Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
Belo Horizonte
Uma das minhas paixões:
ORQUÍDEAS.
Um pouco do meu orquidário
para apreciação.
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Selo amizade

Meu award

8:56 PM
Balada das coisas sem importância
Conheço se há moscas no leite,
Conheço pela roupa o homem,
Conheço o tédio e o deleite,
Conheço a fartura e a fome,
Conheço a mulher pelo enfeite,
Conheço o princípio e o fim,
Conheço pela chama o azeite,
Conheço tudo, menos a mim.
Conheço o gibão pela gola,
Conheço o rico pelo anel,
Conheço o fiel pela sacola,
Conheço a monja pelo véu,
Conheço o porco pela tripa,
Conheço o irmão pelo latim,
Conheço o vinho pela pipa,
Conheço tudo, menos a mim.
Conheço a mula e o cavalo,
Conheço o carro e a carreta,
Conheço a galinha e o galo,
Conheço o sino e a sineta,
Conheço a flor pelo talo
Conheço Abel e Caim,
Conheço o pote e o gargalo,
Conheço tudo, menos a mim.
Ofertório
Príncipe, conheço tudo em suma,
Conheço o branco e o carmim,
E a morte que o fim consuma.
Conheço tudo, menos a mim.
François Villon
Tradução por Ferreira Gullar
Rabiscado por Andarilha descalça
8:15 PM

Rabiscado por Andarilha descalça
6:32 PM
A vida passa lá fora,
Ou na pressa de uma roda,
Ou na altura de uma asa,
Ou na paz de uma cantiga;
E vem guardar-se num verso
Que eu talvez amanhã diga.
Miguel Torga
Rabiscado por Andarilha descalça
7:26 PM
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa.
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
Ary dos Santos
Rabiscado por Andarilha descalça
4:58 PM
Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
Hilda Hilst
Rabiscado por Andarilha descalça
10:35 PM

Rabiscado por Andarilha descalça
3:18 PM
À toa...
Nascem dias
em que o Sol se chama Saudade...
Nascem saudades
em que o Sol se chama Ausência.
Eis-me entre apeadeiros
onde o embarque me estende a mão
e os abraços me abrem o caminho
rumo à não-saudade...
E um dia...
Apago os versos
onde não te leio
fechando as portas da palavra
e abrirei as janelas de mim
onde aprendo a me ler
à toa... As páginas onde Estou
no livro: Eu Sou
de todas as viagens...
Poesia, musa
Tela de Renoir
rostos entre rostos
Sem Rosto!
Serei apenas a presença
que de minha ausência
fores ainda capaz de criar!
Na pureza de tua alma
num simples instante de lembrar
renascerei no teu amar
ao te criar os dedos
para me pintares
crescem-me os braços de abraçar
à toa neste existir
e sorrio feliz neste voar...
Manuela Pittet
in: "Rostos de Amor"
Rabiscado por Andarilha descalça
7:43 PM
O MARATONISTA
Ronaldo Costa Fernandes
que rumo persegue o maratonista,
avestruz no meio da rua?
que explicação tem o maratonista
para inventar outra fisiologia
fazer das pernas um moto contínuo?
que logra o maratonista nesta longa
jornada dia adentro,
vestido de suor e magreza?
que espera o maratonista
em seu cronômetro de pulsações por minuto?
que sonha o maratonista
em sua luta contra o relógio
cujos ponteiros são as pernas?
Não sabe o maratonista
que passar a vida correndo
é ver a vida correr e passar,
ele, que impulsiona o corpo,
desconhece que o corpo
é que é a pista de corrida da
maratona da vida.
Rabiscado por Andarilha descalça
7:04 PM
Rabiscado por Andarilha descalça
2:00 PM
“ Vem, serenidade!
Raul de Carvalho
Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Rabiscado por Andarilha descalça
2:05 PM
“O Amor”
Talvez, quem sabe, um dia
por uma alameda do zoológico ela também chegará
ela que também amava os animais
entrará sorridente assim como está
na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
o século trinta vencerá
o coração destroçado já
pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
tudo o que não pudemos amar na vida
com o estelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me
ainda que mais não seja
por que sou poeta
e ansiava o futuro
Ressuscita-me
lutando contra as misérias
do cotidiano
ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
quero acabar de viver
o que me cabe, minha vida
para que não mais existam
amores servis
Ressuscita-me
para que ninguém mais tenha
que sacrificar-se
por uma casa, um buraco
Ressuscita-me
para que a partir de hoje
a partir de hoje
a família se transforme
E o pai
seja pelo menos o universo
E a mãe
Seja no mínimo a terra.
A terra.
(Vladimir Maiakovski)
Rabiscado por Andarilha descalça
9:29 AM
Esta é a saudade:viver no afeto
E não ter morada no tempo
Estes são os desejos:conversa silenciosa
Horas diárias com a eternidade.
Esta é a vida. Até que de um ontem
suba a mais solitária de todas as Horas
Tão sorridente, diferente das irmãs
que se calam eternamente.
Rainer Maria Rilke
Rabiscado por Andarilha descalça
2:20 PM
Não Há Vagas
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.
(Ferreira Gullar)
Rabiscado por Andarilha descalça
9:47 AM
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente,
no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada,
olhando as rosas,e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade(Coração do dia)
Rabiscado por Andarilha descalça
7:07 PM
A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos,
os seus rostos envolvidos pela sombra.
Sua beleza é triste e nostálgica porque,
sendo moradores da alma, sonhos,
eles não existem do lado de fora.
Vez por outra, entretanto,
defrontamo-nos com um rosto (ou será apenas uma voz,
uma maneira de olhar, ou um jeito da mão...)
sem razões, faz a bela cena acordar.
E somos possuídos pela certeza de que este rosto
que os olhos contemplam é o mesmo que,
no quadro, está escondido pela sombra.
O corpo estremece. Está apaixonado.
Acontece, entretanto, que não existe coisa alguma
que seja do tamanho do nosso amor.
A nossa fome de beleza é grande demais.
Cedo ou tarde descobrirá que o rosto não é aquele.
E a bela cena retornará à sua condição de sonho
impossível da alma. E só restará a ela alimentar-se
da nostalgia que rosto algum poderá satisfazer...
Rubem Alves

Rabiscado por Andarilha descalça