, depois que as
próprias mãos
silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...
J.G. de Araujo Jorge
Rabiscado por Andarilha descalça
10:01 PM
O poema no tempo
Emerge da noite e do silêncio o poema,
Habitante da essência dos meus sentimentos.
O poema que me levará no tempo
E passarei entre as mãos
E diante dos olhos livres e límpidos de quem lê.
Sua passagem se confundirá
Com os assovios do vento
Com o rumor dos oceanos.
Ele encontrará uma praia de areias claras
Aonde possa se estender ao sol.
O poema morará inteiro no espaço mais aberto
De ar claro nas tardes lisas e eternas.
Quando eu já não existir mais,
O poema de asas brancas no vôo que lhe coube
Irá pousar em alguém que se fundirá a ele,
Entre paredes densas,
Quando na profunda e devoradora solidão.
Então ele emergirá, mais uma vez,
Da noite, do silêncio, como um cais seguro,
Ou quem sabe
Uma mão aberta e na palma uma esperança.
Antonio Miranda Fernandes

Rabiscado por Andarilha descalça