Caminhos onde meu olhar pousa,
minha mente habita...
Caminhos de imagens,
palavras,
sentimentos...
Caminhos por onde transita
minha alma andarilha.
(Essência do olhar)
Selo amizade

Meu award


10:49 PM
>
I
Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.
Hilda Hilst
Do livro: "Amavisse", Massao Ohno, Editor, 1989, SP
Rabiscado por Andarilha descalça
8:14 AM
Separação de bens
Marisa Pimentel
Deixo as estrelas
que te fiz,
e levo o céu que criei.

Rabiscado por Andarilha descalça
4:40 PM
Não há palavras para descrever esse acontecimento
O poema inicia:
não há palavras pra descrever este acontecimento.
O poema inicia,
passeia imundo
limpo de verbo
que lhe minta o cio do silêncio
e silencia...
mergulha em metafísica,
evita o papel,
dilui em vapor onírico,
ausenta-se de si...
O poema
não espera tinta:
dá a partida
e deixa um louco revirando
o quarto
a sala
a casa
um planeta inteiro:
essa
esfero
gráfica
perdida.
É leve o poema,
69 quilos de nostalgia.
éter
na
mente
idílico
o poema vicia
O poema inicia:
não cabe no corpo.
Vaza pelos poros.
Evapora
O poema
O poema que já nem quero
transborda em devaneio
o universo desta hora.
Mero pó-poema
calcinado,
poema sem valia.
Não se fixa nas paredes
o poema:
asfixia.
Quer o suicídio
O poema...
(Subsídio para nem chegar a ser)
Olha a janela aberta,
Toma um pouco de ar,
Fecha os olhos...
Lá se vai o poema!
Harley Farias Dolzane
Rabiscado por Andarilha descalça
7:19 PM
Só assim será Poema
Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Hélia Correia

Rabiscado por Andarilha descalça
9:29 PM
Lua de prata de leite
Fernando Pessoa
Lua de prata de leite
Que tens um ar de amarela,
Quem foi que te pôs de enfeite
Ao céu, se não és estrela?
Rabiscado por Andarilha descalça
1:01 PM
Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga
Rabiscado por Andarilha descalça
5:50 PM
A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI
Affonso Romano de Sant'Anna
A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.
De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.
A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.
De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.
Rabiscado por Andarilha descalça
9:12 PM
Meus anjos
Argemiro Garcia
Os anjos do meu caminho?
perdi-os...
(quase todos).
Mas os anjos são assim: vêm e vão,
com um jeitinho...
angelical!
Seus caminhos, diferentes dos rios,
não seguem a gravidade:
há anjos que vêm, há anjos que vão.
Os que ficam, então,
felicidade nos dão.
Rabiscado por Andarilha descalça
3:32 PM
Esperemos
Há outros dias que não têm chegado ainda
Que estão fazendo-se
Como o pão ou as cadeiras ou o produto
Das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão –
Existem artesãos da alma
Que levantam e pesam e preparam
Certos dias amargos ou preciosos
Que de repente chegam à porta
Para premiar-nos
Com uma laranja
Ou assassinar-nos de imediato
Pablo Neruda
Rabiscado por Andarilha descalça
9:00 PM
Sim, é possível
LETRA PARA UM HINO
É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!
É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.
Manuel Alegre
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Rabiscado por Andarilha descalça
9:34 PM
Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?
David Mourão-Ferreira
Rabiscado por Andarilha descalça
9:17 PM
Poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Rabiscado por Andarilha descalça
8:50 PM
Mulheres
A visão da história se repete
E designa simples mortais,
Heróis, armaduras e batinas,
Mulheres santas, cafetinas,
Brancas das Ilhas, mulatas da Bahia,
Negras de Angola,
Italianas da Lombardia,
Alemãs da Pomerânia,
Mulheres lindas e vadias,
Levando odres de vinho,
Ouvindo dobres de sino
Batendo na freguesia.
Mulheres agüentando machos
Em seus corpos e sesmarias,
Mulheres de tantas cores
Parindo na ventania.
Mulheres índias fazendo cestos,
Fazendo filhos no meio do mato,
Rezando para o deus dos vencidos,
Mulheres índias mascando inhame
Para a chicha dos guaranis.
Mulheres de tantas cores
Palmilhando campo e história,
Mulheres esquecidas lavando panos e memórias,
Mulheres guerreiras de faca e pistola,
Mulheres montando potros
Plantando milho e vitórias.
Mulheres sangrando lua nas terras ainda sem dono.
Mulheres levando bivaques
Acompanhando batalhas,
Para enterrar os mortos,
Outras para saqueá-los.
Mulheres levando fronteiras nas aspas dos touros,
Mulheres sendo princesas de perdidos mouros.
Mulheres fazendo terra,
Tremendo os horizontes,
Mulheres amamentando
Machos e fêmeas
Bezerros e bizontes.
Mulheres são Ana Terra,
Heroínas de romances,
Mulheres são santificadas
Como Marias-degoladas.
Mulheres são Marias
E são Madalenas,
São puras e são matreiras,
São virgens
Namoradeiras.
Mulheres vão povoando
Os campos, as sesmarias,
Vão levando seus maridos,
Seus amantes, seus quebrantos.
Mulheres foram tantas
E fizeram tempo e história,
Mulheres dóceis e valentes,
Parindo guerreiros e gentes.
Mulheres e mais mulheres,
De todas as etnias,
Mulheres de fartos seios amamentando
O futuro que se anuncia.
(...)
de José Eduardo Degrazia
Rabiscado por Andarilha descalça
11:41 PM
Não fossem as manhãs
odeteronchibaltazar
Não fossem as janelas
que se abrem preguiçosas ao sol
eu nem veria esse céu
que anuncia
o que faço todo dia...
Não fossem os pardais intrometidos
eu não sentiria esse ar de casa de campo
com chocolate quente à minha espera
em mesa na varanda
com toalha de rendas
e porcelana branca...
Não fossem os meus gestos em rotinas
não haveria mais uma poesia
a sair de meu peito
com esse tum tum tum
a compassar com minha agonia.
Não fossem as buganvílias em flor
seria apenas mais um dia,
um dia qualquer
a se prolongar entre as sombras
onde a luz só rimaria com essa dor sem jeito.
Não fossem as borboletas
beijando cristais em pétalas,
eu estaria assim,
em vôo solo,
abraçando nuvens
mas querendo estar aninhada
em teu colo...
Não fossem estes versos,
nunca saberias
que nas manhãs grávidas de desejos,
eu me visto inteira
de nuances da tua lembrança...
Não fossem estas manhãs
eu nunca saberia
que na tua vida,
inteirinha,
eu caberia...
Rabiscado por Andarilha descalça
6:26 PM
NOSSO PLANETA
Sá de Freitas
Está nosso Planeta agonizante!
Seu fim à todos nós causa ansiedade,
Pois pode estar bem perto ou bem distante,
Dependendo do agir da humanidade.
E o homem, inconseqüente, continua,
Sua devasta por ganância cega,
E, quando advertido, ainda nega,
Que deixa a Terra, de recursos, nua.
Ah! Vasta ignorância que perdura!
Que falta de consciência e de cultura!
Que ausência de amor ao próprio lar!
E logo a sede se fará presente...
Virão doenças, fome e, de repente,
Nem ar teremos para respirar.
Rabiscado por Andarilha descalça